sábado, 14 de março de 2015

A CRÍTICA SOCIAL DO CHAPOLIN COLORADO

 
Quando eu era moleque já discutia constantemente sobre os seriados humorísticos do grande Roberto Gómez Bolanõs. E tive, como a maioria das pessoas, o conhecimento sobre os trabalhos do já saudoso Chespirito através dos seriados Chaves e Chapolin que até hoje são exibidos na TV.
A discussão era sobre qual destas duas séries seria a melhor. E eu acho que Chaves é um seriado feito para um público mais amplo, sua forma de fazer humor era mais simples e adorável. Mas não nos esqueçamos que, mesmo com todo o talento do elenco, o seriado perdia muito do seu brilho na ausência de certos atores, principalmente Ramón Valdéz e Carlos Villagrán.
Já o Chapolin, o considero um personagem mais completo, e hoje, como um adulto, tenho uma visão diferente dele. O Chapolin Colorado era um programa que satirizava abertamente a figura do super-herói, brincava e fazia galhofa desse universo, com seus personagens excêntricos e situações absurdas. Assistir as aventuras do Polegar Vermelho nos dias de hoje me deu um novo olhar, aquelas histórias tinham nuances que nunca percebi quando criança. Por isso, acredito que o Chapolin seja um personagem que você aprende a apreciar mais depois de mais velho.

Além de satirizar os heróis norte-americanos, o Chapolin trazia uma grande crítica social da América Latina. Afinal, ele era um herói “sem dinheiro, sem recursos, sem inventos sensacionais, fraco e tonto”, nas palavras do seu próprio criador. Mas por outro lado, mesmo sendo um grande covarde, o Chapolin também é valente por ser capaz de superar seu medo para ajudar a quem precisa.
"Herói não é aquele que não sente medo, mas aquele que o enfrenta", "A força bruta jamais conseguirá superar a inteligência". Todos esses valores foram ensinados pelo personagem de Chespirito.

Movimentos estudantis mexicanos na década de 60.
Agora vamos falar um pouco de história. O Chapolin surgiu em um momento de turbulência na América Latina. Em 1970, quando da estreia do seriado, acontecia a Copa do Mundo de Futebol realizada no México, sendo que o país ainda fora sede da Olimpíada de 1968. Estes eventos deram grande visibilidade ao México e à América Latina, palco de movimentos estudantis na década de 60, reflexos da Guerra Fria, disputa ideológica, militar e espacial, envolvendo Estados Unidos (capitalista) e União Soviética (comunista).
Para quem não sabe, o tio de Roberto Gómez Bolaños, Gustavo Díaz Ordaz Bolaños, foi presidente do México durante o período de 1964-1970. Seu governo não era ditatorial como o regime militar brasileiro (1964-1985), mas este governo também não tolerava protestos. Em setembro de 1968, o Exército ocupou a Universidade Autônoma do México (UNAM) para dar um fim as revoltas. E foi no dia 2 de outubro, às vésperas da Olimpíada, que 15 mil estudantes protestaram nas ruas da Cidade do México contra a ocupação da UNAM. O Exército mais uma vez foi chamado para acalmar a revolta e conter os manifestantes, e estes foram duramente reprimidos, no episódio que ficou conhecido como Massacre de Tlatelolco. Até hoje, não se sabe o número certo de mortos.

Massacre de Tlatelolco
A influência estrangeira nos países subdesenvolvidos foi tema de vários episódios do super-herói atrapalhado de Chespirito. Várias eram as citações irônicas e provocativas para com os super-heróis estadunidenses. No episódio em que enfrenta o Pistoleiro Veloz, o Chapolin chega a dizer que os seus rivais, como Batman e Superman, não gostam de mulheres. Algo semelhante acontece no episódio “No es lo mismo el pelotón de la frontera, que la pelotera del frontón” de 1976, quando o Chapolin, ao balançar em um cipó, comenta que ensinou o método “a um tal de Tarzan dos macacos, mas ele não aprendeu muito bem”.
Ah, nunca se esqueça: o Chapolin não bebe leite, prefere uma limonada com suco de tomate. Porque leite é para o Batman e o Superman que precisam de vitaminas.
O Chapolin se enche de patriotismo ao declarar que seus defendidos não precisam de “heróis importados”. Como bem explicou o Doutor Chapatin, também interpretado por Chespirito: “tudo começou quando o povo da América Latina se deu conta que seria urgente que tivéssemos um herói local, um herói autóctone, um herói que falasse a nossa língua”.
 
Afresco de Diogo Rivera - Tema Revolução Mexicana
Esse espírito nacionalista surgiu muito antes da chegada do herói. Em 1900, a sociedade mexicana estava dividida, enquanto a classe média (composta por cerca de um milhão de pessoas) desfrutava de certo conforto, trabalhando em escritórios e ouvindo músicas norte-americanas, havia a nação camponesa (com cerca oito milhões de agricultores, a maioria de ascendência indígena) que se encarregava da produção de grãos. Mesmo com uma economia essencialmente rural, a posse da terra era privilégio de somente 3 % da população. Assim quem detinha o poder no campo e o controle da riqueza nacional eram os latifundiários, uma realidade que persistiu até a década de 30.
Foi naquele tempo que o modelo norte-americano de progresso começou a ser questionado. Com o cinema chegando à América Latina em 1890, o pensamento latino-americano associou-se à Europa e aos Estados Unidos. Assim, era Hollywood quem definia o que o público esperava de uma produção cinematográfica. Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), 95 % de suas produções eram assistidas pelos novos espectadores.
 
 
A visão norte-americana dessa época valia-se da raça e da cultura para interpretar os vários povos latino-americanos, estes tidos como culpados pela pobreza, pela instabilidade e pelas ditaduras. Faltava-lhes disciplina para formar sociedades estáveis e democráticas. Criou-se a imagem de um mexicano preguiçoso e apático, muito embora a realidade dos lavradores e camponeses fosse outra.

Quando os Estados Unidos, em 1929, dirigiram para a América Latina 40 % de seus investimentos no exterior, movimentos nacionalistas transformaram a região, indo além da classe média urbana. Um ressentimento tomou conta das críticas ao imperialismo norte-americano, em virtude da perda de metade do território e de resquícios de políticas implantadas sistematicamente, como a Doutrina Monroe (1823).
 
Esse sentimento nacionalista foi colaborado pela Revolução Mexicana, liderada por Emiliano Zapata e Pancho Villa, que, além de ter derrubado o regime do General Porfírio Diaz (1876-1911), instituiu a Constituição de 1917, concedendo, entre outros direitos, o de propriedade da terra. A primeira vitória do campesinato.

Jorge Negrete
Foi durante ás décadas de 20 e 30 que houve um grande incentivo na produção nacional no país, com músicas e danças folclóricas, pratos tradicionais e artesanato. Os filmes mexicanos tinham tipos másculos como Jorge Negrete, versão mexicana do caubói norte-americano, que competiam agora com Hollywood. A produção cinematográfica das décadas de 40 e 50 também foi muito rica, graças a Fortino Mario Alfonso Moreno Reyes (1911-1993), este eleito há poucos anos o melhor comediante do México, com seu personagem Cantinflas, conquistando o público com seu jeito atrapalhado de falar.
 
Lázaro Cárdenas
Durante a presidência de Lázaro Cárdenas (1934-1940), buscou-se idealizar um México melhor e mais justo. Sobre o imperialismo norte-americano, Cárdenas declarou a famosa frase: “Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”.
Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os nacionalistas enfrentaram grandes desafios de ordem social, política e econômica, sofrendo também com a hostilidade dos Estados Unidos. Apaga-se, assim, a ideia do bom vizinho. Nos anos 40, o México dispunha de um sistema de partido único, o PRI (Partido Revolucionário Institucional), este caracterizava uma democracia aparente. Foi um período de notável crescimento, com a moeda mexicana mantendo-se firme. Os Estados Unidos exibiam prosperidade e “boa vida” através da mídia, com propagandas de carros e artigos domésticos. Entretanto, ofereciam pouca ajuda ao público mexicano, desejoso de alcançar tais bens.


Super Sam
No seriado do Chapolin Colorado, a hegemonia dos países industrializados no mundo subdesenvolvido é simbolizada por meio de Super Sam, interpretado por Ramón Valdéz. O personagem é o paradigma do poderio norte-americano: uniforme semelhante ao do Superman, com direito ao famoso símbolo no peito do traje azul, e cartola com as cores da bandeira estadunidense. Como nunca fora chamado para ajudar alguém, suas aparições na série eram fruto da intromissão nas ações do Chapolin. Enquanto o herói mexicano tem sua marreta biônica como arma, o Super Sam carrega consigo "a arma mais poderosa" (um saco de dinheiro) e diz “Time is money!” como seu lema.
O Super Sam não é nada mais do que uma sátira inteligente e certeira sobre a mais reconhecida característica norte-americana, uma clara alusão ao pragmatismo da política externa dos Estados Unidos, quase sempre visando ganho capital, em detrimento de qualquer valor moral.
 
John Kennedy
Em 1961, o então presidente dos Estados Unidos, John Kennedy propôs a “Aliança para o progresso” durante a Conferência de Punta del Leste, no Uruguai. Na proposta, Kennedy forneceria 20 bilhões de dólares aos países latino-americanos por dez anos. A execução do programa ficou comprometida em virtude do assassinato de Kennedy, em 1963, mas denota-se o viés ideológico da ajuda financeira dos Estados Unidos, em plena Guerra Fria e apenas dois anos depois da Revolução Cubana.
 
"De los metiches líbranos señor", 1973.
A estreia de Super Sam na série aconteceu em 1973, no episódio “De los metiches libranos señor”. Nele, o criminoso soviético Dimitri Panzov, interpretado por Edgar Vivar, deseja se casar com uma camponesa já comprometida. Ao chamar pelo Chapolin, surge o herói errado, Super Sam. A camponesa insiste que quer ser ajudada pelo Chapolin, que aparece tropeçando, como sempre.
No episódio, Chapolin e Super Sam duelam para decidir quem protegerá a pobre senhorita. Aproveitando-se da situação, Panzov rapta a moça e a prende dentro de casa com uma bomba. Chapolin corre do soviético, que, cansado, é levado a marretadas para dentro da casa da camponesa. Já Super Sam aproveitou-se da perseguição para entrar no local e desprendê-la, mas ela já havia se soltado e se encontrado com seu noivo.
A última cena do episódio é antológica. Com o soviético e o norte-americano dentro da casa, Chapolin, acidentalmente, senta no detonador da bomba, que explode. Do interior da casa, saem Dimitri Panzov e Super Sam, abatidos. O soviético saiu usando cartola; o estadunidense, o típico chapéu russo. O fim que mereceram os dois intrometidos. Essa é a resposta do povo mexicano às duas superpotências exploradoras: Fora do nosso país!
 
Já o episódio “Todos caben en un cuartito, sabiéndolos acomodar” de 1977 é carregado de sutis representações da relação entre Estados Unidos e América Latina. Em um hotel com somente um quarto disponível, Chapolin e Super Sam são atendidos por duas pessoas diferentes, que mostram o mesmo quarto aos dois heróis. No entanto, eles não se veem em nenhum momento. Logo na chegada dos personagens à hospedaria, nota-se a discrição e humildade do mexicano (ele carrega apenas com uma bagagem) e os excessos e o consumismo do norte-americano (ele traz cinco pesadas malas).
No mesmo quarto, América Latina e Estados Unidos entram em conflito: enquanto Chapolin fecha a janela do quarto, Super Sam a prefere aberta. Super Sam prepara seu café-da-manhã sozinho (o individualismo presente nos super-heróis e na sociedade norte-americanos) e Chapolin o devora. A hora de dormir ilustra a frase do presidente Cárdenas. Os dois heróis, sem preceber, passaram a noite na mesma cama.
 
“Todos caben en un cuartito, sabiéndolos acomodar”, 1977.
As referências históricas nestes episódios, como a alusão à Guerra Fria e à relação entre estadunidenses e latino-americanos, permeiam o trabalho de Roberto Gómez Bolaños em Chapolin, buscando satirizar uma época conturbada no mundo dos anos 60 e 70. A fraqueza latino-americana, em contraposição ao individualismo estadunidense, não é nenhum obstáculo para conseguir a vitória, pois o herói, embora não seja forte, é astuto, como diz o famoso grito de Chapolin Colorado: “Não contavam com minha astúcia!".

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