sábado, 11 de outubro de 2014

A TV E SEUS MOMENTOS SOMBRIOS NA INFÂNCIA NERD NOS ANOS 80 E 90

 
Os anos 80 e 90 foram supostamente um momento inofensivo, tempo de ingenuidade na TV. Tempo bom que não volta mais, tempo em que realmente valia a pena pegar um dia, sentar na frente da TV e assistir a tudo o que era transmitido.
Tudo era muito bom. Foi a era em que foram produzidos os melhores desenhos animados e seriados de todos os tempos. E, é claro, também foi perfeito para toda aquela avalanche comercial e consumismo. Que criança nunca sonhou em ter um Daileon?
Mas antes de serem lembradas com manobra para impulsionarem as vendas de brinquedos, minha memória afetiva tem todas aquelas atrações como projetadas para cativar as crianças, em blocos de 30 minutos, promovendo valores e a boa cidadania.
Apesar disso, desenhos animados ou outros tipos de seriados, por vezes sorrateiramente, proporcionaram momentos um tanto insanos ou perturbadores. Os censores podem ter deixado certas coisas passarem desapercebidas durante aquele tempo. E hoje que estamos adultos e vivendo nesse mundo cada vez mais sem graça e politicamente correto, é até engraçado lembrar do que a TV daquele tempo já longínquo trouxe para as nossas casas. Certas cenas ou momentos que hoje não poderiam jamais aparecer em um programa que teoricamente fora projetado para ser uma atração voltada para o público infantil.
Baseado nisto, aqui vai uma listagem com alguns dos momentos mais sombrios ou questionáveis para os programas da nossa infância, as melhores ou piores coisas que os anos 80/90 já fizeram para nós.
Mas atenção, esta lista foi feita apenas com o propósito de divertir e portanto não deve ser levada à sério.
Então vamos nessa!
 
 
 
A família de Shipwreck derrete em "Comandos em Ação"
 
Regra número 1 dos desenhos animados que pretendem ser traumatizantes para os espectadores: Abuse do personagem mais amado.
E o personagem mais amado de "Comandos em Ação" era Shipwreck, o simpático marinheiro que não era de forma alguma baseado em Jack Nicholson. Ah, vá. Todos sabem que ele era uma cruza do personagem de Nicholson, Buddusk, do filme "A Última Missão" (filme aliás que faz qualquer homem chorar) com o marinheiro Popeye.
No desenho animado, houve um episódio que vou chamar de "Não há nenhum lugar como Springfield" (traduzi o título do inglês, não lembro do nome do episódio aqui no Brasil). Neste episódio, Shipwreck é preso em um simulacro bizarro do futuro, onde ele vivia em uma pequena cidade com sua esposa e uma filha que ele nem lembrava de ter.
Claro, a coisa toda é um complô de Cobra, e todos os amigos e a família de Shipwreck que encontram-se em sua casa não passam de androides.
O fato é revelado quando as pessoas ao redor de Shipwreck começam a derreter lentamente diante de seus olhos, e sua esposa e filha, eventualmente, tentam matá-lo dentro de uma casa em chamas.

                        

Paranoia?
Famílias falsas?
Perfeito para a Guerra Fria.
 
 
 
 Os Ursinhos Carinhosos ressuscitam um morto em "A volta dos Ursinhos Carinhosos"
 
Os Ursinhos Carinhosos foram supostamente destinados a promover a moral e os bons costumes. E isso os tornaria especiais se comparados aos demais personagens dos desenhos animados da época. Mas eles geralmente empurravam para nós as mesmas lições também ensinadas pelas estrelas dos outros desenhos contemporâneos: Acreditar em si mesmo, comer todos os seus legumes, não ser um idiota, e não vender a sua alma ao demônio.
No entanto, há um momento histórico proporcionado pelo segundo filme protagonizado pelos ursinhos que moravam no céu. Aqui vemos uma legião de Ursinhos Carinhosos enfrentando o próprio Capiroto, uma entidade maléfica chamada Coração Negro (Dark Heart, não o Black Heart, inimigo do Motoqueiro Fantasma), que exigia a alma de uma menina chamada Christy em troca por torna-la a melhor atleta em seu acampamento de verão.
A menina, depois de perceber o grande erro que cometera, se junta aos Ursinhos Carinhosos para enfrentar o Coração Negro no final do filme. E de uma forma estranhamente mórbida para um desenho animado inspirado pela American Greetings, durante uma batalha intensa, um dos raios disparados pelo vilão atinge a criança que acaba morrendo (!).
O Coração Negro percebe o que fizera e inesperadamente fala em prantos: "O que foi que eu fiz?"
Pode parecer complexo, mas no decorrer do filme o Tinhoso se descobre apaixonado pela Christy.
De volta a sua forma humana, o vilão embala o corpo sem vida da menina e implora aos Ursinhos Carinhosos por ajuda. E ela é concebida no velho estilo Peter Pan: dizendo que todos eles se importam com aquela vida e pedindo a toda a audiência do filme para juntarem-se a eles. E, claro, funciona (!).
Ensinando assim as crianças que se pode ressuscitar um falecido por pura força de vontade. Só podemos imaginar todas as crianças que ficaram decepcionadas após gritarem para seus animaizinhos de estimação mortos ou sobre os caixões dos avós.
 
Como dói fazer piada com esse filme. Eu gostava dele sinceramente.
Falei de coração, tá. 
 
Parece até que seus produtores buscaram inspiração em "Fausto", o poema trágico do escritor alemão Goethe.
Vai dizer que não reparou em certas coincidências? O pacto com o "Diabo" e o fato do tempo não passar para Christy e as outras crianças do acampamento (Não notou que os Ursinhos Carinhosos aparecem como bebês e crescem ao longo do filme, enquanto as crianças não mudaram coisa nenhuma?).
Sério mesmo! Leiam mais livros!
 
 
 
 Momentos questionáveis em "As Tartarugas Ninjas"
 
A sensual April O'Neil, a aliada humana mais proeminente das Tartarugas Ninjas, era a paixão de todo o moleque dos anos 80, vivendo nos sonhos molhados de todos nós naquele tempo. Peguei pesado nas minhas declarações? Eu só disse a verdade.
Como todos vimos, April e as Tartarugas eram apenas amigos. Mas a nossa perspectiva mudou mais tarde, graças à Internet e um monte de coisas que não tinham como não serem discutidas.
Há pelo menos uma cena que dá aos telespectadores um certo questionamento acerca dessa relação. No episódio "April's Fool", April finalmente tira o seu macacão amarelo e veste um elegante vestido com um estilo "tomara que caia" porreta. Por alguma razão, ela vai visitar os esgotos para mostrar seu vestido a Donatello, Raphael, Leonardo e Michelangelo. A reação deles não poderia ter sido mais compreensível e rapidamente podemos ver todos eles à beira de uivarem feito os lobos dos desenhos do Tex Avery. E até mesmo o mestre Splinter, tão certinho e moralista, pode ser visto cobiçando a mulher humana.
Na cena seguinte, as tartarugas seguem April para fora da sala, e eles tentam passar todos ao mesmo tempo pela porta, em meio a brigas e empurrões, com um indisfarçável desejo réptil. Tenso. 
 
 
 
 Os Smurfs derrotam o feiticeiro infernal
 
Para os malucos teóricos da conspiração de plantão, na lista de personagens ameaçadores de desenhos animados, os Smurfs encontram-se um pouco acima dos Snorks e logo abaixo dos Super Tiras. Mas convenhamos que os Smurfs talvez sejam os personagens de desenhos animados que mais sofreram com boatos e contos aterrorizantes na década perdida, com suas casas de cogumelos, seus questionáveis posicionamentos políticos para a época, e por aí vai.
É cada uma que esse povo inventa...
Porém aqui vamos falar do seu primeiro especial de Natal, onde os Smurfs foram chamados para salvar duas crianças perdidas e seu inimigo de longa data, o feiticeiro Gargamel, que, durante este desenho, estão à mercê de um outro bruxo que pode ser claramente descrito como um emissário do inferno.
E eu curti, mas também fiquei decepcionado com o personagem, mesmo naqueles meus anos inocentes.
Porra, ele entraria facilmente para a minha lista dos vilões mais ameaçadores dos desenhos dos anos 80, se não tivesse sido derrotado da maneira que fora. Mas isso não quer dizer que não tenha sido aterrorizante para o público da época.
Os Smurfs lutaram da única maneira que poderiam: cantando uma música natalina com um interminável e irritante refrão. E todos se juntam aos Smurfs, cantando até fazer o feiticeiro satânico, aos gritos de agonia, desaparecer completamente.

                         
 
"A bondade faz a maldade ir embora."
Não brinquem com os Smurfs.


 
 Seaspray se apaixona por uma sereia e se torna uma sereia em "Transformers"
 
Esqueçam todo o massacre e as chocantes mortes mecânicas no filme dos Transformers de 1986 ou o episódio em que Perceptor tornou-se um robô gueixa em um planeta de japoneses feudais alienígenas.
O momento mais ferrado em toda a história de "Transformers" aconteceu em um episódio da série clássica em que Seaspray vai a uma planeta distante para deter uma operação dos Decepticons.
Naquele mundo longínquo, porém civilizado, Seaspray conhece Alana, uma dos nativos inteiramente humanóides. E em mais uma prova do quão pouco os escritores dos episódios estão se lixando para o que estão produzindo (afinal é um show para crianças), é revelado que aquele povo dispõem de uma piscina mágica para se transformarem em sereias.
Seaspray salta naquelas águas místicas e se torna uma espécie de Aquaman. E isso não é apenas estranho, mas também assustador porque aqui é demonstrado que os Transformadores também têm alma (!)... o que faz com que os massacres de robôs em grande escala no filme sejam ainda mais perturbadores.
Também é meio bizarro ver Seaspray tendo uma conversa estranhamente romântica à beira do oceano com um Bumblebee claramente desconfortável.
 
 
 
 Os exércitos infernais (de novo?) em "My Little Pony"
 
Essa é para quem se julga Brony de verdade. Certamente deve ser do conhecimento de todos que o fim da quarta temporada do tão amado "My Little Pony: Friendship is Magic" foi fortemente inspirado no episódio piloto da franquia nos anos 80.
Ao contrário de todos os outros desenhos animados baseados em uma linha de brinquedos, "My Little Pony" não tinha vilões pré-designados, deixando os escritores para desenvolver outros constantemente. Alguns destes antagonistas não foram tão ameaçadores, coisas que não surpreendem nem um pouco como lulas gigantes ou bruxas com excesso de peso que queriam tocar o terror em Pony Mansion. Nada que convencesse alguém, mas o primeiro vilão das pôneis, no entanto, era um senhor demônio.
Tirek é um centauro chifrudo com uma voz rouca digna dos melhores papéis de Frank Welker. Este emissário de Satanás enviava dragões e homens-lagartos para sequestrar pôneis desavisadas. Então, em cenas muito assustadoras para um desenho animado ostensivamente destinado a crianças de 5 anos, ele as transforma em dragões monstruosos despejando a sua forte magia negra sobre as pobres criaturas.
Desculpem fãs do "novo Tirek". Embora o atual seja mais poderoso, canalha e muito bom de briga, o clássico é um vilão que realmente impõem respeito.
Mas estamos falando de anos 80. Então ainda assim a sua imagem ficou abalada até os dias de hoje, quando as pôneis e sua aliada humana o derrotam durante o confronto final deixando ele ser esmagado dentro de um arco-íris mágico.
Uma finalização bem gay, diga-se de passagem.
 
 
 
 As crianças zumbis de "Zona Espiral"
 
Esse desenho era MUITO FODA! Um dos mais sombrios e perturbadores produzidos durante a década de 80!
"Zona Espiral" pode ser facilmente confundido com uma recauchutagem de "Comandos em Ação", o que de uma certa forma ele é. Os heróis da série, um bando de super-soldados convenientemente internacionais dotados de armaduras hi-tech, poderiam participar de uma das inúmeras batalhas contra o Comandante Cobra. Mas os vilões da sua série, no entanto, são um pouco diferentes.
No início do desenho, um cientista louco já havia conquistado metade do mundo, lançando sobre o planeta um tipo de bactéria que ele próprio desenvolvera, transformando as pessoas infectadas em zumbis de olhos amarelos e com um tipo de fungo vermelho brotando de seus rostos!
Esta animação, retratando um verdadeiro conflito em um mundo pós-apocalíptico, com suas cidades queimadas e "zonas" infectadas cheias de vítimas contaminadas, foi o que nós crianças dos anos 80 tivemos de mais próximo de um "The Day After" ("O dia seguinte"). E claro que os heróis tinham nomes como Dirk Courage e os vilões, mesmo com as suas lesões faciais assustadoras, eram estúpidos. Mas há algo ainda mais sombrio e desagradável sobre "Zona Espiral". Foi uma alegoria sobre a guerra nuclear? A crise da AIDS? Provavelmente não, mas não seria preocupante que tais questões tivessem sido abordadas até mesmo em uma simples série comercial da época?
 
 
 
Jem faz amor em "Jem e as Hologramas"
 
Caras, eu sou terrível!
Tá, o título ficou meio sensacionalista, mas...
Devemos admitir que os censores nos anos 80 foram pessoas razoavelmente atentas. Eles são a razão pela qual todos os pilotos dos aviões de guerra em "Comandos em Ação" tinham paraquedas e porque a palavra "morrer" foi evitada tanto quanto palavrões.
Se tivéssemos que escolher algum dos desenhos animados daquele tempo que foi perito em passar por cima das análises dos censores, poderíamos falar de "Jem e as Hologramas". É, a Hasbro vem há décadas mostrando a que veio, com "Jem", "Comandos em Ação", "Transformers". Aliás também não é a Hasbro a culpada por "My Little Pony: Friendship is Magic" que transformou todos nós em Bronys?
"Jem" foi um desenho muito popular no Brasil e a minha memória afetiva me faz pensar que eu realmente curtia isso um pouco. E agora, o que poderíamos comentar de questionável no desenho aparentemente inofensivo da Sailor Moon do rock? A resposta viria com a internet, e agora que estamos adultos, ao rever algumas canções e clipes musicais da personagem, percebemos que algumas letras podem ser um tanto quanto insinuantes.
Prestem atenção no que é dito durante a música "Who is he kissing" no clipe a seguir.
 
                         

Se você entende um pouquinho de inglês, já deve ter entendido o que eu quis dizer.
Bom, pode ser só o fato de que já dei adeus a minha inocência há muito tempo, mas também é fato que ela disse o que acho que escutei ela dizer.
Ou talvez seja apenas minha mente poluída mesmo!
 
Mente poluída.
Traduzindo o principal, ela diz logo na primeira estrofe: "fazendo amor com uma fantasia." Eita!
Talvez possam ter acontecido reuniões e debates no estúdio sobre isso. Mas, se pensar em um tempo em que foram proibidos os namoros inter-raciais de "Robotech", é de se estranhar que a canção de Jem não tenha sido alterada.
 
 
 
 D. Compose tem seu braço impiedosamente devorado
 
"Inumanóides" foi um desenho animado que todo o menino desajustado de oito anos de idade teria feito se ele tivesse o seu próprio estúdio de animadores japoneses e coreanos com excesso de trabalho em 1987. Lembro que achava esse desenho muito foda, interessante e assustador, mas é uma pena que boa parte disso seja só a minha memória afetiva sendo muito generosa.
No desenho, os heróis da humanidade enfrentam criaturas gigantes e hediondas, chamadas Inumanóides, que habitam as profundezas da Terra e são capazes de fazer coisas horríveis aos humanos, devido ao seu ódio pela nossa raça. E na abertura da animação já vemos a que vieram aqueles monstros quando é rapidamente mostrada uma cena em que o membro feminino do grupo de heróis é transformado em um horripilante esqueleto salivante com o toque de D. Compose, que aliás foi o meu monstro favorito da infância, devido o seu estilo e o seu poder louco de zumbificação.
Mas ainda mais perturbador foi Gagoyle, uma monstruosidade sem braços, de apenas um olho e com um asqueroso estômago transparente. Após ter sido chocado pelos vilões humanos do desenho, a criatura devora impiedosamente todos os seus irmãos não eclodidos e segue devorando muito mais coisas, incluindo o braço de D. Compose e duas estátuas de guarda do submundo que, apesar de serem de pedra, se contorcem e gritam quando Gagoyle arranca as suas cabeças. Em seguida, o vilão principal do desenho, Metlar torna-se o herói de todas as crianças, matando a criatura, embora ele tenha agido um pouco tarde demais. Aquelas cenas serviriam de longos pesadelos e noites mal dormidas em nossos infâncias felizes.
 
 
 
Thundercats pelados
 
Enquanto muitas gerações passadas simplesmente não questionavam o fato do Pato Donald não usar calças, chegam os anos 80 e os animadores dos novos desenhos resolvem chocar as crianças da minha geração quando, em pleno episódio piloto de "Thundercats", vemos os heróis principais do desenho apresentados completamente nus em sua terra natal.
Sim, aqui todo muito é visto da forma em que vieram ao mundo. Mesmo que a Cheetara também esteja sem roupas, não dá para ver os seus mamilos e o desenho poderia até querer nos convencer de que aquela falta de roupas era algo natural. Mas vejam só, Jaga usava roupas. Será que no planeta Thundera roupas é um sinal de status social? Na verdade, não. Logo depois todos eles ganham suas roupas habituais e nós finalmente vamos assistir ao desenho podendo encarar a Wilykit de frente.
E assim a nossa geração perdeu um pouco do resquício de inocência que lhe restava. Alguns pais, provavelmente proibiram seus filhos de assistirem a "Thundercats" logo após os cinco primeiros minutos do episódio piloto.
 
Isso sim é uma boa maneira de se começar o dia.
No mais eu devo agradecer aos Thundercats por me apresentarem a minha primeira mulher pelada. Ah,  e agradeço igualmente ao Jaspion também pela Anri (Vocês fãs de Tokusatsus sabem do que eu estou falando)! 
 
 
 
Premiação máxima
"Policial de aço Jiban"
 
Tokusatsus, além de divertirem, instruem. Eles  nos mostraram que o mundo não é um mar de rosas e que não é errado você querer lutar pela justiça, já que existem muitíssimas pessoas que infelizmente não são convencidas com simples discursos.
Em outras palavras, Tokusatsus ensinam você a ser homem! Mas em compensação, devo admitir que os roteiristas de Tokusatsus devem odiar crianças. E se vocês não estão convencidos, revejam os seriados e notem a quantidade de cenas brutais e questionáveis nestas atrações destinadas aos horários em que a turminha de 7 a 10 anos estava diante da TV.
Eu queria mesmo colocar algum Tokusatsu nesta postagem. Pensei em falar de outras pérolas como o Natal macabro do Sheider, mas cheguei a conclusão de que o seriado que mais merece ficar aqui é o do Policial de aço Jiban.
Os roteiristas além de ter algo contra as crianças, tinham um grande ódio pelo personagem, que é morto de forma brutal, com direito a perda de um braço, no episódio 34 da série. Mas o seriado nos proporcionou diversos outros momentos sombrios como o do episódio "Bem-vindo ao mundo espiritual". Neste episódio, o vilão mais odiado de todos os Tokusatsus, o dr. Jean-Marie, quer descobrir a localização da base secreta do Jiban e para isso coloca em ação a sua criação mais aterrorizante, o monstro Shisatsunoide. E ele era horripilante feito aquele zumbi de "A volta dos mortos-vivos" que gritava "miooooolos" e ainda era dono da personalidade mais louca de todas.
Pois bem, Shisatsunoide queria matar o Jiban, mas também queria morrer, e tudo porque desejava conhecer ao vivo o Mundo Espiritual, que mais parecia o próprio inferno (ou o Yomotsu Hirasaka, apresentado por Máscara da Morte de Câncer em "Cavaleiros do Zodíaco"), cheio de gritos e torturas. E, como não podia partir desta para uma pior sem antes completar a sua missão, ele se contentava em se envenenar aos poucos com uma névoa tóxica produzida pelo seu próprio corpo até chegar o momento em que esta mataria a ele e ao herói.
Ô loco! O cara queria morrer, se agoniava com um desejo tão intenso, e ainda queria ir de preferência ao inferno, e melhor ainda se puder levar o Jiban junto com ele.
Loucura é pouco! E olha que ainda nem mencionei o episódio 27, "A transformação dos filhos em Satanás", violência praticada por crianças e politicamente incorreto ao extremo.
Bons tempos, bons tempos!
 
 
 
Menção Honrosa 
A morte do Superman
 
A memória afetiva de muitas pessoas não alivia nem um pouco para o desenho "Superamigos", sendo muitas vezes considerado um "lixo clássico".
Tá certo que tinha muitos episódios realmente toscos, como aquele em que descobrimos que a nossa Lua na verdade é um ovo que abriga uma criatura bizarra que cresce absurdamente, conseguindo andar sobre o planeta Terra, com direito a uma finalização histórica em que o Chefe Apache, usando um aparelho do Átomo (ou Eléctron), intensifica os seus poderes de crescimento e enfrenta o monstro pisando tranquilamente sobre os continentes. Roteiro este que parece ter sido concebido sob a influência de drogas alucinógenas.
Mas outros episódios eram muito bons, sem falar que o primeiro contato que eu tive com muitos dos heróis da DC Comics foi através dos "Superamigos".
Eu coloco como o momento mais sombrio desta animação o episódio em que o Superman morreu. E aqui está apenas como uma "Menção honrosa" porque esse episódio, apesar de ser tão marcante, digno de uma postagem inteiramente dedicada a ele, não foi um tipo de acontecimento questionável, e sim algo ousado. Os roteiristas do episódio passaram, em uma atração dedicada às crianças, um tema sobre o qual todos nós, mesmo agora adultos, evitamos ao máximo falar: a morte.
Muito antes da DC ter a "brilhante" ideia de matar o seu maior super-herói na década de 90 para alavancar as vendas dos quadrinhos, o desenho "Superamigos" nos apresentou como um evento assim realmente seria. E aqui o Último Filho de Kripton não é morto da forma ultraviolenta que a DC nos apresentou, ele morre envenenado por Kriptonita.
Seu corpo inerte, completamente verde, o desespero do Tempestade (eu sei que o nome dele nos quadrinhos é Nuclear, ok.), que julgou-se culpado, e a comoção de todas as pessoas do planeta, chocaram e marcaram muitas crianças na época. 
 
 
E por hoje fico por aqui. Gostaria de encerrar esta postagem com alguma mensagem edificante sobre a beleza de ter pertencido a esta geração, mas, como não encontro as palavras certas, termino com o vídeo da abertura do animê fodão e velhão "Saber Rider e os Star Sheriffs" que passou aqui naquela época:
 
                        

Alegria nas manhãs do SBT, embora devidamente censurado e adaptado pela chata WEP dos norte-americanos, o que pode render uma boa postagem futura.
 
Até a próxima, pessoal!

domingo, 5 de outubro de 2014

DICA DE FILME/PERFIL: DJANGO (1966)

 
Hoje vamos falar sobre masculinidade! Os frescos e críticos politicamente corretos de plantão devem passar longe de uma postagem como esta que agora vos apresento.
Quando o assunto é faroeste italiano (ou western spaghetti), o nome que sempre vem a mente daqueles que o conhecem é o do diretor Sergio Leone. Mesmo porque fora este um dos grandes nomes que deu vida ao clássico "Três homens em conflito" e outras maravilhosas pérolas do gênero. Porém, o nome Sergio Corbucci merece também ser imortalizado, pois foi ele o diretor de dois incríveis filmes que foram "O Grande Silêncio" e, é claro, "Django", que com certeza está entre os filmes favoritos de todos aqueles que admiram o gênero.
O bang bang italiano, como também é chamado, surgiu nos anos 60. E estes filmes se diferenciavam dos faroestes feitos em solo norte americano em muitos aspectos. Eram filmes, que poderíamos assim chamar de mais “sujos”, muitas vezes protagonizados por anti-heróis desprovidos de escrúpulos, como no caso do personagem de Clint Eastwood no filme "Três homens em conflito", nem mesmo um nome ele tinha. 
Por outro lado, os filmes de faroeste feitos em território americano eram mais "poéticos", com o herói nobre que luta defendendo o "sonho americano".

Django é o personagem criado para o filme de mesmo nome em 1966, dirigido por Sergio Corbucci, e foi inspirado em "Yojimbo, o guarda-costas" de Akira Kurosawa. 
Corbucci queria que seu personagem fosse um pouco mais parecido com um ronin, um samurai sem mestre, como aquele apresentado em "Yojimbo" e brilhantemente vivido pelo lendário Toshiro Mifune. Por esta razão, a Django foi negado um cavalo. Ele surge pela primeira vez no filme andando, arrastando um caixão no meio da lama, levando sua sela em seu ombro.
 
Yojimbo (1961)
 
Ao contrário de Sanjuro (o samurai de "Yojimbo"), Django não é um transeunte que se depara com uma determinada situação que, por um motivo ou outro, atrai a sua atenção. Ele é um homem com uma missão, e a missão é: vingança! Ele é um veterano da Guerra Civil e sua esposa foi morta  pelo racista major Jackson dos Confederados.
Django... "o homem é foda, patroa". Quando em desvantagem na luta contra seus adversários na rua, simplesmente saca uma metralhadora do seu caixão, vinda sabe-se lá de onde e, mais a frente, após ter as suas mãos esmagadas e mutiladas com crueldade por ter traído os seus ex-aliados, ele milagrosamente equilibra seu revólver em uma cruz de metal no cemitério e mata seu inimigo.
Com sua capa preta e truques sujos, ele é como nenhum outro vaqueiro nunca havia sido na história do cinema e o seu nome é uma homenagem ao lendário guitarrista de jazz Django Reinhardt. Curiosamente Reinhardt era um cigano e o nome Django significa "acordar". É provável que Corbucci era fascinado pelo "simbolismo das mãos ", já que em seu filme anterior havia apresentado um pistoleiro que ficou cego, e agora Corbucci queria fazer um filme sobre um pistoleiro que não podia usar as mãos. Parece lógico que um homem armado e com algum tipo de deficiência seria batizado com o nome de um músico deficiente. Quando tinha 18 anos, Reinhardt foi ferido em um incêndio; sua perna direita ficou paralisada e o terceiro e quarto dedos da sua mão esquerda sofreram queimaduras de terceiro grau. Pensava-se que ele nunca mais iria tocar guitarra novamente, mas ele aprendeu a tocar todos os solos de guitarra com apenas dois dedos (!).


Django Reinhardt

Django foi interpretado pelo ator italiano Franco Nero, que tinha apenas 23 anos de idade na época. Ele portanto recebeu a voz de um ator na versão italiana, para fazê-lo, pelo menos, parecer mais velho. De acordo com Mark Damon, ator veterano, Corbucci o queria para o papel, mas foi convencido pelo produtor Bolognini e sua esposa Nora a aceitar Nero.
Em vários países "Django" enfrentou alguns problemas graves de censura, e foi proibido pela censura britânica até o seu lançamento em 1993 em vídeo.

Se você assistiu e curtiu a versão moderna de "Django", "Django livre" de 2012, é obrigado a conhecer a versão original, caso ainda não a conheça. Afinal esta foi a inspiração de um jovem Quentin Tarrantino nos idos de 1966.
Em muitos aspectos "Django" é simplesmente uma leitura mais obscura, mais suja e mais sádica da velha história de " um homem em meio a guerra entre duas facções". Interessante também foi o fato de Corbucci ter se inspirado na história de Kurosawa, enquanto o próprio Kurosawa tinha baseado partes de seu filme em um romance original americano, "Red Harvest", de Dashiel Hammett.
Uma decisão importante de Corbucci foi a de politizar o seu filme, ao retratar uma das facções em guerra como uma espécie de organização "KKK" de vigilantes confederados. Corbucci fez uma declaração antirracista bem clara e alguns dizem que pode até mesmo ter sido uma declaração antiamericana. Alegadamente, Corbucci estudara muitas notícias com gravações de reuniões da Ku Klux Klan e as utilizou como inspiração facilmente identificada em muitas das cenas presentes no filme, como durante a cena em que eles desfilam na rua com seus rostos cobertos por capuzes e incendiando cruzes de madeira (demonstração do seu fanatismo e anticatolicismo) enquanto Django os estava esperando perto de um tronco seco de árvore. 

Com relação ao suposto antiamericanismo do filme, posso fazer algumas colocações pessoais. Eu já tive a minha fase antiamericana, que coincidiu com a minha fase de rebeldia, que todo o homem com certeza já experimentou, afinal é a adolescência. Com o passar dos anos o meu antiamericanismo diminuiu bastante, sou contra todas as formas de xenofobia e admiro o povo norte americano, um dos mais honestos e trabalhadores do mundo, mas também ainda tenho muitas críticas para com eles, como tenho para com qualquer outro povo do nosso mundo. E o que Corbucci apresenta no filme é uma das críticas que ainda guardo com relação a cultura norte americana. Principalmente nos últimos 15 anos, essa face problemática da sociedade americana vem sendo importada de forma massiva pelos brasileiros. Intolerância, fanatismo e ganância transvestidos de espiritualidade, e muita gente não se dá conta disso. E ainda eles, ávidos por poder, desejam o controle político e cultural de todo o nosso país. Acho que vocês já entenderam.
 
O filme também critica o capitalismo selvagem que move muitas pessoas. Por exemplo, é a sua própria ganância que quase levou o nosso herói Django a ruína, além do dinheiro ter sido a causa de traição e perdas durante o filme.
Quase todo o filme usa a assinatura de Corbucci. Está tudo lá, o seu imaginário, a violência, seu forte estilo visual, imediatamente reconhecível, e sua predileção pela sátira, como na cena em que o pastor-espião, que trabalhava para a KKK, é forçado pelos bandidos mexicanos a comer a própria orelha decepada, porque ele ouviu demais. 
 
Para um filme que foi produzido dentro de semanas e com um orçamento bastante reduzido, o resultado parece poderoso. Por outro lado, o filme apresenta os acontecimentos de forma episódica e a descrição dos mexicanos é um tanto simplista. Mas tudo funciona muito bem e é fácil e divertido para o espectador acompanhar e compreender a ligação entre cada personagem e os episódios cada vez mais violentos, começando com o chicoteamento da prostituta e, finalmente, resultando em Django equilibrando a sua pistola, com as mãos mutiladas, numa cruz para dar um fim à vida odiosa de seu inimigo, o major Jackson, num dos tiroteios mais emocionantes que já vi, invocando o Pai, o Filho e o Espírito Santo (pelo menos na versão italiana).

"Django" é um dos maiores cults de todos os tempos no cinema e até é considerado um objeto de culto pelos seus fãs fanáticos e devo confessar ser este o meu filme clássico favorito. É muito bom revê-lo hoje e perceber que a sua grandiosidade não vem apenas do meu sentimento nostálgico. Este western spaghetti é um filme muito bom mesmo e que realmente fez história no cinema, sendo por isso digno de todas as homenagens.