segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

AVATAR KORRA, ANARQUIA E INJUSTIÇAS HISTÓRICAS

 
Avatar: The Last Airbender e Avatar: The Legend of Korra são animações espetaculares, duas das maiores surpresas que tive nestes meus 32 anos de vida (completados hoje!).
Das duas versões da animação, a minha favorita é The Legend of Korra, o que deve causar estranheza para muitos leitores. Afinal, a série original tinha personagens e enredos muito mais cativantes.
Mas por outro lado, The Legend of Korra tem um roteiro que faz mais o meu gosto: conflitos de valores e posicionamentos políticos. Sem falar que os vilões desta fase são bem mais interessantes e profundos. Só acho Korra um pouco politicamente correta demais, mas tudo bem.
 
A melhor temporada desta série é certamente a terceira, chamada Change. Teve um desenvolvimento surpreende de roteiros e personagens, tudo evoluiu para melhor, e isso depois de uma primeira temporada que começou bem, mas teve um final que deixou muito a desejar, e uma segunda temporada bem decepcionante.
Quem não desistiu de Korra depois da segunda temporada se deu muito bem. E eu duvido que ainda haja alguém que não a assistiu, e se este for o seu caso... que vergonha.
 
O roteiro de Change tem uma guinada impressionante a partir do episódio 9, The Stakeout, quando a Avatar Korra encontrava com seu inimigo Zaheer, no Mundo Espiritual, para uma conversa franca. E aqui começam a serem abordados os temas anarquistas presentes no desenho.
 
Zaheer divulga a Korra que a Lótus Vermelha, da qual ele e seus amigos fazem parte, é uma sociedade secreta "dedicada a restaurar a liberdade para o mundo" e que era "o que a Lótus Branca deveria ter sido."
Para quem não sabe, a Ordem da Lótus Branca foi formada como uma sociedade secreta para receber e compartilhar conhecimento, transcendendo as fronteiras nacionais e políticas. Seus membros treinaram Aang, Zuko, Katara e Sokka, e ajudaram a parar a Nação do Fogo e a sua busca pela conquista do mundo.
 
 
Zaheer explica que, após a Guerra dos Cem Anos, os membros da Lótus Branca saíram de seu esconderijo e passaram a apoiar publicamente ao Avatar como "guarda-costas" glorificados que serviam à nações corruptas. A Lótus Vermelha, liderada por Xai Bau, surgiu a partir da Lótus Branca.
 
Ele menciona que trazer os espíritos de volta, feito realizado na segunda temporada pelo "Dark Avatar" Unalaq, tio de Korra e também membro da Lótus Vermelha, foi apenas o começo. E vai mais longe com a noção de que "a idéia de ter nações e governos é tão tola quanto manter os reinos humanos e espirituais separados."
 
E Zaheer ainda apela com Korra, dizendo: "Você teve que lidar com um presidente imbecil e uma rainha tirânica. Você não acha que o mundo seria melhor se os líderes como eles foram eliminados?" 
Korra declara que ela não pode concordar com as escolhas desses líderes, mas que não acredita que se livrar dos líderes mundiais vai fazer algum bem, e que não é motivo por si só para fazer isso.
 
Zaheer continua com seus exemplos de líderes corruptos, citando como a Nação do Fogo atacou os Nômades do Ar por causa de seu governante egoísta. E então ele faz a citação mais anarquista até então nunca dita na história de Avatar: The Legend of Korra:
 
 
Korra ressalta que isso não traria equilíbrio, mas lançaria o mundo no caos. Zaheer responde com: "A ordem natural é a desordem."
 
"Um novo mundo não pode existir sem primeiro a destruição do velho." Ele revela que esta citação foi proferida por ninguém menos que o Guru Laghima, um mestre Dobrador de Ar. E isso realmente me faz lembrar de Winter Solstice (1) : The Spirit World, episódio 7 da primeira temporada de Avatar: The Last Airbender, quando Aang descobre que sem o incêndio da velha floresta, as novas sementes não poderiam brotar.
 
Você acha que Zaheer está tomando esta citação fora de contexto? Ou havia na verdade um Dobrador de Ar anarquista? 
Pode ser que sim, mas é bem provável que não. A nossa história está cheia de exemplos de apropriação de discursos para defender interesses particulares. Exemplificando: São Thomas More escreveu "Utopia", inspirado pelos escritos das viagens do navegador Américo Vespúcio, que nada mais era do que uma crítica ácida ao "O Príncipe", de Nicolau Maquiavel. Mas os escritos do mártir da Igreja acabaram sendo apropriados por comunistas e anarquistas que também tomaram para si a suposta bandeira da defesa do fraco e o combate à pobreza.
  
Por outro lado, na história da humanidade também temos visto muitos grupos que formam facções após divergências sobre autoridade, práticas, etc. A propósito Zaheer descreve as coisas apenas do seu lado da história, mas eu não culpo o seu ressentimento em relação à Lótus Branca. Era a missão desta ordem preservar o conhecimento antigo, mas se eles a mudaram para apenas servir ao Avatar, as razões para a sua formação em primeiro lugar são perdidas. No episódio 8 da terceira temporada da série original, Winter Solstice (2): Avatar Roku, aprendemos que os Sábios já serviram ao Avatar, mas dentro dos períodos de guerra, eles juraram sua fidelidade ao Senhor do Fogo. Quando a organização se esquece do propósito para a sua existência, ela pode facilmente cair numa ladeira escorregadia.
 
Enquanto nós podemos esperar que nunca existirá Avatar mau, também não seria ingênuo acreditar que isso nunca poderia acontecer? Será que os membros da Lótus Branca seriam capazes de perceber mesmo com a sua lealdade cega?
 
Eu só não entendo como o sonho da Lótus Vermelha de unir o Mundo Espiritual e o Mundo real tem relação com a derrubada de governos corruptos. Já havia este argumento dentro da Lótus Branca? Ao dizer que o Avatar servia às nações corruptas, ele parecia estar insinuando que antes da divisão alguns membros dentro desta ordem já partilhavam desta ideia.
 
Detalhe legal de ambas as séries de Avatar é que suas histórias e personagens nem sempre são tão preto no branco como na maioria dos desenhos animados. Korra percebeu que Unalaq estava certo até certo ponto ao dizer que não havia razão para os espíritos e os mortais serem separados uns dos outros. E agora que estes dois reinos não estão completamente separados um do outro, a Lótus Vermelha está interessada em combater o Estado.
 
Nos episódios 3 e 4 da terceira temporada de Legend of Korra, a jovem Avatar sentiu que a rainha do reino da Terra não tinha o direito de tratar seus cidadãos da forma fria e autoritária que tratava, mas Bumi retrucou que ela tem o direito, já que é a Rainha da Terra, a governante de Ba Sing Se. No entanto, ninguém questionava por que ainda é dada a uma pessoa tão cruel quanto aquela mulher a autoridade para governar sobre milhares de civis. Como podemos ver, infelizmente a tirania é facilmente alcançável nesta forma de governo. Onde está a democracia?
E a democracia de Republic City? Zaheer não deixa de mencionar o presidente daquela terra, chamando-o de "imbecil", o que para um líder não é muito melhor do que ser chamado de "tirânico". Mesmo quando eleitos (ou assim podemos presumir), líderes de um povo não conseguem governar de forma inteligente. 
 
O que filósofos como Platão tem a nos dizer sobre as deficiências da democracia? "Vamos apenas nos livrar dos maus líderes!" O problema é a forma como você vai fazer isso, especialmente através dos olhos da Lótus Vermelha. Como devemos escolher os nossos líderes?
Só porque houve uma vez um grande rei ou rainha, não significa que vai ser sempre assim. Podemos confiar no público para eleger os líderes honestos e inteligentes? Pode haver uma geração de cidadãos politicamente conscientes, mas, em seguida, a próxima geração só pode escolher líderes que mostrem apenas resultados superficiais, que lhes permitam sobreviver apenas com o básico, o povo torna-se simples massa de manobra. Parece que Zaheer está com a ideia fixa de que não há líderes em que se pode confiar.
 
A citação "A verdadeira liberdade só pode ser alcançada quando governos opressores são derrubados" só tem valor quando no contexto em que é usada. Mas nós estamos cansados de ver o quanto de canalhas oportunistas se valem desta suposta "verdade universal" para fazerem o que bem entendem. Estes discursos foram e ainda são muito usados, jogando povo contra governo e até mesmo povo contra povo.
Agora, será que todos os governos são opressores? Será que todas as formas de governo levam à corrupção?
 
A Lótus Vermelha, ou pelo menos Zaheer, acredita que a "liberdade" é uma alternativa preferível ao "equilíbrio", mas o quão longe eles esperam que mundo resista até sucumbir ao caos?
 

Suyin Beifong e Zaheer: Diferentes opiniões sobre um mesmo tema.

 
 
 
Um grande problema, praticamente endêmico, entre os autointitulados "revolucionários" é a relativização entre o bem o mal. Poderosos tendem a modificar as definições de justiça de uma sociedade. O mal sempre tentará distorcer aquilo que é bom e justo, mas a verdade é que ele nunca deixará de ser aquilo que é:
 
                                    
 
A solução para o caos no qual o mundo certamente mergulharia seria a "Ordem". E é isto o que a quarta temporada de Legend of Korra trás.
Traduzindo os significados das críticas sociais e políticas presentes na animação, na primeira temporada, o vilão Amon pregava a igualdade. A sociedade da Republic City era dividida em dobradores ("opressores") e não-dobradores ("oprimidos") e Amon seria um poder mais forte do que todos os dobradores que forçaria a todos estes a diminuírem as suas forças, descendo ao nível dos não-dobradores. E além disso, Amon incentiva essas diferenças e alimenta os conflitos e o ódio entre as classes, mas ele tem os oprimidos como simples massa de manobra para manter-se e aumentar o seu poder. Logo, ele é uma crítica ao Comunismo.
Na segunda temporada, temos Unalaq que torna-se um Dark Avatar e priva Korra, Avatar por nascença, de seus poderes. Unalaq usurpou o poder espiritual e ideológico do Avatar e o usou para proveito próprio, forçando o mundo a mudar de acordo com a sua própria filosofia. Muitas vezes é o homem quem transforma a religião e não o contrário. Aqui a crítica é para com o fanatismo religioso/ideológico.
A terceira temporada, como já falado na postagem, é uma crítica ao Anarquismo. Então nada mais justo do que os temas a serem abordados para finalizar a saga de Korra sejam o Autoritarismo e o Fascismo.
 
Na terceira temporada, vimos que Kuvira é uma dos jovens dobradores de metal em Zaofu, a fortaleza do Clã de Metal liderado por Suyin Beifong. Em um dos episódios desta temporada, vimos também que ela é a capitã dos guardas da cidade e também faz parte do grupo de dança de Suyin. Sim, ela é uma dançarina (nós estamos querendo saber se os movimentos de dança artística ajudam com a manipulação do metal).
 
Pouco antes do término da terceira temporada, a tela voltava para ela um pouco mais que o normal, embora ela só tenha tido um par de linhas para se pronunciar. Isso já nos deu a sensação estranha de que ela poderia desempenhar um papel mais importante na próxima temporada.
 
Passaram-se três anos e Kuvira deixou Zaofu (mesmo com a desaprovação de Suyin) e tem sido apontada como a líder interina do Reino da Terra. Esse papel lhe rendeu o título de "A Grande Unificadora", e ela aparece mobilizando seu exército de Dobradores de Metal para restabelecer o reino após a queda da Rainha da Terra.
 
Já no primeiro episódio da quarta temporada nos é dada uma ideia de como ela é merecedora de ter o referido título.  Kuvira detém um comboio e um grupo de bandidos, derrubando todos eles usando apenas pequenas placas de metal que estão ligados ao seu uniforme.
 
 
Seus métodos já nos levaram a acreditar que ela seria o próximo vilão da série. Esses "métodos" incluem a conquista do Reino da Terra, protegendo seus estados de bandidos em troca de sua lealdade. Ela explicou que os governos estaduais ainda vão exercer a autoridade, mas eles serão colocados sob a sua "supervisão".
 
Se você notar, Kuvira não é como qualquer outro vilão que já apareceu na animação. Ao contrário de Zaheer, que teve como objetivo fazer uma mudança no mundo através da anarquia (ou desordem), Kuvira tem uma grande paixão pela ordem e pela disciplina. Ela tem algum senso de humanidade dentro dela que carece aos vilões anteriores.
 
Em entrevista, os criadores de Legend of Korra, Michael Dante e Bryan Konietzko Dimartino, forneceram alguns dos princípios por trás da personagem de Kuvira. Eles mencionaram que não tinham se inspirado para a sua concepção em qualquer pessoa na história. Embora o mecanismo que ela usa para reorganizar a sociedade do Reino da Terra de alguma forma lembre algum tipo de ditadura, se você sabe um pouco sobre a história do mundo real. 
Eles apontaram que queriam que a história fosse o mais realista possível para que representassem Kuvira como uma personagem de muitas faces, uma ditadora militar temporária.
Um tema muito interessante e oportuno: Como eu já disse, o conservador não quer paralisar o progresso, ele apenas deseja selecionar o que serve e o que não serve para a sua sociedade. A intervenção militar em Avatar acabou por privar as liberdades. Assim como expliquei na minha postagem sobre o ano político de 2014, existe uma imensa diferença entre Intervenção Constitucional e Golpe de Estado. 
Interessante foi o seu discurso de posse, quando Kuvira tornou-se líder interino. Ela glorifica a República que conheceu nos seus tempos em Zaofu e ataca a Monarquia, chamando esta forma de governo de arcaica e atacando o seu período da história, nomeando-o como idade das trevas. Uma visão preconceituosa semelhante aquela dos Iluministas, que edificaram nossos livros de História do Ensino Médio, para definirem o certo período compreendido entre o final da Antiguidade e o início do Renascimento. 
Claro que existiram em nossa história muitas Monarquias justas, como foi aquela de Carlos Magno, que viria a tornar-se o pai da Europa. Admito isso embora não simpatize com esta forma de governo, mas também existiram terríveis períodos da história como a Dinastia Tudor do devasso Henrique VIII na Inglaterra. 
 
 
Um dos pontos principais abordados nesta postagem a destacar para chegarmos a sua conclusão é a usurpação das ideias dos pensadores críticos da sociedade. Os ditos revolucionários utilizam tais ideias fora do contexto e ainda conseguem fazer a cabeça dos antigos seguidores destas. 
O outro ponto é o diálogo presente entre Korra e Toph, no início da quarta temporada. A agora anciã "Bandida Cega" não condenou como um todo o pensamento dos inimigos da Avatar, mas condenou o maior erro que havia naquelas ideias: a falta de equilíbrio.
Equilíbrio este que dá nome a quarta temporada (Balance) e o qual carece na mente do "revolucionário".

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