sexta-feira, 6 de maio de 2016

ANIMÊ: DO VELHO AO NOVO, O QUE PERDEMOS?

 
O mercado dos animês no Japão anda um tanto saturado. Um grande exemplo disso foi a série Dragon Ball Kai, provavelmente a maior piada do século (embora tenha curtido bastante). É verdade que há uma grande e notável crise de criatividade afetando não apenas o animê, como também as outras diversas formas de entretenimento presentes na mídia, como o cinema, os desenhos animados em geral, e até mesmo a música.
As melhores opções que a animação japonesa vem oferecendo são as adaptações de clássicos, como Jojo's Bizarre Adventure e finalmente um novo animê da Sailor Moon reproduzindo fielmente o mangá original, um presente para as fãs (e para os fãs machos também). Com Saint Seiya foram produzidas séries de qualidade duvidosa, como "Omega", e Soul of Gold, que apesar de tantas falhas foi também muito bom. Não seria a hora de finalmente ser produzida uma continuação para Lost Canvas? Ou a tão sonhada adaptação do Episódio G? Se Sailor Moon pode voltar com uma série fiel ao mangá, por que não fazer o mesmo com Saint Seiya? Dragon Ball também voltou, pagando mico com o "Super", feito o que acontece com os personagens clássicos do Cartoon que retornam em animações igualmente duvidosas.
Isso quer dizer que não é produzido mais nada novo e com qualidade no Japão? Errado! Há muita novidade em séries de grande qualidade (como o fenomenal e incomparável Tokyo Ghoul), mas os animês atuais simplesmente não têm o mesmo apelo que os antigões.
Apesar de ser um nerd nostálgico assumido, reconheço que os anos 80 produziram igualmente muitas séries de baixa qualidade, mas nada se compara ao que se vê em produções péssimas e sem caráter produzidas no Japão principalmente depois de 2003. Os animês clássicos refletiam um momento fantástico da mentalidade do jovem no Japão, e os muitos (não todos) animês atuais refletem a crise e a perda de identidade. Vejam um personagem clássico como Joe Yabuki, um jovem lutador que encontra no boxe uma verdadeira alegoria da sua própria vida, e das vidas de todos nós, ele muitas vezes cai, mas nunca desanima e sempre volta a se erguer. Já os animês "modernos" parecem estar mais preocupados com as aparências da produção do que em transmitir uma mensagem edificante. Essa é também a triste verdade por trás da chamada "arte" moderna.
Eu sou chato mesmo. Por isso aqui vai uma lista com as principais qualidades das séries clássicas japonesas em comparação com as modernas, e ainda o que pode ser feito para melhorar o momento atual.
 
 
 
Melhores Character Designs
 
O visual de muitos dos animês mais modernos não tão atraentes. Na verdade, é possível encontrar alguns que são mesmo simplesmente feios. Quer um exemplo? Code Geass. Não quero tirar todo o mérito desta obra, mas o desenho dos seus personagens, estas figuras esqueléticas horríveis, não é dos melhores. Para as garotas que estão lendo esta postagem, eu realmente gostaria de perguntar se elas acham esses bishonen atraentes? Se assim for, então precisamos conversar sobre isso. Mesmo em obras mais antigas, pelo menos até o final dos anos 90 e início dos anos 2000, a anatomia era muito mais respeitada pelos desenhistas. Não estou dizendo que todos os personagens de animês precisam ser enormes e musculosos feito o Gutts ou o Goku. O Spike Spiegel de Cowboy Bebop era magro, mas ele ainda poderia chutar bundas sem o risco de quebrar uma perna. E o bom e velho Spike ainda era a fantasia de muitas fangirls que curtiam o estilo deste fantástico animê dos anos 90, um dos melhores já feito. E não podemos deixar de mencionar os animês e mangás produzidos entre os anos 80 e início dos anos 90. Em Dragon Ball, Hokuto no Ken e Baki The Grappler, por exemplo, os seus personagens têm músculos, o desenho tanto dos músculos masculinos, quanto das curvas de suas voluptuosas personagens femininas, é muito melhor trabalhado, respeitando a anatomia. E a maioria desses personagens são atraentes também (ou, no caso de Yajirobe, pelo menos divertido de se ver).
 

 
Enredos que fazem sentido
 
Houve uma época em que o animê seguia um enredo lógico. As obras mais modernas, como Inazuma Eleven e sua sequência Inazuma Eleven Go, apresentam um início um tanto lógico. Inazuma era originalmente sobre um grupo de crianças enfrentando outras crianças em jogos de futebol locais. No entanto, a história acaba perdendo-se na insanidade, com lutas contra anjos e demônios através de torneios de futebol e, mais tarde com a série Go, são adicionados ao enredo viagens no tempo e outros elementos de sci-fi. Como chegamos ao ponto em que vemos demônios envolvidos com futebol? Por que eles se preocupam tanto com este jogo? Há uma partida contra extraterrestres, que depois revelam não ser realmente alienígenas, mas crianças que sofreram lavagem cerebral! Eu pensava estar apenas assistindo um programa sobre um clube de futebol do ensino médio! Mesmo com todas as suas falhas e loucuras, diga-se de passagem, sou mais o clássico Super Campeões (Captain Tsubasa), e ainda o pouco conhecido Hungry Heart (o melhor de todos), como animês envolvendo esportes, no caso especificamente o futebol.
Lógico que já na década de 90 os animês desenvolviam enredos cada vez mais loucos. A série, ou melhor, as séries Tenchi Muyo são um perfeito exemplo disso, mas elas nunca, por mais que se prolongassem, mudavam tão drasticamente a proposta inicial de seu enredo. Sailor Moon era sobre um grupo de meninas que vão à escola durante o dia e ainda encontram tempo para lutar contra o mal e proteger o nosso planeta. Gundam Wing era sobre um grupo de jovens soldados que defendiam a Terra. Dragon Ball Z era sobre um grupo de super-heróis salvando a Terra enquanto lidavam com os seus próprios dramas pessoais (sim, DBZ era mais profundo do que as pessoas gostam de pensar). Sempre haveria elementos dramáticos adicionados, mas no geral, o enredo permanecia praticamente o mesmo.



Tipos diferentes e únicos de personagens
 
Todo o espectador regular de animês espera encontrar certos tipos de personagens. Eu sei, por exemplo, que vou provavelmente ver o herói (ou a heroína) atrapalhado e pouco inteligente que come uma tonelada (seja o Goku, seja a Serena). Muitos personagens nas atuais produções seguem um padrão, quase como uma cartilha. Você pode esperar para identificar de cara quem do elenco de personagens será a menina mal-humorada/tímida, o nerd, o cabeça quente, etc. Apesar desta cartilha não ser tão incomum nas histórias clássicas, parecia haver uma variedade muito maior de personagens. Por exemplo, em Outlaw Star, Aisha Clan-Clan é uma fanfarrona e Jim Hawking é um garoto muito maduro para a sua idade. Em DBZ, Yamcha (não estou contando uma piada) é um atleta que foi inicialmente foi apresentado como um ladrão com medo de mulheres, até que mais tarde se torna um playboy, e o Mestre Kame é um pervertido mestre das artes marciais. Em Yu Yu Hakusho, Kurama, devido sua aparente fragilidade (e uma quase androgenia) e seu porte físico desprivilegiado, é confundido com um dos personagens mais fracos do elenco quando, na verdade, é um dos personagens mais poderosos de toda a obra, e o mesmo vale para a velha mestra Genkai. Os mangás dos anos 70 e 80 eram memoráveis justamente por causa de seus personagens únicos, como tivemos em Ring Ni Kakero, Ashita no Joe, Hokuto no Ken, Devilman e Cat's Eye. Uma variedade de personagens faz um animê ainda mais memorável.


 
Emoções realistas
 
É irritante o melodrama que permeia alguns dos mais recentes animês. Não me interpretem mal, melodrama é impressionante, mas às vezes chega a ser um pouco demais. Um exemplo de uma animação que foi longe demais, tornando-se quase irritante, foi Casshern Sins. O projeto final desta animação era demasiadamente melodramático. E sim, como era de se esperar, prefiro o Casshern original de 1973, e mesmo o live action de 2004, que eu gostava de definir como um Jaspion (o mito!) com efeitos especiais do Homem Aranha de Sam Raimi. O animê ficou velho? Sim. Seu roteiro parece ultrapassado? Com certeza! Mas pense melhor sobre isso. Em 1973, Casshern era super-inovador! Diferente de sua releitura moderna. Tanto o original, quanto o seu mais recente revival, falam sobre a luta de um androide super-poderoso para libertar o mundo da tirania de furiosos super-robôs que invadiram a Terra. Casshern Sins conta a história com uma abordagem mais sombria que o original, com um tom semelhante ao filme live action de 2004. Existem muitos novos animês que mostram como ainda é possível contar uma história simples, sem necessidade de melodrama barato. É pedir muito de um animê que ele tenha um grande culminar emocional, como foi com o final de Cowboy Bebop? Aquele sim foi um final fantástico! Ele mostrou como todos os personagens reagem à sua própria maneira à decisão de Spike quando ele partiu para a sua luta final com Vicious. Os personagens choram, sentem raiva, passando uma grande sensação de realidade. As diferentes emoções deram uma tremenda profundidade final.
 

 
Um humor realmente engraçado
 
Animês atuais extremamente melodramáticos deveriam aprender a ter algum espaço para o divertimento. Falta um humor sincero e realmente engraçado nos animês de hoje, e não falo de apenas injetar algum odioso e estranho episódio filler como se vê com tanta frequência. Sei o que está pensando: "Mas alguns animês são voltados apenas para o drama! Não há espaço para o humor!". Bem, isso é verdade, mas há algum espaço quando é um desenho sobre a luta contra os problemas do mundo através do esporte e da amizade. A minha regra é que se o desenho não é como um Grave of Fireflies, então podemos injetar algumas risadas nele. Mesmo os animês mais pesados ​​dos anos 90 sabiam como divertir. Mobile Suit Gundam: The 08th MS Team é um animê com alguns temas mais sérios, o principal deles sendo a guerra, mas de vez em quando havia um momento para lembrar o espectador que, embora nós estejamos assistindo a um capítulo de uma space opera, seus personagens ainda têm interações divertidas uns com os outros e nos fazem experimentar algum humor na animação. Seria muito mais fácil conduzir um enredo mantendo o animê o mais sem graça possível, mas sem a breve pausa nesta seriedade, o público acaba se cansando.


 
Personagens memoráveis
 
Este não é um problema tão abrangente quanto passa parecer nos animês modernos. Existem personagens de obras mais atuais que são muito bem trabalhados com suas histórias, personalidades, enfim, personagens reais. O problema são personagens que repetem estilos já cansativos e manjados. Como você define personagens de séries como K-On!? Sei que a série deve ter uma grande legião de fãs. O motivo não posso compreender. É uma animação terrível. Tudo o que fazem é comer! E tocar mal os seus instrumentos!
E ainda há o problema dessa bizarra cultura moe que empesteia os animês modernos. Nunca mais veremos personagens fantásticos e únicos como Ikki de Fênix ou Toki, ou vilões memoráveis e carismáticos como Saga de Gêmeos ou Raoh.
Neste caso, por mais clichê que possa parecer, é melhor nos voltarmos para o passado. O animê atual precisa ser repensado com os rumos que ele toma, porque já está ficando muito descaracterizado. Mesmo Yugi Muto de Yu-gi-oh!, um animê sobre duelos de baralhos, é muito mais interessante do que grande parte dos protagonistas de certos desenhos animados do século XXI.
 

 
Shoujos melhores
 
Shoujo não é a minha praia, por isso não tenho muito mérito para escrever sobre ele. No entanto, com o limitado interesse que tenho pelo estilo, posso dizer que os desenhos para garotas até os anos 90 eram muito mais atraentes do que estes atuais.
O básico que percebo com relação ao animê para garotas é uma história com coisas meigas, chás, doces e música pop açucarada. Isso faz realmente fãs? Quando paro para pensar o que já vimos sobre shoujo no passado, ele pode ser também incrível! Nestas clássicas histórias, vemos meninas que também curtem coisas açucaradas, mas que salvavam vidas! Isso mesmo, jovem garotas que lutam contra o mal e salvam vidas! A grande sacada do clássico é que o seu público poderia ser primariamente as garotas, mas poderia também agradar na mesma intensidade aos outros públicos interessados por animação. Sailor Moon era muito top, as personagens eram muito divertidas, interessantes e fortes. Eu era fã do seu enredo cativante e das pernas da Sailor Mars! Também não podemos deixar de lembrar do ótimo Guerreiras Mágicas de Rayearth, embora este seja o único trabalho do CLAMP que me agradou, porque tinha algumas lutas e vários elementos de RPG.
Escaflowne era o meio termo, uma história Shoujo com elementos de Shounen, como batalhas de capa e espada e mechas. No tempo em que frequentava o Animefã na cidade onde atualmente moro, ele era chamado de "animê de viado" (em parte por seu romantismo excessivo e por seu traço bisonho), e ninguém dava o braço a torcer para defender as suas grandes qualidades, mas a sua história era inspiradíssima, sua trilha sonora (bem próxima da música sacra) era perfeita, e havia personagens fantásticos como Folken e Dornkirk. Mas agora que os anos passaram e ele se tornou um clássico, as pessoas parecem ter mais liberdade para apreciar as bem sacadas alegorias presentes em sua história.
Tudo isso fez do shoujo grande algum dia.


 
O enredo sobre o estilo
 
Era abundante a presença dos animês em nossas tevês nos anos 90. E o estilo da animação foi o que me atraiu em primeiro lugar. Mas parece que hoje em dia os valores da produção ganharam precedência sobre o enredo. O maior incômodo sobre alguns dos animês de hoje é que há geralmente um maior foco sobre a produção do que sobre o desenvolvimento de uma grande história. Quero dizer, sabemos que todos nós comemos com os olhos primeiro, mas todos também sabemos que, por vezes, o prato mais feio pode ser o mais delicioso. Mesmo que o desenho tenha valores de produção muito elevados, a produção não vai viver sem um enredo igualmente espetacular.
Trigun, Cowboy Bebop e Berserk tinham uma animação que nem chega aos pés das produzidas atualmente, mas apresentavam histórias interessantes e divertidas, e seus enredos eram fenomenais, os melhores já feitos em toda a história da animação.


 
Coração
 
Esse é o clichê dos clichês, um outro problema que eu já havia insinuado é que parece que em muitos animês de hoje está faltando algo muito simples: o coração. Animê atual tem o seu estilo; não bastaria apenas uma história legal para ele se tornar memorável? Está cada vez mais difícil encontrar animês com uma boa história e estilo e isso é uma vergonha. Tudo que eu quero é estar confortável enquanto assisto um programa de televisão, e não ficar irritado ou aborrecido. Apenas me entreter! Parecia que quase todos os animês antigos tinham o "coração" no centro da sua narrativa, como foi o caso de Rurouni Kenshin. Mesmo que fosse uma história abordando principalmente combates entre samurais (os melhores sem o envolvimento de poderes especiais) havia ainda uma história sobre um grupo de pessoas que acabam tornando-se uma família unida. Atrevo-me a dizer que a ideia de animê ficou muito comercializada. Mesmo que as produções modernas tenham o seu charme e grandes qualidades, faltam os questionamentos e a filosofia, a mãe de todas as ciências, apresentada nas antigas produções.

Frases ditas por Kenshin Himura:

"Assim como os dias passados não tem volta, as lágrimas não podem voltar aos olhos de quem as derramou."
"Os mortos não desejam a vingança, apenas a felicidade dos que vivem."
"Nenhum humano da sociedade deveria ser considerado menos valioso do que outro."
"Matar, mesmo que por justa causa, não é bom. Ao final restam apenas lágrimas e uma espada solitária."
"Cada um de nós tem a sua própria vida para viver. É uma jornada, não uma separação..."


 
Os animês clássicos eram mais verdadeiros
 
Este resume tudo o que foi apresentado nos tópicos anteriores.  O animê não era um desenho qualquer. Tinha uma atmosfera mais madura, com histórias sérias e um lado filosófico bem elaborado. Adultos curtiam e elogiavam as histórias e todas aquelas animações, tão boas quanto muitos filmes que também assistíamos. Desenhos animados cheios de risos, combates reais e drama, a receita completa para um programa de sucesso. O segredo está na simplicidade.


Nostalgia não define o sentimento por estas pequenas grandes obras!