segunda-feira, 13 de junho de 2016

AS MELHORES MENÇÕES MITOLÓGIAS DE XENA

 
Xena: A princesa guerreira retornará com uma nova série. Motivos para comemorar? Infelizmente a resposta é não! Durante a postagem vou citar as reais razões para não curtir o retorno deste grande clássico. Nos anos 90, Xena: A princesa guerreira e Hércules: A lendária jornada foram alguns dos melhores seriados já feitos para a televisão. Além de atrizes lindíssimas, ação, violência e humor na medida certa, havia um forte apelo para as mitologias, principalmente a grega, o maior dos atrativos presentes nestes seriados, e ainda brindava o público com muita, muita filosofia.
Não é de se surpreender o anuncio de uma nova produção de uma série sobre a princesa guerreira. Além das suas qualidades já citadas, vivemos afinal os tempos de escassez de criatividade. O retorno de Xena poderia ser bem recebido, apesar de tudo, mas infelizmente neste século XXI, nesta era do politicamente correto, com os meios de entretenimento totalmente controlados pelos chamados Social Justice Warriors, já imagino o tipo de discurso pedante que a nova produção apresentará.
Nesta geração onde tudo é ofensivo, chegamos facilmente a conclusão de que a única coisa que nos será permitido assistir será "Xena: A princesa guerreira" devidamente "modernizada". Afinal, as mesmas (ou os mesmos) que afirmam ser a "masculinidade frágil" dão chilique por causa de um cartaz de um filme onde um super-vilão estrangula uma mocinha ou com uma matéria boboca de uma revista sobre uma mulher "bela, recatada e do lar". Se chegar um momento em que apenas Xena será permitida, vamos então recordar de todas as qualidades da série clássica, insubstituível por qualquer versão moderna politicamente correta. Enfim, graças ao TCM ainda podemos ver o seriado de nossa verdadeira princesa guerreira, como eu gosto de chamar, o "Tokusatsu neozelandês", com seus atores canastras e seus magníficos defeitos especiais. A precariedade destas produções cults são alguns de seus maiores charmes. Não aguento os atuais Tokusatsus japoneses com toda aquela computação gráfica exagerada, embora ao menos os seus atores continuem canastrões.
 
A postagem vai se concentrar no fator mitológico presente no seriado clássico. Em Xena: A princesa guerreira, que inicialmente reproduzia histórias dos antigos mitos gregos, durante suas últimas temporadas começou a empregar um tipo de sincretismo como aquele que é empregado por muitos wiccanos, pagãos, e neo-pagãos. O mesmo aconteceu em alguns momentos com o seriado do Hércules, quando o filho de Zeus conheceu e confrontou as deidades da mitologia nórdica como Thor
e Loki. Em ambos os seriados, mesmo quando a mitologia grega não é reproduzida com 100% de fidelidade, ainda é apresentada de uma forma ao menos interessante. Exemplos notáveis:
 
 
Hades - O deus do mundo dos mortos é constantemente injustiçado com as formas nas quais é apresentado pela ficção. Ele quase sempre é totalmente preservo, traiçoeiro e mesquinho, como pode ser visto em Fúria de Titãs, em Cavaleiros do Zodíaco e ainda naquele filme da Disney. Tudo por conta da bizarra associação entre ele e o Satanás do cristianismo.
 
À esquerda, Hades em Fúria de Titãs: mistura de metaleiro com Piccolo Daimao.
À direita, Hades em Cavaleiros do Zodíaco: versão galã trevoso. 
O deus do submundo, que não é mesma coisa que inferno (este chamado pelos antigos gregos de Tártarus, uma das subdivisões do mundo governado por Hades), é o mais, digamos, "apaixonado" dos três principais deuses cultuados anteriormente pelos gregos. Tanto em "Hércules" quanto em "Xena" foi exaltada a história na qual Hades sequestra Perséfone, a deusa da primavera, evento que culminou no surgimento das 4 Estações do ano. 
Claro que Hades não era apenas um incompreendido, ele também tinha seu lado tenebroso e traiçoeiro. Sempre estava barganhando com as almas dos mortos, e em "Xena", ele barganhou com a princesa guerreira pelo menos umas duas vezes. Também sonha em aumentar o seu número de súditos (os guerreiros mortos em combate) para aumentar o seu poder e influencia. No seriado, foi assim com Sísifo, o homem que enganou a morte.
 
Hades: O vilão mais hilariante dos filmes da Disney.
Apesas do erro grotesco de continuidade, a série, em um segundo momento, retrata Sísifo como um bruxo superpoderoso (como Félix Fausto, inimigo da Mulher Maravilha) que retorna da morte e rouba a divindade de Ares. O que trouxe até mais sentido à lenda original, na qual Sísifo engana a morte, o deus Thanatos, e o prende com uma simples corrente.
 
 
Poseidon - Na série, ele é o mais imponente dos deuses. É perfeitamente representado, poderoso, de fala grossa, e muito egoísta.
De fato, na mitologia, Poseidon parece ser mais violento do que Zeus e Hades. Cometia crimes pelos motivos mais fúteis e mesquinhos. Ele estuprou a Medusa dentro do templo de Athena, mas a deusa da sabedoria injustamente castigou a vítima, transformando-a na criatura horripilante com cabelos de serpentes, para que nenhum homem jamais a desejasse novamente. É melhor o Seiya nunca vacilar com a Saori porque sabe-se lá...
 
Poseidon em Cavaleiros do Zodíaco
Atendendo a sua súplica, Poseidon presenteou o rei de Creta, Minos, com um belo touro que surgiu do mar. Mas o deus deu um presente e o quis de volta, e logicamente o rei Minos negou-se a devolve-lo. Então para se vingar, Poseidon hipnotizou a esposa do rei para que ela sentisse desejo sexual pelo animal sagrado. E da relação sexual da mulher com o touro, nasceu a criatura conhecida como Minotauro. O deus dos mares tinha um senso de justiça peculiar.
 
Em "Xena", Poseidon amaldiçoa Cecrops (um dos melhores personagens da série, já presente na primeira temporada), o marinheiro perdido de Atenas. Ele foi preso por Poseidon no mar, por 300 anos, simplesmente porque ele foi o cidadão ateniense escolhido para ser o juiz de uma competição entre Poseidon e Athena, e escolheu a deusa da sabedoria como vencedora da prova. Athena, em seguida, amaldiçoou Cecrops com a imortalidade, significando que ele não podia morrer ou fugir de sua prisão eterna. Qualquer um que viria acabar preso no navio de Cecrops seria morto, caso tentasse sair. Poseidon disse ao pobre amaldiçoado que só amor poderia redimi-lo e salvá-lo da maldição, na certeza de que ele nunca poderia amar novamente.
Muitos anos depois, Xena e Gabrielle viriam a se tornarem parte da tripulação amaldiçoada, e foi quando Cecrops foi capaz de sentir amor novamente e foi assim redimido. Cecrops estava finalmente livre da maldição, juntamente com sua tripulação.
 
 
Baco - O deus Baco foi a divindade que teve a representação mais polêmica, e ainda assim uma das mais interessantes. Aqui o deus do vinho é um deus do mal, um tirano que controla um exército de Bacantes, representadas como bela jovens com aparência e comportamento semelhante aos dos vampiros. Sua história está também relacionada ao romance entre Orfeu e Eurídice, personagens originalmente relacionados ao conto onde o jovem músico Orfeu desce até o reino de Hades para resgatar a alma da sua amada. Em Xena, Orfeu tem o poder de domar a fúria das Bacantes com o som da sua lira. Após Eurídice ser assassinada por Baco, Orfeu jurou destruir o deus do vinho, vivendo na floresta das Bacantes, e domando estas criaturas das trevas com o poder de sua lira. Em retaliação a esta ação, Baco amaldiçoou Orfeu, decapitando-o e destruindo o seu corpo, mas ainda mantendo a cabeça dele viva, para que ele pudesse ver e ouvir todo o mal que Baco planejava desencadear.
 
Baco, em Fantasia
No conto mitológico original, Baco (ou Dionísio) era filho de Zeus com a mortal Semele, e, apesar de ter nascido de uma mortal, tornou-se o "deus que nasceu duas vezes". Hera, a ciumenta esposa de Zeus, engana Semele para que esta invocasse a presença de Zeus em toda a sua glória e poder, e assim que o deus dos deuses surgiu diante de sua amante, a sua presença é tão grandiosa e iluminada que a mortal tem seu corpo completamente destruído. Mas Zeus salva o feto de Baco e este completa a sua gestação na coxa de seu pai. E há uma outra ocasião em que Hera finalmente consegue destruí-lo, quando ele já era adulto, mas Zeus faz uma poção com os seus restos mortais e a entrega a deusa Perséfone, que ao bebê-la, engravida de Baco, que assim renasce. Baco também teve filhos com Afrodite e Ariadne.
A figura do deus Baco na ficção ficou marcada pela imagem de um gordinho simpático que adora vinho e festas. Os filmes da Disney, como Fantasia e Hércules, estão aí para confirmar. Na maioria obras de arte clássicas ele tem a aparência humana de um jovem normal, mas é também constantemente descrito como um homem com chifres. O seriado de Xena lhe deu além dos chifres, uma pele vermelha, presas e barba, o que evocou as representações artísticas comuns de Satanás (Detalhe: Baco, esse capetão, é meio-irmão de Hércules e Ares). O que foi uma ideia fantástica, porque conhecendo melhor a mitologia de Baco, percebemos que ele não era um deus propriamente bondoso, ele cometia atos de crueldade e injustiça, e todos nós já sabemos o que rolava na festa em honra ao deus do vinho, a Bacanal, que na nossa língua já até virou sinônimo de suruba. No seriado, Baco ainda oferecia o seu próprio sangue como vinho e todas aquelas mulheres que se servissem da sua bebida se tornavam suas Bacantes, como em uma versão diabólica da Santa Ceia ou uma missa negra.
 
 
Ares - O que dizer de Ares? Muito marcante, e provavelmente o deus mais fielmente retratado.
Ares, o deus da guerra, foi o mais humano de todos os deuses gregos, rejeitado pelo próprio pai Zeus e por seus irmãos olimpianos. Ele demonstrava emoções até certo ponto justificadas, como o ódio e a inveja por todos aqueles que tinham o amor do seu pai, mas ainda havia momentos em que mesmo ele era capaz de sentir amor.
No seriados, ele odiava seu meio-irmão Hércules por este ser o filho preferido de Zeus, e por isso tentava de todas as formas destruí-lo.
Ares desejava ter Xena como líder de todos os seus exércitos, devido toda a capacidade que ele sentia nela, mas a guerreira sempre o rejeitou. E o que Ares fazia quanto a isto?
 
Ares e Xena
Ares é um deus imortal, e portanto deveria ser poderoso o bastante para apagar Xena da existência com a força de um pensamento, mas ele nunca se atreveu a fazê-lo, sendo quase sempre derrotado. E ele sempre agiu assim simplesmente porque a ama! Um deus é vencido por uma mortal porque não é capaz de controlar os seus sentimentos. E é aqui que reside a maior parte de sua humanidade.
Xena é como uma super-heroína de HQ em sua concepção original: bela como Afrodite e forte como Hércules. 
 
Eli e Calisto (como anjo).
Muitos pagãos dedicam-se a adorar um panteão em particular, alguns acreditam que todos os deuses e deusas representam diferentes aspectos de deus. Esta é a forma mais harmoniosa de sincretismo, porque não estando todos os deuses em conflito uns com os outros, permite uma mistura mais fácil de crenças. Há também os pluralistas religiosos que acreditam que todas as religiões têm algum elemento da verdade, mas não toda a verdade. Desta forma, eles acreditam que todos os deuses podem refletir algo do verdadeiro deus ou deuses. Isso tudo tem muito a ver com cultura pop. Duvida?
Em Xena, os escritores tentam usar a primeira forma de sincretismo que descrevi. Quando o seriado começa, em grande parte ele se concentra no panteão grego, com alguma referência ocasional para o judaísmo antigo e algum panteão de um outro país. Mas a medida que a série se aproxima do seu final, o cristianismo começa a fazer parte da narrativa. O personagem Eli parece uma mistura louca de Abraão, Moisés, Elias, São João Batista, e Jesus. Eli é apresentado originalmente como um simples ilusionista na Índia, mas a medida que melhor vamos conhecendo o personagem, ele é comparado a um tipo de "deus da Luz", embora seja mais provável ser um profeta ou o fundador de algum tipo de culto. Ele eventualmente torna-se uma imitação de Jesus, bem, ele é um Jesus em tudo, menos no nome.
 
Indrajit, animê Ramayana
Nesta passagem do seriado pela Índia, Zena confronta a entidade Indrajit, conhecido como o rei dos demônios. Esta foi uma passagem muito marcante. Acompanhei esta fase do seriado pouco tempo após assistir ao animê clássico de 1992, chamado Ramayana, que retratava com fidelidade total a mitologia hindu, no clube Animefã organizado pelo então estudante de processamento de dados Roger Labuto de Barros, no cinema da Universidade Federal do Espírito Santo. Foi um prazer assistir esta obra de arte.
Assim acompanhei a fase "Xena na Índia" já conhecendo muito bem estes personagens.
 
Xena como Kali
Esta parte da série também tem um de seus momentos mais polêmicos. As habilidades de luta de Indrajit era tão superiores que ele não apenas derrota Xena, mas também a esquarteja e a mata. Assim a guerreira grega se deixa ser possuída pelo espírito de Kali para então derrotar o vilão, terminando por decapitá-lo!
Esta sequencia fantástica de ação fez o movimento feminista de terceira onda da época (que ainda não fazia tanto barulho quanto o atual) revoltar-se alegando que nenhum herói masculino havia sido morto de forma tão brutal quanto Xena.
 
Sei, sei.

Um VILÃO pode destruir todo o universo, mas encostar na heroína jamais.
 
Xena já morreu e ressuscitou mais vezes do que o Goku. Em uma vida de combate ao mal, apanhar é inevitável, e não é censurando este lado do trabalho de uma super-heroína que você vai combater a violência contra a mulher.
Na ficção não apenas mulheres sofrem violência. Também sofrem violência, e castigos igualmente brutais, homens, crianças, alienígena...

 
"Olhe sempre pro lado bom da vida!"
Há ainda o lendário episódio em que Xena e Gabrielle são crucificadas pelos romanos por serem seguidoras de Eli. Na minha opinião o seriado deveria ter aqui terminado. O fato da história ter continuado após isto acabou com todo o impacto do acontecimento. 
Mais tarde, Xena ainda fica grávida de uma menina chamada Eva, uma criança que vai trazer o fim ao reinado dos deuses gregos.
 

Xena e Callisto.
Quando a inimiga de Xena, Callisto, morre e vai para o inferno, transforma-se em um demônio que queria atacar o céu. E após o combate definitivo entre as duas, Callisto é purificada, o que eventualmente a leva a tornar-se um anjo. E foi Callisto que de certa forma vem a fazer o papel de quase um anjo Gabriel, revelando a Xena que ela vai ter uma filha que anunciaria o fim dos outros deuses. A filha de Xena, Eva, segue o caminho de Eli e isso, combinado com o seu nome, é o principal exemplo de como os escritores do seriado estavam tentando reproduzir a forma de sincretismo mais usada ​​pelos povos antigos, e eles foram bem sucedidos.
 
Estes dois fizeram parte da sua infância/juventude!