domingo, 21 de agosto de 2016

DICA DE FILME: PERFECT BLUE


Existe no mundo da animação japonesa um grandioso número de realizadores e diretores de filmes de animês tão brilhantes quanto um Hayao Miyazaki, embora não tão conhecidos pelo público casual quanto o homem por trás de Meu Vizinho Totoro.
Satoshi Kon é um deles. Infelizmente, um câncer pancreático tirou sua vida em 2010. Ele tinha apenas 46 anos, o que é jovem demais para qualquer um morrer. A sua morte foi um acontecimento muito doloroso, seja pela sua precocidade, seja pelo fato de que ele foi um dos maiores diretores de animação de todos os tempos. Kon nos deixou um grandioso legado de filmes para explorar.
Para se tornar um grande animador, ele se inspirou em seus primeiros dias de escola graças a títulos como Gundam Mobile Suit (1979) e Space Battleship Yamato (1974). Ele também trabalhou com mangá, scripts e projetos de supervisão antes de começar a trabalhar como animador. Perfect Blue (1997) foi sua estréia na direção. E que maneira fantástica de começar!

Satoshi Kon
Os filmes de Kon frequentemente são surreais, com imagens de sonhos e uma narrativa não-linear que caracterizavam os filmes de diretores como David Lynch, mas com uma abordagem mais animada e fantástica.

O filme Perfect Blue foi muito bem recebido pela crítica, dentro do Japão e fora dele. Ele ganhou prêmios no Festival Fantasia 1997, em Montreal, e Fantasporto Film Festival, em Portugal. Terry Gilliam, conhecido por Monty Python, o incluiu em seu lista dos 50 melhores filmes de animação.
Um filme simplesmente fantástico, mundialmente conhecido e reverenciado. Mesmo assim, Perfect Blue não é um animê para todos, uma vez que lida com temas muito sérios e imagens perturbadoras. Tive o meu primeiro contato com este filme através do Animefã no cinema universitário da UFES, do qual já escrevi algumas vezes aqui no blog.


A história foi baseada em um romance de Yoshikazu Takeuchi, e foi adaptada para o cinema por Sadayuki Murai (o único momento em que Kon não escreveu um roteiro para seus filmes). Ela começa bastante simples: Mima Kirigoe abandona o grupo pop CHAM para se tornar uma atriz, apesar de seu sonho de infância de ser uma cantora, devido a promessa de uma carreira maior. Ela recebe um papel que a transforma em uma pequena celebridade. Mas um punhado de fãs estão indignados com esta decisão, e começam a causar problemas para Mima.

Além de Mima, há outros personagens no centro das atenções, todos eles são interessantes e humanos. Sem dúvidas muito humanos! Não demora muito para nos sentirmos atraídos pela heroína, nós sentimos seus medos e dúvidas enquanto ela explora a sua nova realidade.

Em determinado ponto, ela é convidada a interpretar uma vítima de uma cena de estupro em Double Bind. Seu empresário de longa data (e ex-ídolo pop), Rumi Hikada, adverte dizendo que isto poderia arruinar a sua reputação, mas Mima aceita para o bem da sua empresa gestora, e sua carreira.

Com o tempo, ela começa a recebe faxes e telefonemas ameaçadores, um perseguidor segue-a em todos os lugares, e as pessoas envolvidas com os projetos estão sendo assassinadas.


A tensão do filme é construída gradualmente à medida que nos é dada uma visão sobre a rotina do dia-a-dia de Mima, e os desafios que ela enfrenta ao fazer a transição de cantora a atriz. O filme é muito bem executado, quando ao seu final ele está perto do incompreensível. Satoshi Kon é grande especialista em confundir o espectador.

Como o estresse de Mima torna-se incontrolável, há momentos em que é difícil distinguir entre sonhos, alucinações, e realidade.


À beira de um colapso, Mina fica dividida entre o desejo de ser bem sucedida e as coisas que ela tem que fazer para alcançar esse sucesso.

Realidade e ficção se confundem e há muitas perguntas que ela não pode responder: Por que alguém que sabe detalhes íntimos de sua vida deixa publicações em seu nome na ainda nova e desconhecida Internet? Por que existem roupas ensanguentadas em seu armário? Por que ela não consegue lembrar de longos períodos de tempo? Ela está se tornando a personagem de Double Bind, um serial killer com personalidades múltiplas?


As respostas são surpreendentes e inteligentes. Como um thriller psicológico, Perfect Blue é excelente. Tem um ritmo forte que rapidamente apresenta a ascensão de Mima à fama menor, a sua subsequente queda e a aparente redenção em menos de 90 minutos, com pistas falsas o suficiente e potenciais causas da dissonância ontológica para manter o público totalmente preso à trama.

Mas as coisas que o tornam único são a direção e edição que permitem a Kon criar essa sensação de confusão.


Na época, eu tive que investigar pessoalmente fóruns on-line para tentar decifrar o final deste filme. A estranheza e o desprendimento do roteiro poderiam ser vistos como uma falha e uma qualidade a este respeito.
 
Mima fica cada vez mais angustiada, e sua vida parece estar fora de seu controle. Cenas são cortadas rapidamente, às vezes no meio de uma frase, e as cenas de Double Bind tornam-se entrelaçadas com a vida real, para sugerir os paralelos entre Mima e sua personagem. O resultado é uma atmosfera surreal que deixa o espectador, assim como Mima, incapaz de descobrir o que está acontecendo.

Eventos acontecem rapidamente e sem contexto, como se eles simplesmente tivessem sido predestinados. É uma excelente representação visual da própria desorientação de Mima.


O estilo de Satoshi Kon é muito verdadeiro para a vida real sem torná-lo muito realista. Há gordos, magros, jovens, idosos, com uma gama de estruturas corporais e características faciais. Os personagens têm um charme único que é difícil de se colocar em palavras. As cores são típicas de uma produção de 1997, e a animação em si é maravilhosa. Trajes, roupas e cenários são bem detalhados, e a quantidade de movimentos é fluida e realista, um espetáculo para ser visto.

Sem a utilização das típicas técnicas mais atuais de animação, as cenas de violência e perseguição são mais sinceras do que aquilo que atualmente é produzido. Os animadores tinham um sentido muito claro de como traduzir o peso e a gravidade de tais situações em um espaço de animação 2D.

A nudez frontal completa neste filme é um dos retratos mais reais e de bom gosto do corpo feminino.
A trilha sonora também é muito boa. As melodias sombrias dão um toque especial a atmosfera do filme, como em Serial Experiments Lain (1998).  

                          
 
A música de abertura no início do filme é bem anos noventa, e por isso cativante.

A indefinição entre realidade e fantasia se tornaria a marca registrada do trabalho de Kon, mas este é o seu trabalho mais duro e realista. A maioria dos outros trabalhos que mesclam realidade e fantasia, muitas vezes precisam recorrer à ficção científica ou a truques fantásticos, a fim de fazerem sentido narrativamente, o que normalmente enfraquece o efeito.
 

Mas Perfect Blue deixa claro que nada disso está acontecendo (a partir da linha repetida em Double Bind, "Ilusões não podem se tornar realidade"), enquanto faz parecer que algo realmente fantástico está realmente acontecendo.


Kon começa a fazer essa configuração cedo, antes mesmo do mundo de Mima começa a ficar fora de controle. O melhor exemplo disso é a cena do estupro, que é, provavelmente, també a cena mais memorável do filme.

Desde o início, é evidente que aquilo não é real: é apenas a gravação de um programa. Em seguida, nos chamados "extras" o homem que estuprou Mima está se desculpando por ter que fazer isso.
 

Enfim, Perfect Blue é um clássico. Eu definitivamente recomendo que você vá vê-lo, caso não o tenha visto ainda. E se já o conhece, também vale pela nostalgia. 

Ele é tão bom quanto você ainda deve se lembra.
 
 
Perfect Blue foi a principal razão para hoje eu estar escrevendo sobre a profundidade única presente nas animações japonesas. Ele é daqueles filmes clássicos do cinema que você sempre indicará àqueles que procuram obras como temas mais complexos e adultos. E é também uma das razões pelas quais Kon fará muita falta.