sábado, 21 de novembro de 2015

GOKU E SUPERMAN: DESCONSTRUINDO MITOS


Há uma divergência entre a ficção oriental e a ocidental na era moderna escondida sob as barreiras culturais. Nós todos gostamos de ser vencedores, nunca perdedores, e a fantasia se funde a realidade resultando em cenários ideológicos. 
Existem grandes diferenças entre a fantasia do Oriente e a do Ocidente, e nada poderia sugerir que sua dicotomia é intencional, mas o subproduto da história, guerra e colonialismo.
Quadrinhos de super-heróis na Era de Bronze e início da Era de Prata demonstraram a sua paixão pela ciência, com personagens de enorme força e coragem que se beneficiaram das maravilhas do engenho e progresso norte-americano. 


A Marvel Comics em particular defendia a superioridade da radiação gama, a terapia gênica, mutagênicos e a evolução através da seleção natural das espécies. Quadrinhos de super-heróis desta variedade são contos sobre moralidade e ficção científica com a intenção de entreter, mas que também provocam admiração. Os X-Men eram heróis na clandestinidade, perseguidos pelos próprios a quem juraram proteger, e o Capitão América era um homem em desacordo com a deterioração contínua do mundo em torno dele, uma relíquia de uma era esquecida de supremacia moral e de solidariedade. Suas habilidades levantam discussões sobre o que significa ser humano, os limites da evolução humana, e o tratamento ético dado às comunidades marginais durante a Guerra Fria, em que a conformidade foi subliminarmente imposta sob a ameaça de ser "anti-americano".


O super-herói sempre foi uma ideia conservadora. Ele é um cidadão que luta pelo bem comum, nunca por privilégios particulares, defende a propriedade privada, empunha as suas próprias armas, e ainda mantém a sua identidade secreta.
Mas super-heróis nos ensinam sobre moralidade, não política!

Desde a Segunda Guerra Mundial, a relação entre ficção científica e fantasia tem sido marcadamente diferente. Na esteira de Hiroshima e Nagasaki, milhões foram afetados negativamente pelo maior avanço na história da humanidade: o aproveitamento do átomo. A partir das cinzas da guerra nuclear nasceu Godzilla, o monstro cartaz do cinema japonês, um pária e uma força imparável aterrorizando o Japão como resultado da radiação que o criou. 
Ao contrário dos EUA, o Japão não tem super-heróis como as gigantes DC e Marvel, ou uma cultura de quadrinhos defendendo seu heroísmo. Em vez disso, o mangá foi desenvolvido em conjunto com a ocupação do pós-guerra e enraizado nas tradições etnocêntricas, além dos momentos ocasionais de sincretismo com a cultura pop ocidental. 


Mas, enquanto quadrinhos norte-americanos criaram o Superman, o arquétipo primordial para todos os super-heróis, não havia nenhuma figura tão unificadora em quadrinhos japoneses até que Akira Toriyama criou Son Goku, o principal protagonista de Dragon Ball e Dragon Ball Z.

Há uma marcada diferença na concepção de um super-herói da DC e da Marvel. Enquanto a Marvel tem uma narrativa mais científica, a DC buscou maiores inspirações nos mitos clássicos.
O super-herói americano clássico tem uma grande influência do mito do messias judaico. Os criadores dos quadrinhos da Era de Ouro eram essencialmente judeus imigrantes ou filhos de judeus. Os super-heróis foram criados no final da década de 1930, e muitos defendem que o seu surgimento está diretamente relacionado a subida dos nazistas ao poder na Alemanha. O anti-semitismo tornou-se uma ameaça real e os judeus ansiavam por um salvador.
Praticamente todos os povos do mundo tem mitos relacionados a um messias, um homem forte que já esteve entre nós, ou que ainda virá, ou que poderá retornar para proteger e salvar o seu povo. Estas questões fazem parte dos anseios inconscientes dos povos de diversas culturas.

Jerry Siegel e Joe Shuster
O Superman foi criado por Joe Shuster e Jerry Siegel, ambos filhos de imigrantes judeus. O seu super-herói representava perfeitamente os anseios do povo judeu em meio a Segunda Guerra Mundial, o Superman é como Moisés, trajando um manto vermelho e surgindo para guiar o seu povo para uma era de paz e liberdade.
Além disso, o Superman é um alienígena vivendo em meio aos terráqueos. Este também representava o sentimento dos judeus imigrantes, necessitados de se adaptaram a uma cultura tão distinta quanto a norte-americana.


A origem do Superman foi um processo longo e demorado. Jerry Siegel era um fã de ficção científica, e inspirou-se também no homem do futuro idealizado por Friedrich Nietzsche, o Ubermensch, que é variadamente traduzido como "super-homem". Este Ubermensch transcenderia os valores cristãos para criar a sua própria moralidade. Siegel escreveu a história The Reign of the Superman que contava como este "Super-homem" empenhava-se na dominação do mundo. Seu amigo Joe Shuster ilustrou a história.

Ao longo dos próximos cinco anos, Siegel e Shuster retrabalharam o Superman transformando-o em um herói. Além das figuras bíblicas como Moisés e Sansão, os jovens buscaram inspiração nas mitologias mais clássicas como Hércules, e em personagens fictícios como Doc Savage e Buck Rogers.

Harold Lloyd
Como cinéfilos ávidos, Siegel e Shuster fizeram o Superman ter a fisionomia do ator Douglas Fairbanks. Seu alter ego Clark Kent foi modelado a partir de Harold Lloyd.
O astro do cinema Harold Lloyd fez a sua carreira mesclando um olhar enganosamente manso com força e capacidade atléticas invejáveis.

Quando falamos sobre Clark Kent, é impossível não lembrar do impressionante monólogo do personagem do cinema Bill, magistralmente interpretado por David Carradine em Kill Bill.
Embora sua presença não seja muito grande no Vol. 1 de Kill Bill, no Vol. 2 Tarantino nos presenteia com os longos monólogos de Bill sobre a vida, a morte e o Superman, tocados com quantidades apropriadas de violência e emoção:


“Todo mito de super-herói tem o herói e seu alter ego. Batman é Bruce Wayne. O Homem-Aranha é Peter Parker, quando acorda pela manhã, ele é Peter Parker. Ele precisa por um uniforme pra virar o Homem-Aranha.

E nesse quesito o Super-Homem se diferencia dos demais. O Super-Homem não virou Super-Homem, ele nasceu o Super-Homem. Quando ele acorda de manhã, ele é o Super-Homem. O alter ego dele é o Clark Kent. Seu uniforme, com o “S” vermelho é o cobertor no qual os Kent enrolaram o bebê quando o acharam, é a roupa dele. O que Kent usa, os óculos, o terno, é um disfarce que o Super-Homem usa para se passar por um de nós. Clark Kent é como o Super-Homem nos vê. E quais são as características de Clark Kent? Ele é fraco, é inseguro e covarde. Clark Kent é uma crítica do Super-Homem à toda raça humana.”

Bill (David Carradine) - Kill Bill Vol. 2


Akira Toriyama
Para a criação de Son Goku, o mangaká Akira Toriyama buscou inspiração nas mitologias mais populares ao povo asiático.
Son Goku é basicamente como os personagens Sun Wukong e o Santo Louco do conto chinês Jornada ao Oeste, conhecido no Japão como Saiyuki. Do primeiro, Son Goku tem a sua maior inspiração, ele é um homem-macaco, voa em uma Nuvem Dourada e porta um bastão mágico; e do segundo herdou parte da sua personalidade, um pacifista que vê todas as vidas como valiosas, independente do caráter das pessoas, acreditando estar, assim como todos os povos viventes do universo, sendo guiado por forças superiores.

Sun Wukong/Son Goku
Jornada ao Oeste é uma obra representativa de todo um povo com o envolvimento de diversos criadores, como o romancista e poeta Wu Cheng'en, durante a Dinastia Ming. A este respeito, pode ser comparado com a Ilíada e a Odisseia, épico grego tradicionalmente atribuído a Homero.

Este trabalho não consiste apenas em ficção com fundo mitológico e religioso sobre uma importante peregrinação de um monge budista a Índia, impulsionado pela busca dos textos budistas originais escritos em sânscrito e criados em várias adaptações. Mas os seus primeiros capítulos cobrem o nascimento do macaco travesso, os seus esforços para alcançar a imortalidade, suas travessuras no Céu, seu confronto com o exército celestial, e sua derrota miserável frente ao poder de Buddha, que termina por confina-lo na Montanha das Cinco Fases por vários séculos. Até que encontra uma chance de redenção auxiliando o monge Genzo Sanzo em sua missão espiritual.

As artes marciais estão muito presentes na concepção do protagonista de Dragon Ball.
Goku vive literalmente em função das lutas, ele busca sempre se aperfeiçoar e aumentar o seu poder, as artes marciais são o seu caminho para a iluminação.
O cinema chinês de artes marciais clássico foi a inspiração definitiva para Akira Toriyama criar Dragon Ball. Todo este universo presente em Dragon Ball deve a sua existência a genialidade de Bruce Lee.

Bruce Lee, Enter the Dragon
Considerado o maior artista marcial de todos os tempos e reverenciado por milhares de fãs no mundo inteiro, Bruce Lee revolucionou os filmes do gênero artes marciais. Akira Toriyama pegou emprestadas várias ideias dos filmes de Lee para homenagear o seu artista marcial favorito.
Toriyama também é um grande cinéfilo. E isto é facilmente perceptível principalmente em Dragon Ball, em sua primeira fase, onde as cenas de luta são muito bem detalhadas, seguindo um estilo quase cinematográfico.


Operação Dragão (Enter the Dragon) é um filme fantástico, lançado três semanas após a morte de Bruce Lee, e tornou-se uma referência para os filmes que viriam, e foi provavelmente a maior influência do mangá Shonen mais famoso do mundo.
Este foi o que introduziu ao ocidente a ideia de um torneio de luta com combates reais entre os melhores lutadores do mundo. Depois dele vários filmes seguiram a ideia. Esta foi a inspiração definitiva para Dragon Ball e o seu Tenkaichi Budoukai!

O Jogo da Morte (Game of Death) foi o filme de Bruce Lee que inspirou a luta de Goku na Torre dos Músculos durante a saga Red Ribbon. No filme de Lee, a Torre dos Músculos é uma construção de cinco andares, com a presença de um lutador em cada andar, sendo que no último encontraria o chefe lutador final.

Sargento Metálico X Exterminador do Futuro (Arnold Schwarzenegger)
Em Dragon Ball há diversas referências ao dito cinema brucutu ocidental dos anos de 1980 e ao cinema chinês de artes marciais.
Tao Pai Pai, o famoso assassino de aluguel contratado pelo exército Red Ribbon, foi inspirado no personagem Betty, interpretado pelo ator Fei Lung, no filme Tiger and Crane Fist.
Ambos peritos em artes marciais, dotados de força sobre-humana e sem o mínimo de misericórdia. Na história do filme há uma rivalidade entre duas escolas de artes marciais, como o conflito entre o mestre Kame e o mestre Tsuru (irmão de Tao Pai Pai).
Betty mata o mestre da escola rival, e o herói (Lou Chen Hui) busca vingar-se por seu mestre. Ele perde a primeira luta, mas após muito treino consegue vencê-lo. Do mesmo modo que foi a luta de Goku contra Tao Pai Pai para vingar seu amigo, o índio Bora.

O estilo de luta predominante em Dragon Ball é o kung fu, e no decorrer da série os personagens desenvolvem um estilo próprio, lutando de maneira diferente de adversário para adversário, lembrando o Jeet Kune Do criado por Bruce Lee:


"Esvazie a sua mente... Não se prenda a formas ou modelos; seja como a água... Você coloca água em um copo, ela torna-se o copo, em uma garrafa e ela torna-se a garrafa.
A água pode fluir ou colidir... Seja a água, meu amigo!"

Bruce Lee

A filosofia de Bruce era de ser como a água e adaptar-se ao inimigo, sem ter um estilo definido.

Do cinema oriental de artes marciais, outro grande astro do gênero que definitivamente influenciou a obra de Akira Toriyama foi Jackie Chan. Muito da personalidade, do estilo das lutas e da irreverência dos filmes do "Homem que não precisa de dublês" estão presentes em Son Goku. 
The Drunken Master foi o filme favorito de Toriyama, e além disso Jackie Chan é diretamente homenageado com a identidade secreta do Mestre Mutenroshi, Jackie Chun.

Samaritano, Astro City
O Superman é um símbolo máximo da cultura pop do ocidente. Na própria mídia das histórias em quadrinhos encontramos diversos personagens que simplesmente não existiriam sem o Superman.
A rival da casa do Superman, a Marvel Comics, por exemplo criou diversos personagens inspirados no Homem de Aço, dentre os quais podemos citar: O Gladiador (guerreiro alienígena da raça dos Kree), Hyperion (alienígena com história de origem e poderes idênticos aos do Superman, e integrante do Esquadrão Supremo), Sentinela (Superman esquizofrênico com o poder de um milhão de sóis explodindo, e provavelmente o personagem mais poderoso da Marvel), e ainda Miracleman, Blue Marvel, dentre outros.
Dentro da própria DC Comics, temos o Shazam Capitão Marvel (um dos mais poderosos personagens da casa e muitas vezes relegado a um simples "Superman mágico"), Ícone, Mr. Majestic, Ajax, dentre outros.
E o meu "spin-off" preferido do Superman: O Samaritano de Astro City, publicado inicialmente na Image Comics em 1995. O Samaritano é um herói preocupado em salvar a tudo e a todos, mas que ainda cultiva os sonhos e os desejos de um homem comum.

Son Gohan, pai adotivo de Goku
A história de Goku seguiu um caminho diferente. Goku não foi criado para ser um Superman, ele tornou-se um.
Son Goku, que já nasceu de uma mitologia riquíssima, teria existido de qualquer forma. Podemos sugerir que Goku tornou-se um Superman por um "acidente", já que Akira Toriyama não tinha a intenção de criar Dragon Ball Z quando começou a trabalhar com o personagem.

Antes de Goku, um personagem japonês que poderia ser equiparado ao Superman seria o Astro Boy de Osamu Tezuka.
O Astro Boy é um garoto-robô construído pelo dr. Tenma para substituir o seu filho Tobio morto em um acidente, e assim como o Superman, possui super-força, a capacidade de voar, e jurou proteger o mundo que o acolheu, mesmo sentindo-se tão deslocado e isolado de tudo e de todos.

Jonathan e Martha Kent, pais adotivos do Superman
Como o Superman, Goku é amplamente reconhecido como uma figura da cultura pop no Japão, aparecendo em comerciais e programas de televisão, bem como é uma influência para artistas ao redor do mundo. Diversos protagonistas dos mangás do estilo Battle Shonen que surgiram depois dele emulam um pouco do estilo do saiyajin criado na Terra. 
Suas histórias de origem são quase idênticas. Superman e Goku são ambos os "únicos sobreviventes" da sua raça (isto é, até que eles descobrem antagonistas que também sobreviveram), e passam a viver entre os humanos na Terra.

A saga dos saiyajins, a primeira fase de Dragon Ball Z, parece ser inspirada pela clássica fase das histórias do Superman em que confronta o trio de criminosos kriptonianos fugitivos da Zona Fantasma. Também são três os saiyajins sobreviventes da destruição do planeta Vegeta.

Raditz é o primeiro saiyajin antagonista a chegar a Terra, ele é o irmão mais velho de Goku e revela a verdadeira origem do herói. Raditz aparece como a escuridão do passado surgindo para revelar os pecados de sua família, e no processo rapta Gohan, o filho de Goku, para forçá-lo a cumprir a missão para a qual fora designado desde seu nascimento: exterminar toda a raça humana. Raditz tem pouca complexidade além do retrato clássico de um vilão rosnando superioridade. Apesar de sua importância, Radtiz não chega a ser uma Faora, uma das mulheres mais mortíferas da DC.
Nappa, ocupando o posto do criminoso kriptoniano Quex-ul, é essencialmente o Golias da mitologia cristã. Ele é o responsável pela maior parte das mortes e sofrimentos quando da sua chegada a Terra junto de um dos personagens mais queridos da série, Vegeta.
O príncipe Vegeta, o General Zod de DBZ, é o anti-Goku e o antagonista principal da saga Saiyajin. Quando Goku é compassivo e alheio, Vegeta é frio, calculista e egoísta. Vegeta vê a fraqueza como a maior falha, até em si mesmo. Nascido da nobreza, teve todas as oportunidades para treinar e subir para a grandeza com plena consciência de seus poderes e suas origens. Vegeta é como Goku, na busca de atingir a perfeição marcial, e ele representa tudo o que Goku e Gohan poderiam ter sido - um grande príncipe do universo conquistando tudo para a glória e as riquezas.

Quando Dragon Ball Z chegou a América, a equipe que adaptou a sua versão para o inglês nos Estados Unidos ficou muito preocupada porque Son Goku poderia tornar-se uma má influência às crianças (?). Para os padrões dos norte-americanos, Son Goku não parecia um super-herói, mas um lutador violento e egoísta.
Qual seria a solução para o problema? Transformar Goku no Superman!
A versão norte-americana acrescentou elementos a mitologia de Goku, transformando por exemplo o seu pai Bardock em um respeitável cientista do mesmo modo que também é Jor-El, o pai do Superman.
E para complicar ainda mais, há o célebre momento em que Goku transforma-se em Super Saiyajin pela primeira vez, ao ter o seu melhor amigo Kuririn assassinado por Freeza.
Neste momento Goku diz uma frase simplesmente épica, mas que não combina em nada com a sua real personalidade:


"Você pode destruir planetas, mas nunca será capaz de destruir o que eu sou.
Eu sou a esperança do universo, eu sou a resposta para todas as coisas vivas que clamam por paz, eu sou o protetor dos inocentes, eu sou a luz em meio a escuridão...

Eu sou a verdade."

Son Goku

Na dublagem norte-americana, Goku declara a Freeza ser literalmente o deus de tudo o que há no universo!

Curioso também é que com o passar dos anos, foram acrescentados detalhes a história de Goku aproximando-o mais de sua contra-parte ocidental.
Conhecemos Gine a bela mãe de Goku, em uma história de Jako, o Patrulheiro das Galáxias, mangá de autoria de Akira Toriyama. E nesta história, Dragon Ball Minus, os próprios Bardock e Gine deixam o recém-nascido Goku em uma pequena nave espacial que o enviará em segurança a Terra.
O que era comum nos quadrinhos parece estar contaminando os mangás mais longos, a mudança drástica na origem de personagens.
Bardock em sua concepção original era um assassino frio, mas um guerreiro honrado e que respeitava profundamente seus companheiros, como todo o saiyajin deveria ser. Ele era atormentado por terríveis alucinações de visões futuras que revelavam o extermínio da sua raça, lutou até o fim das suas forças contra Freeza, e morreu orgulhoso do filho que nem chegou a conhecer, certo das façanhas notáveis que um dia ele realizaria.

Na tradição de sua concepção, Goku persegue princípios Zen de viver em relação com a natureza. Sua maior arma, a Genki Dama, é a combinação das forças vitais de todo o universo. Uma espécie de bomba quântica, a Genki Dama destrói apenas aquilo que é mal e representa o principal tema de Dragon Ball e Dragon Ball Z: a virtude sempre triunfa sobre a maldade. Também enfatiza as ações de Goku em harmonia com as pessoas da Terra, que prossegue a iluminação através das artes marciais. A transformação de Super Saiyajin representa o culminar de Goku ao atingir o Nirvana. 
O propósito de Superman na DC, por outro lado, é relegado a um arquétipo. Ele é o centro moral da DC. As pessoas determinam o que é certo e errado baseadas no personagem de Superman. A diferença cultural que se manifesta em Goku é a sua natureza ingênua em sempre escolher fazer o que é certo e ético. Ele é clemente e gentil com alguém que ele conhece, mas, ao contrário do Superman, ele pode levar vidas para preservar outras. 


Diferente do Superman (na maioria das iterações), Goku é um migrante interestelar que se sente em paz com quem ele é, onde ele está, e com o papel que tem abraçado como um protetor da Terra. É ainda conhecido por usar seus poderes na frente de outros terráqueos, mas intimamente vive na solidão e contemplação, como o seu homólogo americano Superman, um lavrador do Meio-Oeste. 
Goku não tem um alter-ego, o Superman esconde-se na figura do modesto jornalista Clark Kent. Sem uma identidade secreta, Goku não tem necessidade de sentir-se separado de seus entes queridos. Então, ele forma uma família sem culpa e demonstra um profundo amor por sua esposa e filhos.

O meio cultural do universo Dragon Ball de Toriyama é uma alegoria para o que é conhecido como Budismo da Terra Pura, onde o caos do universo é justaposto contra a vida após a morte que Goku tão frequentemente entra ao morrer. 
Como nos quadrinhos de super-heróis americanos, Goku verdadeiramente nunca "morre", mas entra em um novo reino onde ele pode atingir a iluminação através de seu treinamento em artes marciais com as divindades regionais que supervisionam sua parte do cosmos. 


A cosmologia do mundo de Goku é intrigante na medida em que oferece estados alternativos de ser. Na verdade, como um análogo do Superman, Goku é capaz de experimentar sua cosmologia muito mais intimamente. O Superman de Grant Morrison se assemelha mais a Goku como caracteristicamente paternal e envolvido com o universo em um nível físico, íntimo, mas ele, como outras iterações do seu personagem, experimenta tensão com aqueles que jurou proteger.

Os saiyajins são uma raça bárbara, subjugada, e em última análise, destruída por seu cruel mestre Freeza, um senhor da guerra galáctica que escraviza exércitos mercenários para conquistar planetas e incorporá-los ao seu império. Goku, que é um representante de uma raça sanguinária dominadora aniquilada por Freeza, muito parecido com o conto do faraó que tentou eliminar a nação judaica florescente (vendo os judeus como uma ameaça ao seu império), torna-se um símbolo da revanche para os saiyajins. 
Ao matar Freeza, ele recupera a dignidade de seu povo. Superman, de quem Goku é derivado, nunca realizou feito semelhante em seu universo DC. Na fantástica animação para a TV, Liga da Justiça, o Superman emancipa um planeta do ditador-caudilho Mongul, mas este é um feito insignificante em comparação com a grandiosa Space Opera que Goku participa, na qual ele encontra seu passado e exige o julgamento sobre Freeza. 
Na esteira dos quadrinhos de super-herói, Goku preenche o vácuo que o mangá japonês tinha reservado para uma figura como o Superman.

Ubuu, reencarnação de Majin Boo, o demônio mais forte
do universo e maior inimigo de Goku, agora seu discípulo.
Enquanto a finalidade da ficção científica é buscar a ética da promoção humana, ela também contempla a insuficiência inata para atender tais qualificações. A presença de Goku em um universo cheio de seres exponencialmente maiores argumenta a prova de que um indivíduo pode estar diante de tempo, espaço, e criatura, e enfrentá-los corajosamente apesar de sua insignificância. 
Enquanto a percepção ocidental de Dragon Ball Z está principalmente associada com o absurdo e a extravagância, não é esta a verdade por trás dos encontros de Goku com seres de grande poder. Ele buscou sempre se aperfeiçoar e ainda contou com a cooperação de outros guerreiros poderosos, estes representam alguns dos valores mais identificáveis com a sociedade japonesa. Goku venceu Majin Boo, mas terminou a série ainda inferior ao seu maior inimigo. Então ele alegremente aguardou que o demônio retorna-se, reencarnando em um criança tão pura quanto a que ele foi um dia, para que pudessem continuar a sua luta.
Goku, por pura dominância, enfrenta esses desafios com a mesma alegria que tinha no início do mangá. O Japão prevê o Superman como um salvador de outro mundo conectado espiritualmente com a Terra e moralmente obrigado a levar vidas para proteger os inocentes. Como um salvador, por outro lado, Goku não alcança a imortalidade do Superman. 
Embora o Superman ainda não tenha realmente "morrido", Goku morreu várias vezes. A este respeito Superman ainda representa algo além do que é Goku. A história do Superman é um conto sobre um deus vivendo entre os mortais, enquanto a história de Goku é um conto dionísico de um homem capaz, com aspirações tremendas, um homem que tornou-se deus.

2 comentários:

  1. Ótimo artigo.

    Realmente, Dragon Ball (não só ele, mas como muitos animes) são mal interpretados devido a suas cenas de luta e violência, como se nós (os Ocidentais) não tivéssemos criado coisas mais violentas.

    É como o Androide 16 disse: não é nenhum crime lutar pela justiça, e há pessoas más (tanto na ficção como na realidade) que não serão detidas com palavras. Não existe vitória sem luta.

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    1. Valeu por comentar!
      Vai ressuscitar o seu blog?

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