domingo, 15 de fevereiro de 2015

O MODERNO ANTICATOLICISMO: REALIDADE X FICÇÃO


Crucificação dos 26 mártires em Nagazaki,
5 de Fevereiro de 1597.

Esta é uma postagem para uma causa e para uma denúncia, um assunto delicado, mas que deve ser falado. Antes de me acusarem, digo que não sou religioso, então (se você é anticatólico) não venha dizer que estou fazendo uma postagem tendenciosa.
Que desabafo! Prometo que tentarei deixar a postagem mais divertida...
Com relação as mídias pode-se dizer que em muitas delas há o preconceito anticatólico. Mas eu ainda vejo isso em vários lugares como uma paranoia. Por vezes na ficção aparecem sacerdotes como vilões poderosos e muito bons de briga mais como uma ironia. Muitos destes personagens são até bem divertidos. Falar da Igreja Católica fascina muita gente, principalmente aqueles que pouco dela conhecem.    
            
Meme de Enrico Pucci, do mangá Jojo's Bizarre Adventure.

De acordo com o escritor Philip Jenkis, o Anticatolicismo é o último preconceito aceitável, e não há como contestar este juízo. A retórica anticatólica nunca foi reconhecida como sendo um problema social. Na mídia, o catolicismo é tema para sátiras, e programas de TV atacam opiniões, doutrina e líderes católicos. Tudo isto é apoiado na já manjada desculpa da liberdade de expressão. Mas a tal chamada tolerância para com a liberdade de crença não se aplica quando figuras católicas estão envolvidas. Um exemplo disso é o grande paraíso da liberdade de expressão chamado internet. Em sites, blogs, etc. é possível ver cada insulto, visão preconceituosa e opiniões ofensivas que as pessoas jamais sonhariam em falar de qualquer um outro grupo religioso, mas da Igreja Católica parece que se pode falar o que bem entender.
Atualmente isto é cada vez mais comum. Os ataques e ofensas que católicos do mundo inteiro sofrem, caso fossem dirigidos a outros seguidores de diferentes crenças, dariam o que falar durante anos e até poderiam destruir a vida da pessoa que os proferiu. Mas quando o alvo são os católicos, continua tudo numa boa. E ai de todos os católicos se algum criminoso declarar-se católico.
O anticatolicismo é bem definido como o "antissemitismo dos liberais" e é até visto como uma virtude, sendo amplamente tolerado e incentivado. Em alguns países, historicamente, padres e bispos ocuparam um lugar de destaque na ordem política e social, o que fez com que fossem os primeiros alvos do descontentamento popular. No imaginário anticlerical, o clero é frívolo, hipócrita, formado por pedófilos e déspotas megalomaníacos.

Enrico Maxwell, do animê Hellsing (Um déspota megalomaníaco).
Na América Latina o anticatolicismo cresceu assustadoramente nos últimos anos e vemos semanalmente igrejas sendo profanadas, destruídas e incendiadas.
E, obviamente, um católico pode ser anticatólico. Um exemplo mais atual seria o famoso ex-frei Leonardo Boff.
Já que falei de Hellsing, gostaria de comentar sobre a visão que este animê/mangá passa sobre os católicos. A organização Iscariotes (Seção XIII do Vaticano) é a rival da Hellsing (Ordem dos Cavaleiros Protestantes da Inglaterra) no combate aos Vampiros e outras forças das trevas. A Iscaritotes é formada por um bando de fanáticos psicóticos como o tão temido Paladino Alexander Anderson.

Nosferatu Alucard e Paladino Alexander Anderson, rivais no animâ Hellsing.
Hellsing é um tipo de obra que flerta com o anticatolicismo, mas ainda não acredito que o seu autor Kouta Hirano tenha tido a intensão de ser ofensivo, embora ele tenha baseado a sua história em todas aquelas lendas negras criadas em torno do catolicismo, que dominam as salas de aulas do Ensino Médio, perpetuadas pela propaganda anticatólica desde os tempos da Reforma e com os Iluministas. Assistam ao documentário da BBC "O Mito da Inquisição" e entenderão.

O próprio vampiro Alucard, que trabalha para a Hellsing, joga estas lendas na cara de Enrico Maxwell, chefe dos Iscariotes, como se fossem a mais pura verdade, e ninguém o retruca. É hilário para os historiadores sérios escutarem um vampiro que defende a Igreja Anglicana acusar com um "matando todos aqueles que não concordam com vocês", sendo que o rei Henrique VIII, que fundou a instituição religiosa que Alucard defende, fazia exatamente isso com todos os católicos que se recusavam a aceitar o seu Ato de Supremacia que o tornava chefe da Igreja na Inglaterra. Milhares de católicos, leigos e sacerdotes, foram mortos, conventos e igrejas destruídas e seus bens confiscados pela Coroa. Muitos mártires surgiram naquele tempo, como São Thomas More e São João Fisher, fatos estes totalmente ignorados, para variar. E esta é uma das maiores das injustiças históricas: Não importa a quantidade de crimes que cometam contra a Igreja Católica, ela sempre deve ser pintada como vilã.

Alexander Anderson, mangá Hellsing.
Eu gosto muito do padre Alexander Anderson e também do Alucard. Eles são bem parecidos na forma como fazem "justiça", sem falar que Anderson é tão assustador quanto engraçado, e para mim, ele a alma de Hellsing, poderoso e cheio de masculinidade, sem falar que possui uma nobreza e humanidade (ainda que distorcida) que não é encontrada em nenhum outro personagem deste animê/mangá. Enquanto Alucard é um vampiro arrombado (com o perdão aos fãs, mas os moços do Team Four Stars já fizeram piadas suficientes com o Anderson). Aliás, Alucard faz muito bem o típico papel de acusador desinformado/mal intencionado e hipócrita, tão comum nos dias de hoje.
Brincadeiras a parte, Anderson e Alucard nos ensinaram que a maldade pode vir da bondade, mas a bondade também pode vir da maldade. Hellsing não é bem um animê/mangá sério, considero-o um Shonen atípico, com muitas características de Seinen, como a violência e a temática polêmica.

Amakusa Shiro Tokisada (ao fundo), chefão do primeiro game
Samurai Shodown da SNK e presença garantida nos demais
jogos da série. Inspirado em personagem real de mesmo nome,
líder da rebelião dos Cristãos japoneses em Shimabara.
Vendo estes retratos do fanatismo, embora não com a intensão de ofender, mas sim de divertir, fico pensando: Há muitos personagens, particularmente na cultura nerd, que mostram um retrato positivo de católicos?
Definitivamente. Alguns são apenas personagens secundários, enquanto outros têm papéis importantes em suas respectivas narrativas, mas todas retratam católicos que realmente vivem a sua fé de maneiras louváveis para católicos e não-católicos.

O bondoso e tolerante Arcediacono em O Corcunda de Notre-Dame da Disney.
O Arcediacono em O Corcunda de Notre-Dame da Disney desempenha um pequeno papel como um bom católico real, em oposição ao juiz Frollo, um mau. Aqui mais um exemplo de que este tipo de vilão pode ser bem legal. Frollo rouba a cena de todo o filme, representando a hipocrisia do pensamento religioso, e como bem definiu o Nostalgia Critic: "O lado negro da cruz".
Mas claro que o juiz Frollo, perto de um Enrico Maxwell, fica parecendo uma boa pessoa.

HQ de O Demolidor, Marvel Comics.
Apesar do filme do Demolidor ser uma porcaria, há momentos interessantes (na verdade os únicos), proporcionados pelo Padre Everett, que é confidente e confessor do "homem sem medo". A interpretação de Everett é um dos melhores retratos cinematográficos de católicos que eu já vi.
Ele entende o que o Demolidor está fazendo e se compadece dele, mas como é acima de tudo um pacifista, desaprova as ações do super-herói e tenta ajudá-lo a encontrar um pouco de paz que não envolva o combate ao crime e à violência.

Batman Animated Series
"It's never too late" é um episódio de Batman Animated Series, uma das mais revolucionárias e influentes animações de todos os tempos, a qual nós, que tivemos o privilégio de viver os anos 90, curtíamos como o desenho mais legal da DC Comics.
O papel do Batman neste episódio é simplesmente ser parte de algumas sequências de ação e apenas mover a trama quando ela precisa ser movida. Bruce Wayne é um dos espectadores para o drama criminoso que acontece. "It's never too late" funciona muito bem sem muito do impacto do cruzado de capa.
Batman pede ajuda ao padre Michael Stromwell para salvar uma "alma perdida". O padre expõe todas falhas do seu irmão Arnold, um amargurado e decadente chefe do crime. Este é muito arrogante e tem firmes convicções, mas parece desesperado por correção, devido ao caminho errado que tomou e pelo o que o submundo das drogas e do crime fez a ele e a sua família.
Muito da visão positiva dos católicos está presente neste episódio. O arrependimento pelo peso do pecado, o perdão, a misericórdia infinita. O padre é uma figura muito simpática e forte, suas palavras são cheias de compreensão e ele nunca força ninguém a mudança, porque como dizem: "conversão é um processo lento". Arnold tem a chance de fazer a coisa certa e salvar a si mesmo, ainda que possa parecer tarde. Sua falta de aparecimento no resto da série (com exceção de uma breve recapitulação) indica que ele aderiu a sua "aposentadoria". Nunca é tarde demais.

A freira heroína Rosette Christopher, animê Chrono Crusade.
De volta aos animês e mangás, eu curto muito os personagens católicos que aparecem. Os japoneses são um dos povos que mais tem fascinação pelo tema. Um detalhe interessante: para o povo japonês, padres e freiras correspondem aos seus ninjas e samurais.

Animê Ghost Hunt
Apesar de eu curtir muito mais os personagens que sabem dar porrada, é bacana quando aparece algum sacerdote que segue mais o padrão. No animê/mangá Ghost Hunt temos o padre John Brown, um sacerdote australiano que as vezes usa trajes clérigos e pode ser visto lendo a Bíblia e recitando a oração do Pai Nosso. Apesar de ser bem jovem, é um dos exorcistas do grupo de caçadores de fantasmas da série, e o mais legal é que ele tem muitos amigos, inclusive um monge Budista e uma sacerdotisa Xintoísta.

Mangá nacional do Chico Bento Moço - Pessoas do interior são sempre retratadas como muito religiosas.
Curioso que a maioria dos personagens que aparecem nas mídias são sacerdotes e freiras. Poucas são as vezes em que na ficção tentam passar um retrato positivo dos católicos através dos leigos, mas eles também existem.

Kurt Wagner, X-Men Noturno
Em X-Men da Marvel Comics, Noturno é um mutante com o dom da teletransportação e com uma aparência demoníaca, e é realmente um católico devoto que se torna um monge, mas abandona o hábito para seguir a sua carreira de super-herói. Os monges de sua ordem também são pessoas que aceitam Noturno, apesar de sua aparência e habilidades mutantes. Noturno prega o amor e a compreensão, mesmo para aqueles que querem machucá-lo, e tenta não recorrer à violência, a menos que ele deva.

Valjean e Fantine, filme Os Miseráveis.
Quem viu o filme Os Miseráveis tem alguns outros bons exemplares da presença dos leigos.
Os Miseráveis pode ser considerada uma história positiva para católicos. O mais fodão de todos é logicamente o herói da história, Jean Valjean, um homem comum que se esforça tão valentemente para viver a mensagem que acredita. Penso eu, é muito profundo.

Voltando agora ao que foi dito no começo da postagem... Como eu já disse, não sou religioso. Tenho um pensamento pessimista ou talvez apenas realista (mas eu não me orgulho nem um pouco disto). Apesar disso, um dos meu melhores amigos (confesso também não ter muitos) é um padre, ele não é muito mais velho do que eu, e é uma das pessoas mais inteligentes que conheci, tendo várias graduações. Já trabalhamos juntos várias vezes na rede pública de saúde, já que ele sempre está lá para ouvir confissões ou fazer orações. Muitas vezes foi alvo de agressões verbais ou físicas por andar na rua de batina (ele precisa ser identificado como um padre para fazer o seu trabalho). Nossos conhecidos já perguntaram se não gostaria de ter voltado atrás na escolha da sua profissão, para evitar esse tipo de coisa, mas ele sempre responde de forma serena, com aqueles sermões sobre missão, cruz, salvar as almas, mesmo as daqueles que o odeiam. Ele gosta muito do que faz e é muito feliz com seu trabalho.
Eu não sou historiador, meu negócio é saúde, entretanto de uma coisa eu tenho certeza: na História não existem verdades, no plural, mas somente uma, a qual foi baseada em fontes históricas, em especialistas, não no professor de ensino médio aposentado que foi pago para fazer um livro. Qual é sua visão sobre a Igreja e a Idade Média? A maioria vai dizer: Idade das Trevas, tortura, atraso da ciência, falta de estudos.
Um professor de História que conheci quando fiz um cursinho para me preparar para os concursos públicos, anos atrás, revelou as verdades histórias, revoltando muitos dos meus colegas de classe que esperavam mais uma oportunidade para atirar pedras contra a Igreja, a qual este professor (sendo infelizmente um em um milhão) atribuiu a criação do Método Científico, as origens do Direito Internacional, a construção de hospitais e universidades, dentre muitas outras realizações que contribuíram para a construção da nossa Civilização Ocidental. 
As universidades, que foram uma das invenções da Igreja, ironicamente hoje são usadas como uma das formas para destruir a cultura católica. O clero preservou a cultura clássica e lançou importantes estudos para várias vertentes da Ciência e da Filosofia. A sugestão que dou para quem quer conhecer mais deste tema é a leitura de autores como Thomas E. Woods Jr. Vai ajudar muito a fazê-lo perder um pouco do seu preconceito, isto é, se quiser perde-lo.
Só mais uma dica: Seth Macfarlane, Leonardo Boff, Jean Wyllis, Luciana Genro, Opera Mundi, Yuri Grecco e Pirulla, Carta Capital, Gregorio Duvivier, Fabio Porchat e (claro!) Rede Record de Televisão não são fontes históricas!

Padre Sentaro Kawabuchi, animê Sakamichi no apollon.
Voltaremos a falar sobre o tema!
Até a próxima!

domingo, 1 de fevereiro de 2015

AMIZADE, ÉTICA E CONVICÇÕES POLÍTICAS

 
Continuando com a série sobre a "virtude da amizade", hoje vamos analisar a fase dos quadrinhos do Lanterna Verde de Denny O'Neil, cuja revista em meados da década de 1970 passou a se chamar Lanterna Verde e Arqueiro Verde. E é claro que esta postagem também vai ter pôneis.
 
The Power Ponies
Como fã confesso de quadrinhos e apaixonado pela mitologia dos super-heróis, sou obrigado a iniciar a postagem comentando sobre um certo episódio de MLP: FiM que para mim foi um dos melhores já feitos, estando no meu TOP 10 dos episódios mais fodas deste desenho animado.
 
É o episódio 6 da quarta temporada da animação, intitulado Power Ponies.
Uma das melhores coisas de MLP: FiM são as pequenas referências presentes, discretas de tal modo que apenas os fãs poderão entende-las por conta própria.
Por exemplo, um dos personagens recorrentes é um pônei cuja Cutie Mark é uma ampulheta  e o seu nome é Doctor Whooves. Outra é que há um final de um episódio que é bastante semelhante à cerimônia do encerramento do primeiro Star Wars. 
Mas o episódio do qual falei no começo é cheio de todos estes tipos de referências, e mesmo sem conhecê-las, você pode aproveitar o desenho. Aqui os personagens principais são sugados para dentro de uma história em quadrinhos e se tornam os personagens-título, cada um com o seu próprio superpoder original que por sua vez é uma referência a um outro super-herói.
Rarity recebe o poder de criar construtos de energia com a sua mente (uma referência ao Lanterna Verde, de quem já falaremos), mas na maioria das vezes eles são usados para fins de moda e glamour. Pinkie Pie pode correr a velocidades supersônicas (como o Flash), mas ela usa seu poder para correr pela rua até a loja de cupcakes sem que ninguém perceba.
 
Nota-se nesta altura do campeonato que os roteiristas sabem muito bem quem são o seu público, não apenas garotinhas pré-escolares, mas também marmanjões fanáticos pelo desenho e que curtem bastante esse tipo de homenagem.
 
O resgate ao conceito clássico do super-herói é emocionante nos dias de hoje, em que ele tem sido esquecido por completo. Vejam o que fazem com o Superman por exemplo, que vem perdendo toda a sua aura de altruísmo e martírio em favor da humanidade. Eu, que já fui um DCnauta, tenho ficado bem descontente com o atual nível das histórias em quadrinhos, mas vejam só que o cinema da Marvel tem buscado o resgate dos conceitos clássicos de heróis, o filme "Os Vingadores" não me deixa mentir.

Super-heróis em conflito.
Existem histórias boas e o resto. Aquelas que são boas podem ser divididas entre as que têm potencial de mudar quem as lê e as que podem transformar o mundo. Com a missão de reformular o Lanterna Verde, Denny O'Neil e Neal Adams criaram esta memorável sequência de histórias, que sem dúvida fizeram com que os quadrinhos deixassem de ser simples entretenimento e passassem a ser vistos como uma forma de expressão com potencial para mudar o mundo.
 
Uma bela fase da DC Comics, mas que deve ser analisada com muito cuidado ao vermos nos dias de hoje. Por quê? Já explico.
 
O'Neil trouxe relevância com o mundo real às página de histórias em quadrinhos, com o Lanterna Verde, Hal Jordan, e o Arqueiro Verde, Oliver Queen, explorando o outro lado da história norte-americana.
Para ser honesto, estou um pouco em cima do muro sobre essas histórias. Historicamente, é claro, elas são muito importantes. É aqui onde a caracterização de Oliver como um liberal radical foi definida, uma persona que permaneceu para a maioria dos leitores como característica definidora do Arqueiro Verde para as próximas três ou quatro décadas. Esta foi também a base para a sua amizade com Hal Jordan, que se tornaria um marco do Universo DC para os próximos anos. E há momentos em que se tornaram poderosas imagens das história em quadrinhos. Então qual é o problema? Infelizmente, as histórias em si não se sustentam muito bem.
 
Por mais que Denny O'Neil seja um escritor talentoso, deve-se lembrar que essas histórias foram obras de um jovem, completamente apanhado na tempestade do final dos anos 60 do Vietnã, que é absolutamente determinado a fazer os seus pontos sobre a injustiça social e política, e muitas vezes o faz em detrimento do caráter, da sutileza, e, ocasionalmente, até mesmo do enredo. A escrita é sempre maçante, às vezes beirando a hipócrita, com um senso exagerado de auto importância que pode fazer você se assustar com a leitura da mesma. O "anarquista liberal" Arqueiro Verde em particular surge como um verdadeiro porta-voz dos ideais políticos do autor, beirando a arrogância, a hipocrisia e provocando o leitor.
 
A desconexão entre as crenças de Oliver e Hal.
É um momento bem oportuno falar a respeito da inesquecível amizade que surgiu entre dois super-heróis tão distintos (um patrulheiro das galáxias e um super-herói urbano) e ainda com suas próprias convicções políticas conflitantes.
Um momento oportuno devida essa pseudo-guerra DireitaXEsquerda, com os ânimos acalorados após as últimas eleições presidenciais.
O Arqueiro Verde foge do padrão do super-herói americano, sendo um esquerdista! Muitos leitores o consideram um Liberal Marxista, embora Oliver Queen nunca tenha se definido como tal, e ainda há aqueles que o acusam de resolver problemas com Anarquismo (isso sim é mais a cara do Arqueiro).  Hal Jordan muitas vezes é acusado pelo Arqueiro Verde de ser um mero fantoche dos seus chefes, os Guardiões do Universo, e Oliver na maioria das vezes vence uma disputa de crenças políticas, latindo suas ideias liberais.
 
Falando assim parece até que eu odeio o Arqueiro Verde, não é?

Trabalho social em quadrinhos.
Não é verdade. Eu sou muito fã dele e de suas histórias junto com o Hal, meu Lanterna Verde favorito. E já eu explico isso também.
Como eu já disse, "um texto fora de um contexto é um pretexto". Os quadrinhos desta época sofriam influencia do período em que foram concebidos. Poderia criticar até mesmo o desenho Liga da Justiça sem Limites, onde o Arqueiro Verde algumas vezes pareceu ser superior moralmente que seus colegas super-heróis durante seus conflitos de opiniões. Até o Batman admite isso ("Um cara como você pode nos manter na linha", putz!). Mas aqui não podemos esquecer que este desenho animado fora produzido durante a Era Bush, então até posso considerar o personagem como uma forma de protesto contra a política autoritária do então presidente dos EUA.

Guardião de Oa: Vivendo como gente da Terra.
De volta aos quadrinhos de O'Neil, mesmo os Guardiões acabam seduzidos pela oratória do Arqueiro, e optam por enviar um representante à Terra, para viajar pelo país com Hal e Oliver, a fim de explorar a condição humana.
 
A humanização dos super-heróis e suas histórias foram uma revolução nos quadrinhos, denunciando os males da sociedade dos anos 70, quando a América era (e ainda é) considerada doente, devido aos seus inúmeros problemas.

As próximas edições abordam outros temas muito interessantes, apesar de ser uma obra já datada, como a luta contra autoridades mineiras corruptas,  a aparição de um líder de uma seita de supremacia branca, e ainda temos a participação especial da belíssima super-heroína Canário Negro, namorada de Oliver.
 
Ainda nesta fase, a leitura do conto sobre o combate às drogas é de certa forma didática, alertando aos jovens sobre os perigos dos vícios que ainda destroem milhares de vidas. Aqui Hal e Oliver investigam um grupo de traficantes de drogas e um bando de viciados que cometem uma série de crimes para conseguirem dinheiro suficiente para bancarem o seu vício.
 
Aceitar que uma pessoa tão próxima a você usa drogas é difícil, e isso é bem evidente na cena em que Oliver bate em Roy Harper (seu sidekick, Ricardito dos Novos Titãs), ao descobrir que o garoto era viciado em heroína. O Arqueiro Verde chega a deserdar e expulsar o pobre garoto. 
Em um dos momentos mais chocantes, um dos “amigos” de Ricardito acaba morrendo de overdose, um dos piores fins que um usuário pode ter.
 
Apesar da surra que deu em seu jovem parceiro, o Arqueiro fica com a consciência pesada. Ele compreende que Roy, tal como muitas outras crianças perdidas no submundo das drogas, não são más, mas vítimas dos criminosos traficantes. O Arqueiro então parte para se vingar dos tais traficantes e descobre que o chefe deles é um milionário que faz pose de bom samaritano.
 
Roy Harper, Ricardito
O Lanterna Verde por outro lado, mais compreensivo, consegue localizar Roy, que estava desamparado e desesperado por correção, ele queria ser ajudado. Sorte do garoto que Hal o encontra e o leva até Dinah, a Canário Negro, para que ela pudesse lhe oferecer apoio (um belo/triste momento).
 
Ao final da história, Ricardito revela que as drogas foram um meio para escapar da carência de afeto que a ausência do Arqueiro proporcionou.
 
Roy aparentemente deixou de se drogar. E a situação dele levanta uma questão importante: quantos e quantos jovens não encontram nas drogas uma fuga para seus problemas?
As dinâmicas familiares aqui são de espécie mistificadora. Roy culpa Oliver por seu abuso de drogas só porque o Arqueiro havia desaparecido por algumas semanas em uma viagem. A resposta de Oliver não é muito melhor, surrando o seu próprio "filho" e expulsando-o de casa.

A mensagem pode parecer simples, mas pensem como seria nos dias de hoje... Certamente algum Liefeld da cima faria uma simples ilustração em página dupla e acabaria não transmitindo a mensagem como ela deveria ser...

A outra controversa história que mais marcou esta fase dos quadrinhos foi sutilmente intitulada: “…e, através dele salvar o mundo…”
Aqui é muito interessante também como são colocados os posicionamentos políticos de Hal e Oliver e como eles se chocam, muitas vezes ameaçando a sua amizade e parceria...

 
Também podemos destacar a distinta ética dos dois super-heróis. Ambos tem a sua própria maneira de fundamentar as suas escolhas.
 
Citação de Oliver Queen:
 
"Putzgrila, meu chapa! Você é mais quadrado do que tabuleiro de xadrez! Tá nervosinho por que o Isaac meteu bronca na Ferris, a empresa da sua namorada, a Carol? Ou cê vai ter uma recaída naquela patacoada de lei e ordem?" 
 
E isso lá é coisa a ser dita por um super-herói?

Hal Jordan visitaria a Ferris Aeronáutica, empresa de Carol, sua namorada e por agora ex-vilã Safira Estrela, e leva Oliver Queen de carona. O pai de Carol Ferris tentava salvar a sua companhia da falência montando um jato que utilizava combustível barato.

Pretendendo impedir este crime ambiental a qualquer custo, surge o ativista Isaac. Trata-se de um bravo homem que não mede esforços para deter que o projeto de tal jato se concretize. Porém, o que ele não contava, e nem mesmo os nossos heróis, é que nem todos da cidade da Ferris Aeronáutica concordavam com isso, e estavam dispostos a literalmente crucificá-los por causa disso!

Curiosamente, em muitos blogs de quadrinhos clássicos em inglês que pesquisei, as opiniões sobre esta história divergem bastante entre os fãs, e grande parte deles tem uma crítica negativa para com ela. Mas eu a considero uma história memorável e marcante, sendo que a morte de Isaac é bela e artística. É melhor ver para crer no que estou tentando dizer. Parece que O'Neil e Adams tinham um gosto especial por este tipo de imagem e tema.

A amizade entre Hal e Oliver é de uma certa forma marcante para mim.
Hal Jordan é o meu Lanterna Verde favorito porque tenho uma certa identificação com o personagem. Não que eu considere necessário buscar identificação com os personagens ficcionais para gostar deles. O Batman, por exemplo, é o meu super-herói favorito e não me identifico em nada com ele (um milionário solitário e amargurado).

Hal é muitas vezes inseguro, mas gosta da ordem e de fazer sempre o que é certo e ainda tem uma grande ingenuidade com relação ao mundo. Mais um detalhe legal é que eu tenho uma amizade parecida com a que ele tem com Oliver. Amigos que brigam o tempo todo por causa das suas convicções conflitantes.

Apesar de muitos apontarem que O'Neil fez um Hal como alguém que necessitava de ser reeducado por Oliver, eu vejo essa relação de uma forma mais justa. Graças a Oliver, Hal deixou de ver o mundo só no preto e no branco, questionando a autoridade dos poderosos. E Hal por outro lado age como uma espécie de consciência para Oliver, sempre alertando o seu amigo e tentando colocar mais juízo em suas atitudes fanáticas. Sendo assim, podemos dizer que os dois se completam.


Aqui também entra a questão do lema do fandom Brony, já que falamos da aceitação das pessoas que pensam de forma diferente e que tem o seu próprio estilo de vida. Estes argumentos são válidos se a relação que você tem com outra pessoa determina a quantidade de tolerância que você pode dar a divergências de outra pessoa em ideias e ações.
Afinal a Liga da Justiça é uma democracia e isso justifica bem o que o Batman disse quando convenceu Oliver a ficar com a equipe. Com ideias e convicções distintas é possível conviver em harmonia e ainda construir uma sociedade mais justa, absorvendo o que há de melhor em cada uma das opiniões dos envolvidos. Sim, democracia é isso!
E enquanto a nossa política continuar nesse jogo infame de "nós contra eles", dificilmente a situação do país melhorará.