sábado, 3 de junho de 2017

ESTILO E INFLUÊNCIAS DE HIROHIKO ARAKI

 
Hirohiko Araki, a mente por trás de Jojo's Bizarre Adventure. Um mangá literalmente eterno, com belas referências ao rock ocidental, ao cinema brucutu dos anos 80, aos filmes clássicos de horror, e a Itália. Araki é o homem que nos fez rir e chorar com esta história que já dura 30 anos. Este mangá é um verdadeiro megassucesso, um dos meus preferidos, e certamente encontra-se no meu top 10 dos melhores mangás que eu tive o privilégio de acompanhar. Nesta postagem falo daquilo tudo que define Araki como um mangaká, isto é, seu estilo de desenho e influências.
O estilo do animê e mangá atuais é conhecido como "padronizado". E seus personagens acabam parecendo os mesmos para a grande maioria do público casual, pouco conhecedores da grande variedade de estilos dos animês e mangás clássicos. Os personagens atuais, em sua grande maioria, apresentam fisionomia magra, olhos grandes e expressivos e o nariz e a boca pequenos. Por mais que muitos possam discordar, o estilo de desenho do animê e mangá atuais está muito genérico. Não quero dizer que isso seja ruim, ou que o desenho seja feio por isto.
 

Estes dois desenhos têm o mesmo autor!
Lembre-se, se alguma vez você se sentir mal
por sua arte, não desanime. Veja o quão
longe Hirohiko Araki evoluiu em sua arte.
 
No início de sua carreira, o estilo de desenho de Araki não era nada parecido com este que atualmente utiliza. Como exemplo disso vejamos as suas obras Buso Poker, Say Hi to Virginia, Gorgeous Irene, e Cool Shock B. T.
 


Buso Poker

Iniciando com uma história relativamente ortodoxa e um desenho gracioso, desde suas origens podemos encontrar algumas daquelas características que definiriam o estilo pessoal de Araki: Um traço limpo, close-ups, e um forte senso de dinamismo.


Cool Shock B. T.

Já na sua estreia, muito antes de Jojo's Bizarre Adventure, Araki foi indicado para o prestigioso Prêmio Osamu Tezuka, por seu mangá Busou Poker. Estes primeiros trabalhos seguem o estilo de desenho dos mangás da época, com exceção de Gorgeous Irene e Say Hi to Virginia, que lembram mais alguns comics norte-americanos daquele mesmo tempo.


Gorgeous Irene

Embora muitos dos mais brilhantes aspectos destas obras iniciais tenham sido reciclados mais tarde por Araki, ainda não havia nada que pudesse se comparar a Jojo's Bizarre Adventure. Em Cool Shock B. T. por exemplo, a narrativa ainda era áspera, irregular e apressada, apenas sobrecarregando uma ideia interessante não inteiramente bem executada. Mas ainda interessante, porque o estilo vai ser executado com maestria dentro dos próximos 20 anos. O conceito de "Shonen ortodoxo de lutas não-ortodoxas" que Tsugumi Ohba e Takeshi Obata viriam a cultivar no brilhante Death Note.
 

Say Hi to Virginia

Digamos que foi quando Araki lançou o mangá Baoh que ele começou a adotar o estilo pelo qual é atualmente conhecido. De muitas maneiras, Baoh não é apenas o precursor de JoJo's Bizarre Adventure, mas também o outro lado da moeda de Cool Shock B. T. Não há uma mudança muito radical na forma de se contar a história, e tudo é definido em um plano mais heroico.
 

Baoh

A história de Baoh parece uma cruza de um Go Nagai relativamente contido com Kamen Rider de Shotaro Ishinomori, apenas para assinalar algumas das maiores influências de Araki.
Em Baoh não encontramos o mesmo tipo de violência gráfica típica da Shonen Jump, comum em mangás como Dragon Ball e One Piece. A violência de Baoh alcança um nível de realismo onde algumas imagens podem ser realmente incômodas para os leitores mais frescos sensíveis. Um traço que seria uma das marcas registradas de Jojo's Bizarre Adventure.
 

Jojo's Bizarre Adventure:
Phantom Blood

Baoh é até hoje considerado um mangá cult. Além de ser um excelente adendo para o que será a obra imortal Jojo's Bizarre Adventure. Afinal, aqui Araki descobriu todas as chaves necessárias para criar a sua obra-prima: batalhas psicológicas, batalhas físicas e um conceito de masculinidade tão hipertrofiado que é inevitável alguns imaginarem que é paródico.
 

Estes são Dio e Jonathan no
início de Jojo's Bizarre
Adventure: Phantom Blood

Quando iniciou Phantom Blood, o primeiro arco de Jojo's Bizarre Adventure, o desenho de Araki começou a assumir muitas influências do estilo adotado por Tetsuo Hara, desenhista responsável pela arte do mangá Hokuto no Ken. É certo afirmar que nesta época, a década perdida de 1980, Hokuto no Ken era a maior tendência para todos os homens do universo mangá. E tal como Hokuto no Ken, Phantom Blood era uma assumida Ode à Masculinidade!
Percebemos então que algo estava finalmente tomando forma. É só analisar como os personagens de Jojo's Bizarre Adventure: Phantom Blood se pareciam em seu início e como passaram a se parecer ao final desta primeira parte do mangá.
 

Estes são Dio e Jonathan no final da primeira parte do mangá.
Evolução!
 
Os desenhos, para alguns olhos mais críticos, pareciam estar fora de proporções. Mas o traço vai gradualmente evoluindo, e ao final ele está realmente incrível. 

Mas e a história? Jojo's Bizarre Adventure é a eterna luta fratricida de Joestar seguindo a família através de várias gerações contra o faustiano Dio Brando. A luta começa com o patriarca da família, Jonathan Joestar, em 1880 e termina em 2011, com a última Joestar, Jolyne Kujo antes de testemunhar uma reinicialização cósmica do universo, o que lembra bastante a obsessão dos quadrinhos pelo retorno às origens dos super-heróis. Uma das peculiaridades da série é que cada arco é, ao mesmo tempo, uma continuação independente do arco anterior.
 

Mudança de traços de Araki para cada um dos personagens dentro de seu respectivo arco protagonizado.
Perceba que a cada arco o seu traço vai ficando cada vez mais constante até chegar ao seu oitavo e atual arco.
 
O estilo dos personagens manteve-se o mesmo durante os três primeiros arcos do mangá, isto é, em Phantom Blood, Battle Tendency e Stardust Crusaders. Nestes arcos, os traços dos personagens estão mais estilizados, com um melhor manejo de sombras, agregando também mais profundidade nos gestos dos personagens, detalhes que não se notavam muito nos primeiros trabalhos de Araki.
 
 
O segundo arco, Battle Tendency, perde parte do ar gótico presente no primeiro arco, concentrando-se em uma história de aventura de ar mítico, focando-se em combates contra deuses-vampiros e a descoberta do segredo por trás da Máscara de Pedra (artefato que deu a Dio Brando seus poderes vampirescos), tudo acompanhado com nazistas e cyberpunk pré-Segunda Guerra Mundial, no mais estranho shonen prototípico da historia. Se você também acrescentar que aqui temos o aparecimento de dois dos melhores e mais bem construídos personagens de toda a série, Joseph Joestar e Cesar Zeppeli, é fácil ver que este arco, apesar das aparências, é mais do que apenas um "Hokuto no Ken com vampiros". É mitologia pura em ação.
Algo que veremos em Stardust Crusaders, o terceiro arco da série, agora totalmente focado em lutas e poderes especiais, é a introdução dos Stands, manifestações físicas do poder espiritual de cada personagem.
 

Jojo's Bizarre Adventure:
Diamond is Unbreakable

Mas algo aconteceu com o final do terceiro arco. Talvez Araki estivesse cansado de lutas, talvez a fórmula estivesse se desgastando, mas o autor parecia não se interessar em ter uma outra história de aventura. Assim o mangá toma sutilmente um lado psicológico de narrativa.
A partir do quarto arco do mangá, Diamond is Unbreakable, percebe-se uma mudança no traço. Nesta fase, os personagens já não apresentam músculos tão notórios como nos arcos anteriores. E também houve a introdução de uma intercessão para um modelo mais, digamos, intersexual, que se manteve nos arcos posteriores.
 

Jojo's Bizarre Adventure:
Vento Aureo

Em Vento Aureo, somos apresentados a Giorno Giovanna (filho de Dio Brando!) em sua jornada para destruir a máfia italiana desde seu interior. Já em Stone Ocean, acompanhamos a história de Jolyne Kujo (filha de Jotaro Kujo e a melhor Jojo de todos!) presa injustamente em Green Dolphin Street Jail, ela terá que escapar da prisão e confrontar um antigo seguidor de Dio Brando. Sua narrativa está se movendo em direção a um estilo mais temático, como já foi no primeiro arco. Eles não estão lutando. Não somente. É uma hibridização de gêneros diferentes em um universo já definido.

A partir do sétimo arco, Steel Ball Run, o traço torna-se mais realista, com a incorporação dos ideais de beleza que estão em maior evidência no mundo.
 

Jojo's Bizarre Adventure:
Steel Ball Run

Aqui quero comentar algo.
Desde Vento Aureo, os personagens são retratados com poses e estilos ainda mais exóticos. E na opinião de muitos na internet, não são muito masculinos. E isto fica ainda mais evidente em Steel Ball Run e no arco atual do mangá, Jojolion.
Anteriormente, Jojo's Bizarre Adventure era uma publicação semanal, para a qual Araki tinha um tempo muito curto para terminar, assim não poderia dedicar tanto trabalho ao seu desenho. E, como foi aceito que a publicação de Jojolion fosse mensal, Araki teve então mais liberdade para aperfeiçoar o seu estilo, criando uma arte própria que absorveu muitas influências de escolas clássicas de artistas, como veremos mais adiante.
 

Jojo's Bizarre Adventure:
Jojolion
 
Araki mostra que pode desenhar algo complexo, evoluindo cada vez mais o seu desenho e aperfeiçoando o seu traço. Seus desenhos agora estão ainda mais realistas e apegados a anatomia humana. Araki também toma como referências as ilustrações de Antonio Lopez e Tony Viramontes.
 

Arte de Antonio Lopez

Pouco depois de iniciar Steel Ball Run, por algum motivo, a série foi transferida da Shonen Jump para a Ultra Jump, revista da mesma linha também publicada pela Shueisha, porém focando em um público mais adulto, com um conteúdo que pode ser classificado como seinen. Assim, as mudanças ocorreram rapidamente. Como a revista é mensal e Araki pode dedicar-se mais, os típicos capítulos de 20 páginas passaram para 50 páginas, e é perceptível a clara melhoria do desenho, em um estilo mais simples, mais fluido e realista.
 

Arte de Tony Viramontes

Com estas mudanças também há ênfases em detalhes, close-ups, junto de uma virtuosíssima técnica cada vez mais evidente. Houve também uma mudança nas formas narrativas da mesma série. Afinal de contas, não era possível contar as mesmas histórias com um estilo pictórico substancialmente diferente.
 
Poucos devem saber deste detalhe. Mas Araki também utiliza alguns dos estilos da moda contemporânea para as famosas "jojo poses" dos seus personagens. (Confira neste link)
 
Algo que nunca deve deixar de ser mencionado é também a obsessão de Araki pela arte renascentista italiana, baseando os seus desenhos em evidentes proporções clássicas, harmonia e certa beleza canônica herdada da escultura neoclássica.



O Juízo Final
Teto da Capela Sistina no Vaticano, arte Renascentista

Araki descreve seu estilo como clássico. E isso é evidente por sua grande admiração por Leonardo da Vinci, muito referenciado nos textos de seu mangá. E também é visto fazendo referência visual a livros da obra de Michelangelo que detalham a construção de uma peça.
 
Com relação as cores, Araki é influenciado particularmente por Paul Gauguin, artista francês conhecido por seu "uso experimental de cor e estilo sintetista". 
 

Arte de Paul Gauguin

Depois de Takashi Murakami e Yayoi Kusama para Louis Vuitton, foi Hirohiko Araki o outro artista japonês a emprestar sua arte para o mundo da moda, em Florença na Itália. De 28 de junho a 14 de julho de 2011, uma coleção especial de seus desenhos originais ficou em exibição, incluindo a série JoJo's Bizarre Adventure, que já vendeu mais de 100 milhões de cópias em todo o mundo, e as histórias JolyneFly High with Gucci, fruto da colaboração entre o artista e Frida Giannini, que foi a diretora criativa da casa de moda italiana Gucci de 2006 a 2014. 
O one-shot Kishibe Rohan meets Gucci em outubro de 2011 foi realizado para comemorar o 90º aniversário da casa de moda florentina, que atraiu mais de 22.000 visitantes em apenas três semanas em amostra na boutique Gucci de Shinjuku.

 
"A oportunidade de exibir meu trabalho em Florença, provavelmente o centro mundial da arte, é a maior honra da minha vida. Espero que todos na Europa possam desfrutar da exposição".
 
 Hirohiko Araki, durante a exposição aberta ao público.
 
As maiores influências no mundo dos mangás para Araki foram os mangás que ele passaria lendo sozinho durante os anos 70, como Ai to Makoto (o mais importante de sua juventude) escrito por Ikki Kajiwara, e Babel II, além de vários artbooks da coleção de seu pai, o que despertou o seu interesse em criar mangás.


Ai to Makoto

Babel II, de Mitsuteru Yokoyama, particularmente serviu como base para o seu conceito de combates definidos por normas e poderes especiais.


Hirohiko Araki presenteia Clint Eastwood  com um quadro de
Jotaro Kujo, o personagem que o ator veterano ajudou a criar.

Jojo's Bizarre Aventure, como já dito contém várias referências a música e ao cinema ocidental. Sobretudo ao cinema brucutu da década perdida. Dentro das inúmeras referências do cinema, destaco duas:

Jotaro Kujo, o mais famoso de todos os Jojos , por exemplo, teve a sua personalidade inspirada pelos inúmeros personagens que Clint Eastwood viveu no cinema. Muito do que Jotaro Kujo é deve-se justamente aos western movies da época dourada do cinema ocidental.
 

Em retribuição, Clint Eastwood posa para foto imitando
a "Jojo pose" mais famosa de Jotaro.

O carismático vilão Dio Brando referencia diretamente o cultuado ator Marlon Brando, importantíssimo na história da 7ª arte. E ainda referencia a lenda do heavy metal Ronnie James Dio.
E por falar em referências musicais, termino a postagem com algumas rápidas referências ao rock ocidental. Referenciar a todas levaria muito tempo, e isto poderia ficar para uma próxima postagem.
 
O personagem Yoshikage Kira, um dos antagonistas mais amados de toda a série, tem a mesma aparência da mítica figura de David Bowie, e seu Stand Killer Queen, bem como suas habilidades Sheer Heart Attack e Another One Bite The Bite, são referências diretas às canções de mesmo nome da lendária banda britânica Queen.
 
                                 
 
O dia em que "Yoshikage Kira" reencontrou-se com aquele homem que lhe ensinou seus movimentos especiais:
 
                                 

Quando falamos de Jojo's Bizarre Adventure, estamos falando de um trabalho revolucionário. Uma obra capaz de escapar de todos os preconceitos de gênero e ao mesmo tempo abraça-los.  Devemos ler Araki. Porque devemos ler Jojo. Porque, como todos os clássicos, quebra todas as regras na definição de sua personalidade, mas respeita a tudo quando se trata do diálogo com os seus leitores. Porque reinventa o significado de bizarro de acordo com Araki: tanto em sua estranheza quanto em sua coragem.