domingo, 23 de julho de 2017

GRANDES PERSONAGENS DAS HQ'S: MULHER MARAVILHA

 
Finalmente!
Mulher Maravilha é o grande acerto da DC Comics no cinema! Os atores foram ótimos, a ação foi fenomenal e muito bem dirigida. O filme foi estabelecido na Primeira Guerra Mundial em vez da Segunda Guerra Mundial (como seria de se esperar para quem conhece a fundo a história da maior heroína das histórias em quadrinhos!). E isso merece uma menção especial porque sinto que foi feito um trabalho muito bom para mostrar a realidade desse conflito, apesar da classificação do filme.


Mulher Maravilha é um filme realmente muito bom. Ele está à altura dos ideais da heroína original e entrega uma mensagem positiva e definitiva aos fãs de quadrinhos.
Para que você possa comprovar isso, temos que falar sobre a sua história e aquilo que a inspirou. Então, com isso dito...

O nome real da Mulher Maravilha é Diana, princesa de Themyscira e governante das Amazonas.
Nas histórias em quadrinhos, as Amazonas são uma raça imortal de mulheres guerreiras, mas isto tem uma base real na história do mundo real.

Acredite ou não, as Amazonas são mencionadas em documentos históricos reais. O historiador grego Heródoto afirma que eram uma tribo de mulheres guerreiras que viviam perto do rio Thermodon na Turquia moderna.


E as Amazonas fizeram aparições na mitologia grega. Os dois maiores exemplos foram a rainha amazônica Penthesilea, que lutou e morreu na Ilíada de Homero...

 

Penthesilea

... e sua irmã mais famosa, Hippolyta, a senhora que desistiu de seu cinturão para Hércules (Um dos 12 trabalhos do maior herói grego foi vencer a rainha das Amazonas e tomar o seu cinturão), e ela é a mãe da Mulher Maravilha nas histórias em quadrinhos da DC Comics
.



Connie Nielsen é a rainha Hippolyta no filme

De acordo com as lendas, as Amazonas eram guerreiras ferozes, algo que se traduzia bem nos quadrinhos. Além disso, elas eram conhecidas por cortar o peito esquerdo, a fim de desenhar melhor as suas cordas de arco (!), o que não é algo que se traduziu nos quadrinhos.

Historicamente, elas podem ter sido relacionados a um grupo de pessoas conhecidas como os Citas, que eram um grupo de nômades que viviam perto e ao redor do Mar Negro, e suas mulheres lutavam ao lado dos seus homens.


Os antigos Citas
 
De volta aos quadrinhos, a Mulher Maravilha fez sua primeira aparição em All Star Comics # 8 em outubro de 1941. E embora não tenha sido o primeiro super-herói feminino publicado durante a Era de Ouro dos quadrinhos, ela foi claramente a mais bem-sucedida.


Dentro da Trindade DC Comics, isto é, Superman, Batman e Mulher Maravilha, considero a personagem recentemente vivida no cinema por Gal Gadot como a mais complexa e definitivamente a mais interessante, devido a toda a história que há por trás da criação da personagem.
A Mulher Maravilha é um personagem único dentro dos quadrinhos, e eu diria também inigualável! Acredito que ela poderia ser uma contraparte DC Comics para o Thor da Marvel Comics, porque ambos não são apenas super-heróis, mas referências culturais.


Mulher Maravilha e Thor - heróis e referências culturais.
Além do passado mitológico, os dois compartilham muitos pontos em comum, até
mesmo em suas vulnerabilidades relacionadas a artefatos mágicos que deveriam
amplificar as suas habilidades:
Se amarrada por seu próprio laço mágico, a Mulher Maravilha perde seus poderes.
E Thor, quando fica cerca de 1 minuto longe de seu martelo Mjiolnir, transforma-se em
uma versão mais jovem do doutor House. 
Lógico que isto tudo foi revisto pelos escritores com o passar dos anos.

Curioso também é que, observando de perto o conjunto de poderes originais da Mulher Maravilha, alguns deles não fazem muito sentido.
Para começar, o seu traje não é exatamente o que você chamaria de prático, ou mesmo remotamente remanescente daquilo que os antigos gregos ou citas usavam.


Dentro do seu arsenal de armas estão seus braceletes indestrutíveis que ela usa para desviar balas, e o famoso Laço da Verdade
 que obriga as pessoas a dizerem somente a verdade.
Mas tudo faz muito sentido tudo quando você conhece o homem responsável pela criação da Mulher Maravilha: William Moulton Marston.


William Moulton Marston

Marston foi um psicólogo especialmente ativo durante as décadas de 1920 e 1930.
Além da Mulher Maravilha, ele desenvolveu uma maneira de medir a freqüência cardíaca e a pressão arterial das pessoas, um aspecto importante para os testes modernos do polígrafo.


Exemplo de teste do Polígrafo
 

Steve Trevor e o Laço da Verdade
 
Isso explica o Laço da Verdade da Mulher Maravilha. Mas e os seus braceletes?

 
Vê a senhora da extrema esquerda na imagem acima tomando notas? Vê a pulseira que ela usa no pulso? Esta é Olive Byrne, uma das principais inspirações para a criação da Mulher Maravilha. Ela e Marston estavam envolvidos em uma relação, digamos... profundamente pessoal.
 

Ah, e por sinal, esta na nova imagem acima é Elizabeth, a espoa de William Marston.

Para todos os efeitos, os três tinham uma relação e viviam felizes juntos, e foi assim que a Mulher Maravilha conseguiu suas pulseiras indestrutíveis.


A família Marston em um dia de folga.
Veja a Olive no fundo da foto. De pulseira e tudo.
Além de viverem em um relacionamento poli-amoroso, os Marstons eram grandes fãs de bondage e submissão, o que eu não vou mostrar aqui porque pode ter crianças vendo.

Você não precisa aceitar a minha palavra, apenas dê uma pequena olhada em algumas das imagens dos primeiros quadrinhos da Mulher Maravilha:

 
 
 
Controverso?
 
Falando em controvérsia, os diálogos do filme da Mulher Maravilha são muito interessantes. E há uma cena em particular que me chamou muito a atenção no cinema.
 
O momento em questão é a viagem de Diana e Steve partindo de Themyscira para Londres, onde os dois têm um dos mais engraçados diálogos do filme sobre aparências e sexo.
Diana não consegue entender por que Steve está desconfortável por dormir ao lado dela. E quando ele assume que ela não deve entender nada sobre os desejos e os prazeres da carne, ela rebate que leu todos os 12 volumes dos Tratados de Cleo sobre o corpo e o prazer.
 
 
Diana afirma a Steve que, enquanto os homens são essenciais para a procriação, eles são dispensáveis para coisas como o prazer. 
Zoeiras à parte, juro que após esta cena sussurrei dentro do cinema "doutor William Marston". Está claro que o filme abordou, ainda que superficialmente, muitas das ideias por ele defendidas. Marston era um homem da ciência, mas também um feminista. Na verdade, ele não era apenas um feminista, ele acreditava que as mulheres eram inerentemente superiores aos homens de todas as maneiras.

É sutil, mas se você olhar de perto o seu trabalho:
 
 
 
 
Apesar destes ideais progressivos e avançados que a Mulher Maravilha estabeleceu para a indústria de quadrinhos no início dos anos 40, acredito que William Marston seria odiado pelo feminismo moderno (Já ouviu falar do boicote feminista ao filme?).
Martson antes de um psicólogo boêmio e polígamo com fetiche por bondage, acreditava na igualdade de sexos. Mas eu não compreendo bem como pensa o movimento feminista de nossa época.
 
O feminismo de fato surgiu durante a Segunda Guerra Mundial. Esta guerra foi um conflito de homens e mulheres. As mulheres passaram a ocupar funções que antes eram consideradas masculinas, como engenheiras, supervisoras de produção e motoristas de caminhão, por exemplo, e também se alistaram nas forças armadas.
 
A entrada maciça de mulheres no mercado de trabalho, seja para suprir o vazio deixado pelos homens que estavam no front de batalha, seja para preencher uma demanda surgida com a eclosão da guerra, causaria um grande impacto social, durante e depois do evento. Não demorou muito para que as lideranças dos países envolvidos no conflito percebessem que teriam que convocar as mulheres para a guerra. Inicialmente, elas foram conclamadas a se voluntariarem, mas, com o avanço dos combates, passaram a ser recrutadas. Se na Primeira Guerra Mundial elas estiveram em fábricas e foram enfermeiras, agora fabricavam e até pilotavam aviões.
 
 
A Mulher Maravilha era literalmente uma embaixadora enviada para um lugar que ela chama de "Mundo dos Homens" para convencer as pessoas de que as mulheres podem ser tão poderosas quanto os homens, e também para salvá-los de se destruírem na guerra.
 
 
E a personagem encarna perfeitamente o ideal de como a super-heroína deveria ser: Forte como Hércules e bela como Afrodite. Ideal este também claramente defendido pelo doutor Martson. 

William Marston morreu em 1947, e a Mulher Maravilha permaneceu uma das maiores super-heroínas da DC Comics. E ela permaneceu um ícone popular, chegando inclusive a estrelar um programa de TV bastante popular na década de 70, estrelado por Lynda Carter.



Lynda Carter
 
Mas foi com renovação da personagem, no final dos anos 80, juntamente com o resto do universo DC, que a editora percebeu o quão importante, e comercializável, a Mulher Maravilha é para eles. 


A Mulher Maravilha de George Perez (década de 1980)

A super-heroína foi acomodada por excelência dentro da mitologia do universo DC, fazendo parte da importante Trindade.
 

A Trindade DC Comics
 
Até então a adaptação mais famosa para a personagem esteve presente na excelente série de desenhos animados da Liga da Justiça. Acredito que grande parte do público atual da internet tem aquele desenho como a imagem definitiva da personagem.
Mas e hoje? O filme Mulher Maravilha atendeu ao legado e à mensagem da personagem original e é um aditamento valioso para sua longa carreira?

Não pensei em escrever a crítica completa do filme da Mulher Maravilha (que aliás já deixei bem claro que GOSTEI MUITO), porque desisti de escrever críticas sobre filmes já que existem blogueiros que fazem isso muito melhor do que eu jamais poderia. Então deixo crítica para quem é especialista.

O que quero escrever sobre o filme são dois pontos muito importantes:

O primeiro ponto é sobre a filosofia por trás da história deste filme.
Durante toda a sua vida, a Mulher Maravilha escutava que o culpado por todas as mazelas do mundo era o deus da guerra Ares. Isso quer dizer que o homem nasce bom, mas Ares o corrompe.


Oi?
 
Sendo assim, o objetivo da Mulher Maravilha era muito simples: Ela deveria apenas matar Ares e assim os homens deixariam de se matar e o mundo teria paz novamente.
Então a Mulher Maravilha descobre que o general alemão Ludendorff é Ares.


Sou Ludendorff e, sim, eu existi!

Eles se enfrentam e ela o mata. Mas o que acontece depois disso?
A guerra não acaba. O que poderia significar que Ares não passava de um mito, como assim especulou Steve Trevor.
Assim a Mulher Maravilha compreende que o mundo não é feito de pessoas boas e más. Mas pessoas com ideias diferentes. O que foi um momento único para o longa metragem. Porém, poucos minutos depois, o verdadeiro Ares aparece. Uma aparição desnecessária na minha opinião, já que o filme fazia questão de passar uma mensagem de que não existia um mal encarnado chamado Ares.
Com a aparição do deus da guerra, o propósito da narrativa acabou se perdendo. Agora, se eu dissesse que não gostei da luta final entre a heroína e o vilão, eu estaria mentindo. Foi uma cena de ação muito boa!


O segundo ponto que preciso destacar é a atuação de Gal Gadot.
Em sua primeira aparição, no filme Batman vs Superman, ela foi considerada a melhor do elenco, e isso aconteceu pelo simples fato de que ninguém esperava nada dela. Mas é verdade, Gal Gadot foi a única coisa boa daquele filme (Minhas desculpas para quem gostou).

Agora, em Mulher Maravilha, posso dizer que Gal Gadot estava muito mais a vontade com a sua personagem. E a sua atuação foi fenomenal.
A Mulher Maravilha é a personagem mais distinta do restante da Trindade DC Comics. Diferente de Batman e Superman, a Mulher Maravilha não tem obrigação de seguir códigos morais. Ela é uma super-heroína que mata (Maxwell Lord que o diga!), afinal ela é uma guerreira Amazona.

E, nos momentos finais do filme, Ares tenta influenciar a Mulher Maravilha a matar a sua inimiga a Doutora Veneno, porque segundo o deus da guerra os humanos são todos iguais e, ambos como deuses, tem o direito de matar estas falhas da criação.
Então a Mulher Maravilha simplesmente se nega a fazer aquilo. Porque os humanos não são simplesmente tudo isso que o Ares disse. Eles são muito mais do que isso. E ela acredita no amor.

A Mulher Maravilha então assume o seu papel como protetora de toda a humanidade.
Gal Gadot realmente foi capaz de encarnar todos os ideias da Mulher Maravilha. Eu aprovo.
 
E agora? Após este grande acerto, o que universo cinematográfico da DC Comics ainda reserva para nós?

sábado, 3 de junho de 2017

ESTILO E INFLUÊNCIAS DE HIROHIKO ARAKI

 
Hirohiko Araki, a mente por trás de Jojo's Bizarre Adventure. Um mangá literalmente eterno, com belas referências ao rock ocidental, ao cinema brucutu dos anos 80, aos filmes clássicos de horror, e a Itália. Araki é o homem que nos fez rir e chorar com esta história que já dura 30 anos. Este mangá é um verdadeiro megassucesso, um dos meus preferidos, e certamente encontra-se no meu top 10 dos melhores mangás que eu tive o privilégio de acompanhar. Nesta postagem falo daquilo tudo que define Araki como um mangaká, isto é, seu estilo de desenho e influências.
O estilo do animê e mangá atuais é conhecido como "padronizado". E seus personagens acabam parecendo os mesmos para a grande maioria do público casual, pouco conhecedores da grande variedade de estilos dos animês e mangás clássicos. Os personagens atuais, em sua grande maioria, apresentam fisionomia magra, olhos grandes e expressivos e o nariz e a boca pequenos. Por mais que muitos possam discordar, o estilo de desenho do animê e mangá atuais está muito genérico. Não quero dizer que isso seja ruim, ou que o desenho seja feio por isto.
 

Estes dois desenhos têm o mesmo autor!
Lembre-se, se alguma vez você se sentir mal
por sua arte, não desanime. Veja o quão
longe Hirohiko Araki evoluiu em sua arte.
 
No início de sua carreira, o estilo de desenho de Araki não era nada parecido com este que atualmente utiliza. Como exemplo disso vejamos as suas obras Buso Poker, Say Hi to Virginia, Gorgeous Irene, e Cool Shock B. T.
 


Buso Poker

Iniciando com uma história relativamente ortodoxa e um desenho gracioso, desde suas origens podemos encontrar algumas daquelas características que definiriam o estilo pessoal de Araki: Um traço limpo, close-ups, e um forte senso de dinamismo.


Cool Shock B. T.

Já na sua estreia, muito antes de Jojo's Bizarre Adventure, Araki foi indicado para o prestigioso Prêmio Osamu Tezuka, por seu mangá Busou Poker. Estes primeiros trabalhos seguem o estilo de desenho dos mangás da época, com exceção de Gorgeous Irene e Say Hi to Virginia, que lembram mais alguns comics norte-americanos daquele mesmo tempo.


Gorgeous Irene

Embora muitos dos mais brilhantes aspectos destas obras iniciais tenham sido reciclados mais tarde por Araki, ainda não havia nada que pudesse se comparar a Jojo's Bizarre Adventure. Em Cool Shock B. T. por exemplo, a narrativa ainda era áspera, irregular e apressada, apenas sobrecarregando uma ideia interessante não inteiramente bem executada. Mas ainda interessante, porque o estilo vai ser executado com maestria dentro dos próximos 20 anos. O conceito de "Shonen ortodoxo de lutas não-ortodoxas" que Tsugumi Ohba e Takeshi Obata viriam a cultivar no brilhante Death Note.
 

Say Hi to Virginia

Digamos que foi quando Araki lançou o mangá Baoh que ele começou a adotar o estilo pelo qual é atualmente conhecido. De muitas maneiras, Baoh não é apenas o precursor de JoJo's Bizarre Adventure, mas também o outro lado da moeda de Cool Shock B. T. Não há uma mudança muito radical na forma de se contar a história, e tudo é definido em um plano mais heroico.
 

Baoh

A história de Baoh parece uma cruza de um Go Nagai relativamente contido com Kamen Rider de Shotaro Ishinomori, apenas para assinalar algumas das maiores influências de Araki.
Em Baoh não encontramos o mesmo tipo de violência gráfica típica da Shonen Jump, comum em mangás como Dragon Ball e One Piece. A violência de Baoh alcança um nível de realismo onde algumas imagens podem ser realmente incômodas para os leitores mais frescos sensíveis. Um traço que seria uma das marcas registradas de Jojo's Bizarre Adventure.
 

Jojo's Bizarre Adventure:
Phantom Blood

Baoh é até hoje considerado um mangá cult. Além de ser um excelente adendo para o que será a obra imortal Jojo's Bizarre Adventure. Afinal, aqui Araki descobriu todas as chaves necessárias para criar a sua obra-prima: batalhas psicológicas, batalhas físicas e um conceito de masculinidade tão hipertrofiado que é inevitável alguns imaginarem que é paródico.
 

Estes são Dio e Jonathan no
início de Jojo's Bizarre
Adventure: Phantom Blood

Quando iniciou Phantom Blood, o primeiro arco de Jojo's Bizarre Adventure, o desenho de Araki começou a assumir muitas influências do estilo adotado por Tetsuo Hara, desenhista responsável pela arte do mangá Hokuto no Ken. É certo afirmar que nesta época, a década perdida de 1980, Hokuto no Ken era a maior tendência para todos os homens do universo mangá. E tal como Hokuto no Ken, Phantom Blood era uma assumida Ode à Masculinidade!
Percebemos então que algo estava finalmente tomando forma. É só analisar como os personagens de Jojo's Bizarre Adventure: Phantom Blood se pareciam em seu início e como passaram a se parecer ao final desta primeira parte do mangá.
 

Estes são Dio e Jonathan no final da primeira parte do mangá.
Evolução!
 
Os desenhos, para alguns olhos mais críticos, pareciam estar fora de proporções. Mas o traço vai gradualmente evoluindo, e ao final ele está realmente incrível. 

Mas e a história? Jojo's Bizarre Adventure é a eterna luta fratricida de Joestar seguindo a família através de várias gerações contra o faustiano Dio Brando. A luta começa com o patriarca da família, Jonathan Joestar, em 1880 e termina em 2011, com a última Joestar, Jolyne Kujo antes de testemunhar uma reinicialização cósmica do universo, o que lembra bastante a obsessão dos quadrinhos pelo retorno às origens dos super-heróis. Uma das peculiaridades da série é que cada arco é, ao mesmo tempo, uma continuação independente do arco anterior.
 

Mudança de traços de Araki para cada um dos personagens dentro de seu respectivo arco protagonizado.
Perceba que a cada arco o seu traço vai ficando cada vez mais constante até chegar ao seu oitavo e atual arco.
 
O estilo dos personagens manteve-se o mesmo durante os três primeiros arcos do mangá, isto é, em Phantom Blood, Battle Tendency e Stardust Crusaders. Nestes arcos, os traços dos personagens estão mais estilizados, com um melhor manejo de sombras, agregando também mais profundidade nos gestos dos personagens, detalhes que não se notavam muito nos primeiros trabalhos de Araki.
 
 
O segundo arco, Battle Tendency, perde parte do ar gótico presente no primeiro arco, concentrando-se em uma história de aventura de ar mítico, focando-se em combates contra deuses-vampiros e a descoberta do segredo por trás da Máscara de Pedra (artefato que deu a Dio Brando seus poderes vampirescos), tudo acompanhado com nazistas e cyberpunk pré-Segunda Guerra Mundial, no mais estranho shonen prototípico da historia. Se você também acrescentar que aqui temos o aparecimento de dois dos melhores e mais bem construídos personagens de toda a série, Joseph Joestar e Cesar Zeppeli, é fácil ver que este arco, apesar das aparências, é mais do que apenas um "Hokuto no Ken com vampiros". É mitologia pura em ação.
Algo que veremos em Stardust Crusaders, o terceiro arco da série, agora totalmente focado em lutas e poderes especiais, é a introdução dos Stands, manifestações físicas do poder espiritual de cada personagem.
 

Jojo's Bizarre Adventure:
Diamond is Unbreakable

Mas algo aconteceu com o final do terceiro arco. Talvez Araki estivesse cansado de lutas, talvez a fórmula estivesse se desgastando, mas o autor parecia não se interessar em ter uma outra história de aventura. Assim o mangá toma sutilmente um lado psicológico de narrativa.
A partir do quarto arco do mangá, Diamond is Unbreakable, percebe-se uma mudança no traço. Nesta fase, os personagens já não apresentam músculos tão notórios como nos arcos anteriores. E também houve a introdução de uma intercessão para um modelo mais, digamos, intersexual, que se manteve nos arcos posteriores.
 

Jojo's Bizarre Adventure:
Vento Aureo

Em Vento Aureo, somos apresentados a Giorno Giovanna (filho de Dio Brando!) em sua jornada para destruir a máfia italiana desde seu interior. Já em Stone Ocean, acompanhamos a história de Jolyne Kujo (filha de Jotaro Kujo e a melhor Jojo de todos!) presa injustamente em Green Dolphin Street Jail, ela terá que escapar da prisão e confrontar um antigo seguidor de Dio Brando. Sua narrativa está se movendo em direção a um estilo mais temático, como já foi no primeiro arco. Eles não estão lutando. Não somente. É uma hibridização de gêneros diferentes em um universo já definido.

A partir do sétimo arco, Steel Ball Run, o traço torna-se mais realista, com a incorporação dos ideais de beleza que estão em maior evidência no mundo.
 

Jojo's Bizarre Adventure:
Steel Ball Run

Aqui quero comentar algo.
Desde Vento Aureo, os personagens são retratados com poses e estilos ainda mais exóticos. E na opinião de muitos na internet, não são muito masculinos. E isto fica ainda mais evidente em Steel Ball Run e no arco atual do mangá, Jojolion.
Anteriormente, Jojo's Bizarre Adventure era uma publicação semanal, para a qual Araki tinha um tempo muito curto para terminar, assim não poderia dedicar tanto trabalho ao seu desenho. E, como foi aceito que a publicação de Jojolion fosse mensal, Araki teve então mais liberdade para aperfeiçoar o seu estilo, criando uma arte própria que absorveu muitas influências de escolas clássicas de artistas, como veremos mais adiante.
 

Jojo's Bizarre Adventure:
Jojolion
 
Araki mostra que pode desenhar algo complexo, evoluindo cada vez mais o seu desenho e aperfeiçoando o seu traço. Seus desenhos agora estão ainda mais realistas e apegados a anatomia humana. Araki também toma como referências as ilustrações de Antonio Lopez e Tony Viramontes.
 

Arte de Antonio Lopez

Pouco depois de iniciar Steel Ball Run, por algum motivo, a série foi transferida da Shonen Jump para a Ultra Jump, revista da mesma linha também publicada pela Shueisha, porém focando em um público mais adulto, com um conteúdo que pode ser classificado como seinen. Assim, as mudanças ocorreram rapidamente. Como a revista é mensal e Araki pode dedicar-se mais, os típicos capítulos de 20 páginas passaram para 50 páginas, e é perceptível a clara melhoria do desenho, em um estilo mais simples, mais fluido e realista.
 

Arte de Tony Viramontes

Com estas mudanças também há ênfases em detalhes, close-ups, junto de uma virtuosíssima técnica cada vez mais evidente. Houve também uma mudança nas formas narrativas da mesma série. Afinal de contas, não era possível contar as mesmas histórias com um estilo pictórico substancialmente diferente.
 
Poucos devem saber deste detalhe. Mas Araki também utiliza alguns dos estilos da moda contemporânea para as famosas "jojo poses" dos seus personagens. (Confira neste link)
 
Algo que nunca deve deixar de ser mencionado é também a obsessão de Araki pela arte renascentista italiana, baseando os seus desenhos em evidentes proporções clássicas, harmonia e certa beleza canônica herdada da escultura neoclássica.



O Juízo Final
Teto da Capela Sistina no Vaticano, arte Renascentista

Araki descreve seu estilo como clássico. E isso é evidente por sua grande admiração por Leonardo da Vinci, muito referenciado nos textos de seu mangá. E também é visto fazendo referência visual a livros da obra de Michelangelo que detalham a construção de uma peça.
 
Com relação as cores, Araki é influenciado particularmente por Paul Gauguin, artista francês conhecido por seu "uso experimental de cor e estilo sintetista". 
 

Arte de Paul Gauguin

Depois de Takashi Murakami e Yayoi Kusama para Louis Vuitton, foi Hirohiko Araki o outro artista japonês a emprestar sua arte para o mundo da moda, em Florença na Itália. De 28 de junho a 14 de julho de 2011, uma coleção especial de seus desenhos originais ficou em exibição, incluindo a série JoJo's Bizarre Adventure, que já vendeu mais de 100 milhões de cópias em todo o mundo, e as histórias JolyneFly High with Gucci, fruto da colaboração entre o artista e Frida Giannini, que foi a diretora criativa da casa de moda italiana Gucci de 2006 a 2014. 
O one-shot Kishibe Rohan meets Gucci em outubro de 2011 foi realizado para comemorar o 90º aniversário da casa de moda florentina, que atraiu mais de 22.000 visitantes em apenas três semanas em amostra na boutique Gucci de Shinjuku.

 
"A oportunidade de exibir meu trabalho em Florença, provavelmente o centro mundial da arte, é a maior honra da minha vida. Espero que todos na Europa possam desfrutar da exposição".
 
 Hirohiko Araki, durante a exposição aberta ao público.
 
As maiores influências no mundo dos mangás para Araki foram os mangás que ele passaria lendo sozinho durante os anos 70, como Ai to Makoto (o mais importante de sua juventude) escrito por Ikki Kajiwara, e Babel II, além de vários artbooks da coleção de seu pai, o que despertou o seu interesse em criar mangás.


Ai to Makoto

Babel II, de Mitsuteru Yokoyama, particularmente serviu como base para o seu conceito de combates definidos por normas e poderes especiais.


Hirohiko Araki presenteia Clint Eastwood  com um quadro de
Jotaro Kujo, o personagem que o ator veterano ajudou a criar.

Jojo's Bizarre Aventure, como já dito contém várias referências a música e ao cinema ocidental. Sobretudo ao cinema brucutu da década perdida. Dentro das inúmeras referências do cinema, destaco duas:

Jotaro Kujo, o mais famoso de todos os Jojos , por exemplo, teve a sua personalidade inspirada pelos inúmeros personagens que Clint Eastwood viveu no cinema. Muito do que Jotaro Kujo é deve-se justamente aos western movies da época dourada do cinema ocidental.
 

Em retribuição, Clint Eastwood posa para foto imitando
a "Jojo pose" mais famosa de Jotaro.

O carismático vilão Dio Brando referencia diretamente o cultuado ator Marlon Brando, importantíssimo na história da 7ª arte. E ainda referencia a lenda do heavy metal Ronnie James Dio.
E por falar em referências musicais, termino a postagem com algumas rápidas referências ao rock ocidental. Referenciar a todas levaria muito tempo, e isto poderia ficar para uma próxima postagem.
 
O personagem Yoshikage Kira, um dos antagonistas mais amados de toda a série, tem a mesma aparência da mítica figura de David Bowie, e seu Stand Killer Queen, bem como suas habilidades Sheer Heart Attack e Another One Bite The Bite, são referências diretas às canções de mesmo nome da lendária banda britânica Queen.
 
                                 
 
O dia em que "Yoshikage Kira" reencontrou-se com aquele homem que lhe ensinou seus movimentos especiais:
 
                                 

Quando falamos de Jojo's Bizarre Adventure, estamos falando de um trabalho revolucionário. Uma obra capaz de escapar de todos os preconceitos de gênero e ao mesmo tempo abraça-los.  Devemos ler Araki. Porque devemos ler Jojo. Porque, como todos os clássicos, quebra todas as regras na definição de sua personalidade, mas respeita a tudo quando se trata do diálogo com os seus leitores. Porque reinventa o significado de bizarro de acordo com Araki: tanto em sua estranheza quanto em sua coragem.