quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

PAZ NA TERRA: A MELHOR FÁBULA DE NATAL


Mês passado, numa noite dessas, estava assistindo a sessão de desenhos animados clássicos da década de 1930 da MGM no Tooncast quando me deparei com uma verdadeira relíquia. Um cartoon fantástico que assistira uma única vez em minha infância nos já longínquos anos 80 e que de fato chegara a imaginar que sequer existira, sendo apenas um produto da minha imaginação.
Mas era real, e foi uma das imagens mais fortes da minha infância, uma fábula de Natal sobre a extinção da humanidade e o nascimento de um novo mundo.
De volta a infância, numa época em que realmente valia a pena sentar na frente da TV e assistir a toda a variedade de atrações que ela nos oferecia, desde desenhos animados, Tokusatsus, programas educativos e atrações musicais, os desenhos animados, já velhos naquele tempo, eram presença garantida principalmente nas manhãs de Sábado. Naqueles dias, assistia as velhas animações de 1930 e 1940 de Tom e Jerry e Pernalonga que não eram tão inocentes quanto poderiam parecer, e talvez por isso mesmo nós adultos ainda gostamos tanto deles. Somente anos mais tarde é que eu realmente compreenderia o que havia visto, uma experiência estranha como o contexto de uma mudança de memória. Eu estava olhando para os sonhos e fantasias das pessoas daquela época, antes mesmo dos meus pais nascerem, não filtrados pelo politicamente correto.

 
Peace on Earth (Paz na Terra) é um curta animado de 1939, dirigido por Hugh Harman, e trás um cenário completo para um especial de Natal, desde a neve, as decorações e enfeites e ainda as músicas de fundo.

 
 
Uma típica canção natalina é entoada pelos primeiros personagens a aparecerem. Estamos em uma aldeia habitada por furries adoráveis criaturinhas antropomórficas da floresta, embora seja inquietante o detalhe de que as suas casas em miniatura tenham capacetes de soldados como telhados.


Um velho esquilo caminha passando por três jovens esquilos que cantavam a canção natalina do início da animação. O velho esquilo entra em uma casa e acorda dois pequenos esquilos com um "Feliz Natal e paz aos homens de boa vontade!"

 
"O que são homens, vovô?" pergunta uma das crianças.

"Não existe nenhum homem no mundo, não mais", diz o avô.

Depois disto eu já sabia que este não era um desenho comum.

 
O vovô esquilo começa a narrar um conto angustiante sobre a queda da humanidade por meio da guerra. A cena muda para um mundo de pesadelos, onde os céus estão sempre cheios de fumaça e os edifícios em ruínas, há botas de soldados marchando, tanques militares cruzando as estradas, linhas de baionetas, e formações de aviões, completando um cenário desolador.


O retrato que o vovô tem dos humanos não é nem um pouco simpático, e é exatamente isto que ele revela aos seus netos. "Homens" são criaturas monstruosas sob casacos pesados, capacetes e máscaras de gás. Esta é a Primeira Guerra Mundial, a guerra das trincheiras em larga escala, e estas imagens devem ter causado muito mais impacto sobre um público que ainda se lembrava do conflito anterior.
As guerras continuam e continuam neste mundo escuro e desolador,  até que, finalmente, num terreno baldio sem vida, os dois últimos seres humanos confrontam-se, mas a batalha termina sem vencedor, os dois lados perdem, ambos os soldados morrem, suas identidades permanecem obscurecidas por suas máscaras de gás.

 
Embora não haja sangue visível, o segundo soldado convulsiona em dor e angústia. Seu último ato é levantar seu próprio rifle e atirar de volta, presumivelmente matando o primeiro atirador. Seguindo ordens? Hábito? Apenas por impulso? Independentemente disso, ele é mortalmente ferido, e afunda na lama, com sua mão nua apontando para o céu. Com um último espasmo, a mão afunda na lama. Fim.
Lembre-se, isto começou como um desenho animado com esquilos cantando canções de Natal.
 
 
Há um momento de silêncio surpreendentemente longo, mostrando um mundo totalmente vazio, em contraste com a violência anterior. Em seguida, a música recomeça, e as criaturas da floresta saem das suas tocas e encontram uma igreja em ruínas e uma bíblia.


A sábia coruja velha lê um trecho que diz: "Não matarás." Os comentários da coruja: "se parece com um tipo de livro de regras. Mas eu acho que os homens não prestaram muita atenção."

 
A coruja também lê: "Vós reconstruireis as antigas ruínas".

 
 
Inspirados, os animais agora colocados em roupas, e andando sobre as patas traseiras, constroem a sua própria civilização nos escombros da guerra humana, uma cidade chamada "Peaceville", o que nos leva de volta à família esquilo.


As crianças esquilo voltaram a dormir e o vovô esquilo as deixa em seu berço com um "Paz na terra, e boa vontade", mas não adiciona "para os homens", curiosamente.
 
Feito em 1939, com a perspectiva de que mais uma guerra sangrenta na Europa era quase uma certeza, esta foi uma apaixonada e confusa declaração de pacifismo para o público americano. Não poderia ter sido feita alguns anos mais tarde, quando os desenhos eram decididamente pró-guerra: o Pernalonga enfrentou um Hermann Goring que mais parecia um Hortelino Troca-Letras com sotaque alemão, e o Pato Donald mostrou o horror da vida sob o nazismo. Nenhum deles entretanto mostrou este tipo de apocalipse.
Esta estranha combinação de Ragnarok e fofura ficou em minha memória durante anos, embora eu só tenha visto uma única vez, até que o Tooncast revelou não ter sido isto apenas um sonho. Dadas as imagens perturbadoras do meio da história, não é de estranhar que não foi um desenho muito reprisado.
Parte de mim já sabia que a Evolução não funciona assim, mas aceitei a mensagem como licença poética. O ciclo de devastação no qual o mundo encontrava-se trouxe uma nova e estranha luz para os desenhos animados. Será que todas essas histórias realmente retratam um mundo no qual a humanidade já havia sido aniquilada? Se você cavar sob a casa do Mickey Mouse, você encontraria uma vala comum de esqueletos humanos?
A visão de um Armagedom, como a retratada em Paz na Terra, nunca foi descartada por mim, ainda mais que, sendo uma criança dos anos 80, vivi a Guerra Fria e, mesmo não entendendo nada do que acontecia, os riscos de uma nova guerra mundial eram claramente divulgados pelos telejornais que meu pai me obrigava a assistir.
A TV Educativa (TVE canal 2) me mostrou o quão grande e complexo é o universo, mas também como pequeno e frágil é nosso mundo, e que o nosso tempo neste planeta poderia ser finalizado por uma guerra nuclear. Pior ainda, um inverno nuclear poderia, teoricamente, acabar com toda a vida na Terra, sem esquilos ou mesmo baratas para reconstruir.

 
Se você foi um moleque nos anos 80, este tipo de ideia estava sempre no ar. Quando perguntava a minha mãe sobre isso, ela me respondia que se isso fosse acontecer, teria já acontecido. Apreciava o que ela dizia, mas isso não ajuda muito.
Eu sempre fui obcecado por táticas militares, armas de guerra e outras coisas semelhantes. E os anos 80 foram muito variáveis com relação a um desses meus "hobbies". Os quadrinhos dos GI Joe prometeram que a sede subterrânea da equipe dos seus soldados poderia sobreviver a um ataque nuclear, então, pelo menos, alguma coisa iria sobreviver e, presumivelmente, reconstruir.
 
Vendo agora Paz na Terra, como um adulto, as imagens e o seu entendimento apresentam-se de uma forma totalmente nova em minha mente. Enquanto as criaturinhas da floresta parecem ainda mais adoráveis, as cenas de guerra causam mais impacto.
Também descobri que há um remake. Boa Vontade para os Homens (1955, dirigido por William Hanna e Joseph Barbara, MGM) segue a mesma história como o original, embora com ratos em vez de esquilos, e um tema cristão ainda mais forte. A maior diferença é que a raça humana é exterminada através de destruição mútua assegurada por uma bomba nuclear, representada por duas explosões que se espalham sobre o planeta.
Embora atualizado para refletir a ameaça de uma aniquilação nuclear na Guerra Fria, Boa Vontade para os Homens não tem o mesmo impacto de um Paz na Terra. A destruição e morte do original horrorizavam precisamente porque desceram para um nível muito pessoal, físico, e agora passam a ter uma representação mais abstrata. Não havia nada comparável ao testemunhar dos dois últimos seres humanos assassinando um ao outro.
Vendo Boa Vontade para os Homens o que pensamos seria: os seres humanos eram tão falhos que, mesmo sem armas nucleares, mesmo sem líderes corruptos, acabaram por condenarem-se a extinção. Nesse sentido, filmes de ficção científica como O Planeta dos Macacos retratam o universo como trancado em um ciclo interminável de genocídio, escravidão, guerra e reconstrução.
 
Thundarr, o Bárbaro
A série animada Thundarr, o Bárbaro apresentava um mundo que veio após o nosso (embora a causa tenha sido um desastre natural, não a guerra), mas cheio de vida, aventura e coisas legais. Um conceito muito semelhante ao apresentado na série de quadrinhos de 1960, Kamandi: The Last Boy on Earth, do grande Jack Kirby, que contou com imagens espetaculares como a famosa Estátua da Liberdade na paisagem em ruínas.
Tão fantástico como Thundarr e sua laia eram, pelo menos, eles apresentaram a ideia de que se houvesse um apocalipse, haveria algum tipo de vida depois, o mundo seria transformado, mas não aniquilado. Do ponto de vista de uma criança, era uma espécie de conforto.
Quando a Guerra Fria terminou, eu ainda era muito criança, e isso não significou o fim do risco de estarmos caminhando para uma nova guerra. Mas uma parte do crescimento é aprender a não pensar sobre certas coisas.
As crianças de hoje enfrentam uma constante, a ameaça do terrorismo em primeiro plano. No entanto, isso não é o mesmo que perceber que, a qualquer momento, uma cadeia de eventos pode começar e literalmente acabar com a raça humana, se não com toda a vida na Terra. A ideia de uma extinção total era uma coisa pesada para lidar quando eu ainda estava lidando com a ideia da mortalidade individual.
Entrando na adolescência, li um livro para um trabalho escolar chamado Não se Esqueçam da Rosa, que contava o drama vivido por uma jovem japonesa muito bonita e inteligente, descendente dos sobreviventes do ataque com a bomba atômica lançada sobre Hiroshima. Este livro lançava uma luz sobre ambas as ideias da extinção total e da mortalidade individual das pessoas tão próximas a nós e de nós mesmos.

 
Paz na Terra foi feito quando a Primeira Guerra Mundial ainda estava viva na memória das pessoas, e apenas alguns meses antes da Segunda Guerra começar na Europa. É possível compreender a visão de quando os esquilos governarão a Terra como um apelo a esperança de que a próxima geração vá pensar sobre a destruição causada pela presente, e fazer melhor.
Após o fim da Guerra Fria, a mensagem de Paz na Terra é, na verdade, mais relevante, quando a guerra ocorre em um nível mais individual, e como a decisão de uma pessoa em matar ou não pode ter um impacto enorme.

São mais de 75 anos! E Paz na Terra continua relevante!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

PERFIL: QUEM É M. BISON?


Um dos vilões mais emblemáticos dos jogos de luta e um dos personagens mais carismáticos da saga Street Fighter, cercado por mistérios sobre sua origem e seu passado. Seu nome verdadeiro (o nome pelo qual era conhecido em seu corpo original) é desconhecido, sua idade é indeterminada (sabemos apenas que nasceu em 17 de Abril) assim como o seu local de nascimento, embora ele esteja relacionado a Tailândia pela localização de seus cenários em Street Fighter II e Street Fighter Zero 3. 

Não há muito a dizer sobre o seu poder, o Psycho Power, e a capacidade de reencarnar, transferindo a sua alma para diferentes corpos. De acordo com o que o próprio disse no final de Ryu em Street Fighter Zero 3, M. Bison tem uma alma eterna e necessita ter o corpo do lutador japonês para desenvolver plenamente seus poderes.
Há uma pequena história que relata que o líder da Shadaloo está vivo desde o começo do século XX, e assim permanece mudando a sua alma de corpo conforme a necessidade.

"Eu já tive muitos nomes, muitos rostos... E todos eles sempre estiveram relacionados ao terror."


M. Bison - Street Fighter Zero 3



Mas quem é realmente M. Bison? O líder da organização criminosa Shadaloo, traficante de drogas e de armas a nível global, responsável por sequestros e experimentação em seres humanos, recrutamento de mercenários para realizar trabalhos sujos, como matar qualquer um que se oponha a ele, desde figuras políticas a oficiais de segurança, e o domínio de forças militares e governamentais através de acordos corruptos
O Psycho Power controla o poder das almas corruptas e se alimenta de sentimentos e emoções negativas, especialmente o ódio. Isto garante ao seu usuário grandes poderes sobrenaturais, como levitação, teletransporte, hipnose, e ainda o torna virtualmente indestrutível. Seu estilo de luta é o Lerdrit, um tipo de Muay Thai praticado por membros do Exército Real Tailandês.

Primeiramente vamos colocar uma lupa em sua concepção e tentar encontrar possíveis conexões com dois dos personagens que mais influenciaram o chefe final de Street Fighter II: Yasunori Kato de Teito Monogatari e Washizaki de Riki-Oh.


Yasunori Kato

Teito Monogatari, o romance best-seller de Hiroshi Aramata publicado nas páginas da Kadokawa Shoten em meados dos anos 80, foi adaptado por vários mangakás e as capas dos romances foram feitas por vários artistas, como Yoshitaka Amano, famoso por seu trabalho com a franquia de vídeo games Final Fantasy. Entre as suas adaptações para o cinema com atores reais estão: Tokyo: The Last Megalopolis, Tokyo: The Last War e Teito Monogatari Gaiden. E ainda existem quatro OVAs de excelente qualidade intitulados Doomed Megalopolis. Há duas adaptações feitas para mangás, uma por Kamui Fujiwara e outra Yosuke Takahashi. Considerado um cult, Teito Monogatari, tanto a animação quanto o live action, é um marco do j-horror.

Teito Monogatari mangá
 
Yasunori Kato é um onmyodo (uma espécie de feiticeiro) que infiltrou-se no Exército Imperial Japonês alcançando o posto de tenente. Seus planos são a destruição da cidade de Tóquio e a ressurreição do espírito de Taira Masakado, um ex-samurai que comandara uma rebelião contra o Tribunal de Justiça Imperial no ano de 939, conquistando a antiga província de Shimotsuke, onde tornou-se governante absoluto até que, um ano depois, foi derrotado e morto pelas tropas comandadas por Fujiwara Hidesato.


É um descendente do povo Ainu (assim como a personagem Nakoruru do game Samurai Shodown da SNK), as tribos nativas que habitavam as ilhas japonesas antes da chegada da Corte Yamato. Ele é uma encarnação de uma maldição contra o império japonês (o povo Yamato). Também é comumente referido como "Majin", devido as suas incríveis habilidades sobre-humanas e imortalidade.
Yasunori Kato é a imagem de um autêntico tenente do Exército Imperial Japonêschapéu com um pentagrama de ouro (visto em muitos outros exércitos), jaqueta com duas estrelas no pescoço (para indicar a sua patente), calças, botas e um par de luvas brancas, enfeitadas com a estrela de cinco pontas (o "Seiman", símbolo do grande onmyoji Seimei Abe).
 
Com seus poderes de onmyodo, possui a habilidade de voar, criar campos de energia, invocar espíritos ou Shikigamis, reconstruir seu corpo caso este seja destruído, tem uma elevadíssima resistência física, e além disso tudo, pode manipular livremente a mente das pessoas.

Kyusaku Shimada como Yasunori Kato em
Tokyo: The Last Megalopolis
 
Quanto as suas habilidades de luta, normalmente utiliza uma espada curta chamada Wakizashi. Na versão do personagem nos OVAs, na qual seus poderes são mais exagerados em todos os sentidos, temos a impressão de que ele é invencível, imortal e que não há nada capaz de detê-lo. É fisicamente alto, com a pele pálida como a de um vampiro clássico, longe da imagem banal dos vampiros da atualidade.

 
O que personagens como M. Bison de Street Fighter, Brocken Jr de Kinnikuman e Ame no Shilew de One Piece tem em comum certamente é uma influência direta do personagem Yasunori Kato.
Brocken Jr, o lutador alemão neonazista de Kinnikuman, foi um dos heróis mais populares da sua série. Ele lutava inicialmente para vingar a morte de seu pai Brockeman, assassinado pelo lutador chinês Ramenman, e teve a sua redenção ao esquecer a vingança para lutar junto dos outros heróis e campeões da Terra.
A Capcom pegou emprestado alguns dos movimentos especiais de Brocken Jr para a concepção dos movimentos de M. Bison, como os seus saltos e ataques aéreos.

Veja Brocken Jr em ação aqui.


Washizaki

Riki-Oh é um mangá dos anos 80, escrito por Masahiko Takajo e ilustrado por Tetsuya Saruwatari. Parece ter sido lançado num momento em que existia uma concorrência feroz entre autores e artistas sobre quem criaria a história mais sangrenta e feroz. Considerado um "Hokuto no Ken genérico", explora mais abertamente do que seu antecessor temas como o messianismo e as religiões judaica e cristã. Alcançando o número de 12 volumes, nunca foi lançado fora do Japão. Foram produzidas duas muito boas adaptações para OVAs (assista-os aqui) que cobrem até o volume 5 do mangá, eliminando muitas cenas, situações, personagens e a fidelidade com a história original.


 
Outra curiosidade é uma adaptação para o cinema de Hong Kong com atores reais intitulada The Story of Ricky, com notoriedade por suas cenas hilariantemente patéticas e sangrentas. The Story of Ricky é considerado o segundo filme mais sangrento da história perdendo apenas para Kill Bill de Quentim Tarantino, sobretudo em seu volume 2.


Washizaki, um dos antagonistas do mangá Riki-Oh, era um sargento que lutou na Guerra do Golfo. Seu pelotão de 119 homens foi atacado por gases venenosos, e as condições desfavoráveis do clima implacável do deserto somadas aos efeitos do gás, levou Washizaki a decidir matar todos os seus soldados para não sofrerem até a morte. Como uma recordação desta experiência, ele mantém um jardim com 119 rosas em sua mansão onde vive com sua filha Mai.

 
Após a Guerra do Golfo, ele dedicou sua vida para servir a um líder religioso para implementar o "Plano de Deus", governando uma província com extrema crueldade.
Nesta província há uma prisão de alta segurança onde os prisioneiros recebem tratamento desumano. Se alguém quer deixar a prisão, deve se registrar como um lutador para lutar no subterrâneo, onde acontecem lutas violentas entre os presos, e caso você obtenha 10 vitórias consecutivas receberá a sua liberdade, uma derrota significa a morte. Essas lutas são organizados e testemunhadas por Washizaki, e também movimentam muitas apostas entre os expectadores. Também foi visto no mangá que a mesma arena de combate é o palco onde os rebeldes são devorados por leões.


Washizaki vive em Central, uma área privilegiada onde poucos podem viver e escapar das condições miseráveis. A Central tem duas usinas nucleares com poder suficiente para explodir a Terra. Ele é um dos executores do "Plano de Deus", que é o genocídio da raça humana, crendo que esta foi vítima de uma doença que lhes trás apenas sofrimento. Matar a raça humana será a cura para evitar mais dor, e aqueles que foram eleitos no "Plano de Deus" farão uma viagem através do espaço, "purificando" a sua consciência, libertados do pecado e assim poderão retornar a Terra para repovoa-la.

Ele é um grande lutador em combate corpo a corpo, e usa uma katana antiga feita de um meteorito metálico. Sua espada de fato não é algo saído da ficção, os militares do Exército Imperial Japonês utilizavam uma katana Shin Gunto durante a Segunda Guerra Mundial. 
É muito rápido e forte, em sua primeira luta com Riki-Oh, o derrotou facilmente e cortou pela metade um ciborgue com um único golpe. Ele também tem uma grande resistência, como demonstrado em sua segunda luta com Riki-Oh, quando o enfrentou com um braço amputado e com ferimentos causados por Nachi (irmão de Riki-Oh), e mesmo quando recebe um golpe que o deixa com suas vísceras expostas, ainda tem força para se levantar e manter-se em combate.

 
 
Ele aparece no segundo OVA, Riki-Oh: Child of Destruction, com seu desenho quase inalterado. E devido a muitos detalhes que foram removidos do mangá, aqui ele é um vilão mais simples e típico. Sua filha Mai não é mencionada, e nada se sabe sobre seu passado é revelado. A sua importância e peso no OVA nem se comparam com o mangá.


Kato ou Washizaki? Quem foi o personagem que mais influenciou a Capcom? Na minha opinião, à princípio podemos sugerir que o candidato número 1 para ser considerado como uma forte influência foi Washizaki, superando por uma ampla margem Yasunori Kato. Mas primeiro analisaremos M. Bison.

As poucas páginas que dispomos do artbook Complete File Street Fighter II são importantes para iniciar a análise. Encontramos esboços de alguns personagens e um de M. Bison quase finalizado, com exceção de alguns detalhes que aparecem no jogo. De acordo com relatórios japoneses, o mesmo artbook indica que o nome do personagem seria Eagle Head (Cabeça de Águia), e na Monthly Gamest October Special Issue  dedicada a Street Fighter II, diz-se que o nome Washizaki também estava na lista. Washi em japonês significa "águia".
No animê Street Fighter II Victory da década de 90, M. Bison aparece um pouco diferente de sua concepção original, assim como os demais personagens da série.

Street Fighter II Victory
 
Em vez da tradicional farda vermelha, ele veste uma da cor azul (Vai ver foi selecionado com botão de chute), e mantém consigo uma espécie de totem na forma de uma cabeça de águia feita de prata, que deveria estar de alguma forma ligada aos seus poderes. M. Bison muitas vezes parece conversar com aquela relíquia a qual ele chama de "meu parceiro".

 
Esta ótima animação foi a responsável por apresentar M. Bison a muitas pessoas que não conheciam os jogos da Capcom, e ainda inseriu no imaginário do público o personagem como um dos vilões mais impressionantes de todos os animês ao lado de figuras como Freeza, Makoto Shishio, Shinobu Sensui, Toguro, Naraku e Saga de Gêmeos.
E quem já estava familiarizado com o M. Bison através dos jogos conheceu melhor a sua personalidade (violento, cruel, megalomaníaco, com um sutil toque de humor negro, e "o terror das novinhas"). O animê também o define como um paranormal com poderes incomensuráveis, e a ideia da cabeça de águia provavelmente veio do nome original dos esboços iniciais de M. Bison.

Finalmente o nome foi escolhido (desconsiderando a bagunça que os norte-americanos fizeram com os nomes dos personagens do jogo): Vega, o nome original de M. Bison no Japão, é também o nome da maior estrela da constelação de Libra e uma das mais brilhantes no céu. Foi a Estrela Polar mais de 10 mil anos atrás e será novamente em mais 10 mil anos. Junto com as estrelas Altair e Deneb forma o Triângulo de Verão que conecta as constelações de Libra, Águia e Cisne. A estrela Vega teve muito significado em algumas culturas e até mesmo na mitologia chinesa inspirando uma história de amor entre Vega e Altair. É uma das estrelas favoritas dos astrólogos, e revela mais segredos cada vez que os avanços tecnológicos possibilitam.

Veja mais sobre a estrela Vega aqui.

Outra menção do nome de Vega é sobre uma religião de origem persa, o Zoroastrismo, a reformação do Mazdeísmo por Zarathushtra, conhecido pelos gregos como Zoroastro, que pregava a transcendência divina e uma moral de ação fundada sobre a certeza do triunfo da justiça. Vega é uma das estrelas que identifica a divindade Vanant, cujo nome significa "conquistador", um nome que também cabe ao líder da Shadaloo.


Já é uma história mundialmente conhecida que revela o motivo da troca de nomes entre M. Bison, Vega e Balrog, e agora os nomes japoneses parecem fazer muito mais sentido.
M. Bison ou Mike Bison é originalmente o boxeador, batizado em homenagem ao lutador real Mike Tyson. As fisionomias de ambos são idênticas, e o boxeador de Street Fighter ainda possui algumas frases que referenciam Tyson como "Vou arrancar a sua orelha com os meus dentes" em Street Fighter Zero 3. Para evitar processos e encrencas com o Mordedor de orelhas, a Capcom dos EUA decidiu trocar os nomes de três dos quatro chefes do jogo.
O boxeador M. Bison virou Balrog, que é o nome original do lutador espanhol de máscara e garras, que nós conhecemos como Vega aqui no ocidente.
O nome Balrog saiu do livro O Senhor dos Anéis, e o lutador espanhol que canta como um tirolês no final das lutas foi assim batizado para destacar o seu grande poder e violência, como o monstro de mesmo nome do livro de J. R. R. Tolkien. Mas curiosamente o nome Vega caiu como uma luva para os ocidentais, porque de fato parece um nome tipicamente espanhol.
E por fim o chefão Vega tornou-se M. Bison, chamado por alguns de Mister, Master ou Major Bison (embora ele não seja uma major e sim um general), um nome que não faz nenhum sentido se melhor analisarmos.



Inicialmente o cap de M. Bison teve uma estrela dourada de cinco pontas, e, embora o seu cenário esteja na Tailândia, dando a entender que era um nativo daquele país, ele não tem uma nacionalidade especificada em qualquer uma de suas bios, assim nos resta apenas especulações. 
Vendo o cap vermelho com a estrela poderíamos relacioná-lo com a bandeira do Vietnã estabelecida em 1955. 

Versões posteriores do lendário SF II foram acompanhadas de uma ilustração estrelada por Ryu e M. Bison, que trocou o pentagrama do seu cap por um crânio alado com um S marcado em sua fronte, e também no cinto de seu uniforme. É óbvio que o S é a inicial de Shadaloo, mas a influência pode ter vindo da Schutzstaffel, os comandos de elite nazista, que tinha duas runas Sig como emblema ou SS. 


 
A runa Sig no logotipo simboliza a "vitória" e é apenas uma modificação da runa Sowilo equivalente à letra S. Quanto ao crânio alado vemos outra influência da Schutzstaffel, que usavam em seu cap a Totenkopf (termo alemão para "caveira") e mais acima a Reichsadler ou Águia Imperial, o símbolo da Alemanha. A Águia Imperial recebeu várias modificações em sua história e, obviamente, os nazistas não quiseram fazer menos. Ela continua fazendo parte do escudo da Alemanha, mas modificada e batizada de Bundesadler ou Águia Federal.

 
O país onde M. Bison mais foi visto é a Tailândia, tristemente lembrada como o local do nascimento do ópio, a droga que causou uma guerra entre a China e o Reino Unido, devido ao seu contrabando. Foi necessária uma segunda guerra entre estes mesmos países para por um fim ao drama. A Tailândia é parte do Triângulo de Ouro junto com Laos, Vietnã e Birmânia, região do sudoeste da Ásia famosa por sua enorme produção e contrabando de ópio, como o Crescente Dourado composto pelo Afeganistão, Paquistão e Irã. Uma óbvia localidade para a Shadaloo assentar-se como um dos principais traficantes de drogas. Em Street Fighter Zero 2, os cenários de M. Bison encontram-se no Brasil e na Venezuela, é provável que ele tenha contatos com os governos da América Latina.




Semelhanças com Washizaki:

Ambos são fisicamente muito semelhantes. Mesmo que você abstraia os trajes militares, as semelhanças entre Washizaki e M. Bison não são perdidas, ao contrário de Kato que tornar-se cada vez mais distante.
Washizaki governa sua própria província, organiza torneios mortais de luta e tem um enorme exército. O mesmo pode ser dito de M. Bison, que tem um exército de mercenários e organizou o segundo torneio Street Fighter. 

Seu exército não teve muitas aparições, visto apenas no filme Street Fighter II: The Movie Animated, no final de Charlie Nash em Street Fighter Zero 2, em seu cenário no mesmo jogo e no final de Evil Ryu em SSF IV.

Washizaki tem súditos que trabalham para ele, como os Cavaleiros Negros, Umibouzu, e ciborgues que foram usados ​​para trabalhar na usina nuclear até a sua rebelião. M. Bison também tem seus súditos: Balrog, Vega, Sagat, e as Dolls. Não considero os Seth's porque Street Fighter IV não deve ser considerado como canônico, mas sim como um Dream Match. Pelo mesmo motivo desconsideraria a Juri, mas como ela estará em Street Fighter V, já pode ser considerada canônica para a história da franquia. E agora no mesmo jogo ainda temos F.A.N.G., entrando no lugar de Sagat que deixou sua vida de crimes com a Shadaloo como visto em seu final em Street Fighter IV. Então concluímos que a história deste jogo apresenta partes oficiais e não-oficiais para o universo dos lutadores de rua.


Dolls
Washizaki tem usinas operadas por técnicos e cientistas que criaram os ciborgues, como o Robotomi 560SEL-MK II, a partir de corpos humanos para resistir a radiação e as altas temperaturas dos núcleos das usinas nucleares. M. Bison também tem a sua própria arma de destruição, o Psycho Drive, e ciborgues e clones modificados pela bio-engenharia. O único cientista conhecido da Shadaloo é Senoh, original de Street Fighter II: The Movie Animated, que estava no comando da lavagem cerebral de Ryu como mostrado no final de M. Bison em Street Fighter Zero 2.

                                          

Por motivos diferentes, ambos lutaram contra os protagonistas de suas histórias e não poderiam matá-los por considerá-los valiosos para seus objetivos: Washizaki considerava Riki-Oh como uma chave para o "Plano de Deus", e M. Bison em um primeiro momento desejava transformar Ryu em uma arma-viva, um soldado perfeito à serviço da Shadaloo, e mais a frente revela que precisava do corpo do lutador como um novo hospedeiro para a sua alma.

 
Washizaki morre ante o poder da versão demoníaca de Nachi, e a M. Bison acontece o mesmo com Akuma (Será?). Não é muito importante, mas eu queria destacar: Nachi e Akuma viriam a ser as antíteses de Riki-Oh e Ryu.
Quando Riki-Oh pergunta a Washizaki porque o mantém vivo, ele cita Hitler para explicar o "Plano de Deus". Apesar de não ter ficado muito clara a ideologia de Washizaki, seus superiores podem ser considerados seguidores da ideologia nazista, como Aneyama que foi parte do Terceiro Reich. Nunca encontramos pistas que pudessem indicar M. Bison como um nazista, mas sem dúvida que a Capcom buscou aqui alguma inspiração, como visto em alguns artbooks, e há ainda a influência de Brockeman e Brocken Jr, personagens declaradamente nazistas em Kinnikuman.



Semelhanças com Yasunori Kato:

Kato é diferente de Washizaki e M. Bison, agindo sozinho e buscando a destruição de Tóquio, e seus poderes estão bem distantes das reais habilidades de Washizaki e, num primeiro momento, de M. Bison. 
O seu design não é uma criação original, mas uma adaptação de algo já existente, vestindo-se como um membro sênior do Exército Imperial Japonês.
M. Bison foi definitivamente criado para emular o personagem Washizaki de Riki-Oh, mas a sua relação com o personagem Kato é ainda mais interessante e intrigante.

É possível observar que M. Bison passou por uma grande evolução com o passar dos anos.
Nos jogos clássicos da série Street Fighter II, faltavam-lhe alguns movimentos que o caracterizaram nos jogos mais atuais, como o seu teletransporte. Além disso, o personagem também não tinha a capacidade de voar.
Estes movimentos (o voo e o teleporte) foram acrescentados mais tarde nos jogos, inspirados nos movimentos que M. Bison apresentou na animação Street Fighter II: The Movie Animated. A partir deste fantástico filme animado, M. Bison foi aproximando-se cada vez mais de Kato (e distanciando-se um pouco de Washizaki), imitando muitos dos poderes que dele eram característicos.
Uma curiosidade adicional são os posteres praticamente idênticos de Doomed Megalopolis e Street Fighter II.


Como já dito, não se sabe a verdadeira origem nem o nome do corpo original de M. Bison. Então vamos tentar analisar algumas das especulações sobre o seu nascimento.
A primeira seria a Tailândia, ou algum outro país do Sudeste Asiático. Os trajes utilizados por Bison estão muito próximos aos utilizados pelos generais dos exércitos destes países, talvez ao menos o seu corpo atual pertença a esta etnia. Poderíamos sugerir que ele possa ter nascido em alguma das regiões que formavam a antiga Pérsia, ou ainda, no caso dele não ter nascido como um asiático, poderia ter sido Europeu, sendo proveniente da Alemanha, devido associações ao nazismo, da Suíça, e ainda da Itália.

M. Bison, assim como Akuma, é mestre de uma versão corrompida de uma arte marcial. Do mesmo modo que Akuma domina o Satsui no Hadou, M. Bison domina o Psycho Power versão corrompida do Soul Power.
Conta-se que há muito tempo, M. Bison foi treinado na arte do Soul Power por seu mestre junto de outros dois discípulos. Uma guerra, porém, afetou o lar do mestre e seus pupilos, e M. Bison alistou-se no exército com a intenção de manipular aquele conflito. Ele assassinou o seu mestre e roubou os segredos da arte do Psycho Power, conhecidos apenas pelo ancião.

 
Com o Psycho Power, M. Bison tornou-se incrivelmente poderoso, e seu poder poderia crescer exponencialmente absorvendo emoções negativas como o ódio, isto pode ter alguma relação com os assassinatos do pai de Chun-Li e do amigo de Guile, Charlie Nash.
O conflito e o ódio de todas as pessoas que M. Bison prejudicou o tornam ainda mais poderoso. Mas para usar plenamente este poder, M. Bison precisou dividir a sua alma com a cigana italiana Rose, que aprendeu com o líder da Shadaloo o Soul Power e tornou-se uma de suas maiores opositoras.
Curioso associar (ainda que indiretamente) Bison a Rose, pertencente a um dos povos com uma das origens mais misteriosas, assim como Kato é relacionado aos ainus, outro dos povos cujas origens ainda são muito discutidas.

                                         


O Soul Power pode ter sido inspirado no Hamon de Jojo's Bizarre Adventure, e Rose é idêntica a personagem Lisa Lisa do mesmo mangá, utilizando inclusive um cachecol como arma.
Rose é de fato uma sábia vidente que não é tão sábia assim, uma vez que desconhecia a sua própria origem. Mas é ela quem tenta a todo custo guiar para o caminho do bem a Ryu, que é constantemente tentado por Akuma a entregar-se ao Satsui no Hadou.


"Abrace o caminho da luz ou serás devorado pela escuridão..."


Rose - Street Fighter Zero 3

Além das suas origens desconhecidas e com a evolução de seus poderes, M. Bison finalmente revela o seu último trunfo que herdou também de Yasunori Kato: a habilidade de transferir a sua alma para outros corpos, garantindo-lhe imortalidade.
M. Bison vê o Satsui no Hadou como a forma definitiva do Psycho Power, o que tornou Ryu o hospedeiro perfeito para a sua alma.

Crossover Sonic e Megaman 
Assim como Kato, que em Doomed Megalopolis escapa da morte possuindo o corpo de uma enfermeira no hospital, o corpo de Rose é possuído pelo espírito de M. Bison no final de Street Figther Zero 3 quando estamos jogando com a italiana.


M. Bison é um grande personagem, líder cruel e implacável vilão que construiu um império terrorista global. Seu Psycho Power alimenta o ódio de um mundo caído que apenas se esforça para construir a sua baixeza, e a única coisa que ele faz é tirar proveito desta situação. Como as sociedades continuam a cultivar o ódio, o militar de farda vermelha como o sangue permanecerá vivo. Ele nunca morrerá, continuando com o seu ciclo de morte e ressurreição. Ele revive de geração em geração, ainda mais insano e destrutivo. É um processo cumulativo.

Final de M. Bison - SSF II
Voltando as simbologias, M. Bison é um espírito transcendental, representando uma onda revolucionária que sempre retorna ainda mais violenta do que a anterior.
Até então, M. Bison continua com seus sonhos de conquistar o mundo e subjugar a raça humana, aquela que continua a lhe dar poder.