sexta-feira, 31 de agosto de 2018

LIGA DA JUSTIÇA, DC DECISÕES E O ANO ELEITORAL

















A melhor forma de se iniciar uma postagem  como esta é com a citação da célebre frase do saudoso e genial humorista Millôr Fernandes (1923-2012): "Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim."

Foi tomado o cuidado necessário para torná-la o mais isenta possível, ou seja, uma postagem chapa branca, embora para muitos isto também configure um problema grave. Mas pensem nisso... A exemplo de um historiador, quando este tem real compromisso com a verdade, ele vai em busca por fontes histórias isentas.
Enfim... há um famoso ditado popular presente na amada história em quadrinhos Peanuts, de Charles M. Schulz, enunciado de forma adaptada pelo personagem Linus Van Pelt:

"Existem três coisas que aprendi a não discutir com pessoas: política, religião e a Grande Abóbora".


O conhecido dito popular inclui o futebol no lugar da Grande Abóbora, e há quem prefira incluir o gosto cultural.
Se pararmos para pensar, encontramos uma relativa verdade no dito. É certo que temos muitas questões importantes a serem discutidas e debatidas, mas ultimamente estamos exagerando, e transformando qualquer ação ou comentário em uma guerra sem sentido e muitas vezes sem conteúdo. A onda do momento é politizar tudo, por mais idiotas e triviais que possam parecer certos assuntos, como uma História em Quadrinhos por exemplo.

Há, contudo, uma verdade que fica nas entrelinhas do dito popular e da frase do icônico personagem de Schulz: Tudo é política!


Futebol é política... Há uma estreita, complicada e hipócrita relação entre futebol e política.

Vide a escolha do Catar para sediar o mundial de 2022 já coberta de suspeitas de corrupção, com a DPB (Federação Alemã de Futebol) agindo nos bastidores.


Religião é política... Vocês já leram O Crime do Padre Amaro, do lendário Eça de Queirós?

Neste conto, Eça de Queirós (1845-1900) satiriza o religioso que trata a sua posição como uma espécie de carreirismo, semelhante ao que acontece com a política em nosso país, onde ocupar cargo político é como uma profissão (Muito lucrativa, diga-se de passagem).

A Grande Abóbora é política... também... Afinal a política é da mesma forma inspirada em promessas que nunca serão cumpridas... Por mais pessimista que possa parecer, há um imenso descompasso entre promessas e realidade. A arte que só político entende é a negociação, e se não entender, as consequências são por todos nós conhecidas.


Como leitores de quadrinhos, geralmente pensamos que a maioria das coisas seriam muito melhores se envolvessem super-heróis, inclusive o sistema político americano. Quero dizer, na verdade, você pode se interessar pelo debate presidencial, mas provavelmente seria muito mais divertido assistir se fosse o Batman exigindo ver a certidão de nascimento do Superman e insinuar este ser algum tipo de kriptoniano Raoista simpatizante (em "Batman V Superman: A origem dos Memes").

Há exatamente 10 anos foi lançada uma peculiar minissérie em quadrinhos estrelada pela Liga da Justiça da DC Comics que abordou um tema muito próximo da realidade, as eleições presidenciais.

A última eleição presidencial dividiu os EUA de uma maneira que poucas outras eleições na história conseguiram. E, ao longo de tudo isso, os heróis ficcionais dos universos das histórias em quadrinhos teriam a obrigação de permaneceram neutros, acima desta briga em todos os aspectos. No entanto, em 2008, os heróis da DC Comics assumiram posições políticas muito específicas, incluindo a declaração sobre o partido ao qual estavam alinhados. 

DC Universe: Decisions foi uma minissérie de quatro edições, publicada no período que antecedeu a eleição estadunidense de 2008, e escrita por Bill Willingham e Judd Winick, com arte de Rick Leonardi e Howard Porter. 



Universe DC Decisions: o Homem-Robô impede
um ataque terrorista.

O enredo era bem simples: um assassino tem como alvo os principais candidatos representantes dos partidos Democrata e Republicano, o que significa que cada candidato recebe guarda-costas super-heroicos para protegê-los, mas o verdadeiro apelo da série foi ver os nossos super-heróis favoritos expressarem suas opiniões políticas, o que certamente deve ter aborrecido uma boa parcela da sua base de fãs. Mas acreditem, o embate político entre super-heróis está longe de ser chato. Eu, pelo menos, ri bastante com o que li. (Super-heróis são apenas escapismo, portanto não leve muito à sério, ok.)

Não é uma postagem hipócrita, porque não estou politizando um assunto tão trivial quanto uma HQ que ninguém aqui deve ter lido. Estou apenas analisando uma HQ que já é política de fábrica e que coloca super-heróis debando suas convicções políticas. O objetivo desta postagem é a simples análise dos principais pontos desta curiosa minissérie, e também discutir sobre um dos assuntos favoritos deste blog: estereótipos.

O gancho da minissérie foi finalmente sermos capazes de descobrir as afiliações políticas definitivas dos nossos super-heróis favoritos. Por que isso era pelo que os leitores estavam clamando, certo?

De muitas maneiras, é uma ideia que parece impensável hoje em dia. Por mais que o Capitão América seja uma figura inerentemente política, é difícil imaginar a Marvel permitindo-lhe apoiar explicitamente um candidato Republicano ou Democrata em ano de eleições. Por que arriscar incomodar metade de sua base de leitores?



Isto pode ter causado reações
extremas de protesto e apoio

Mas isso não quer dizer que o apoio explícito dos personagens dos quadrinhos não possam surgir após a eleição. O presidente então eleito Barack Obama apareceu em uma edição best-seller do Homem Aranha, lançada uma semana antes de sua posse em janeiro de 2009. 

Isto é muito arriscado. É claro que Decisions não foi tão longe a ponto de usar políticos da vida real. Em vez disso, o universo fictício que uma vez elegeu Lex Luthor para o Salão Oval apresenta Davis Brewster e Martin Suárez no lado Democrata, e Katherine McClellan e Bob Ridgeway para os Republicanos. 

Após um violento ataque de um "homem-bomba" durante o comício da presidensiável Katherine Mcclellan, a Liga da Justiça decide investigar e atribuir a cada um dos candidatos algum tipo de serviço de super-proteção liderado por cada um de seus membros, o que é certamente um plano ousado, principalmente porque requer que não hajam outros crimes e/ou crises acontecendo naquela semana de trabalho. 

E, claro, aqui o que pode incomodar é ver alguns personagens agindo de uma forma que normalmente eles não agiriam, o que quer dizer que já temos a oportunidade perfeita de ver o Arqueiro Verde sendo um imbecil:



Universe DC Decisions:
a atitude do Arqueiro Verde

Esta é uma das minhas partes favoritas desta série. O Arqueiro Verde se recusa veementemente a proteger um candidato conservador, e, como precisaria arriscar a sua vida por um político, ele preferiria fazer tal sacrifício por um político que ao menos fosse simpático às suas próprias ideias. O uso da palavra "simpático" é para que o leitor não tenha dúvida nenhuma do que se trata.

Ok. Eu também nunca arriscaria o meu pescoço para salvar a vida de um político (argh!), mas o Arqueiro Verde, tipo... Ele é um super-herói... E arriscar a própria vida para salvar outras vidas (mesmo as dos políticos) não é o que os super-heróis fazem?

Depois de resgatar o seu candidato escolhido, o democrata Davis Brewster (acusado por seus opositores de ser um radical de Extrema-Esquerda) de mais um ataque de um homem-bomba, o Arqueiro Verde vai à TV. E ele o fez como gratidão a repórter local que foi de grande ajuda quando o Arqueiro impediu aquele novo atentado.

E, durante a entrevista em rede nacional, a repórter, de forma muito esperta, manipula as respostas do Arqueiro Verde para que o público interprete que ele está oferecendo um apoio completo a Brewster.
Não que o Arqueiro não apoie o Democrata, mas ele deveria, como um herói uniformizado, manter o seu apoio sob completo sigilo. "Heróis não votam"!


Universe DC Decisions: a atuação da mídia descrita na HQ.

Com o apoio do Arqueiro Verde, Davis Brewster, antes sem nenhuma chance de vencer a eleição presidencial, começa a decolar nas pesquisas, o que leva todos os outros políticos a uma corrida desesperada por um porta-voz super-heroico.

Agora vamos ao primeiro estereótipo da história: A mídia. 
Nos quadrinhos, Frank Miller e Alan Moore, escritores de visões ideológicas muito distintas, já satirizavam e entregavam uma visão muito irônica da mídia. 
Na internet, é difundida uma crença quase unânime de que a mídia endossa completamente a Esquerda. E eu gosto de comparar essa máxima ao preconceito com relação aos cursos universitários de Humanas, como o Jornalismo. 



Superman Animated Series:
"Ninguém gosta muito de vocês, senhorita Lane"
Opinião do detetive Bowman sobre jornalistas
(spoiler: ele é corrupto).

Eu posso dizer por experiência que nem todo estudante de Humanas é simpatizante de partidos de Extrema-Esquerda (ou adeptos do uso da Cannabis). Mas as pessoas preferem se prender a generalizações do que conferir como as coisas realmente funcionam. 
Quantas vezes você já ouviu a aplicação desse mesmo rótulo, só que com o sinal trocado, em Ciências Biológicas e Exatas?
Os estereótipos não se sustentam numa observação mais cuidadosa e comprometida com os fatos. É certo que a visão Marxista da realidade ganhou muita força principalmente dentro da universidade Federal. Mas dizer que toda a mídia é esquerdista seria uma simplificação da realidade.

É importante observar que quem é de Esquerda acusa a mídia de ser de Direita, mas quem é de Direita acusa a mídia de ser de Esquerda. 

Antigamente, todo mundo queria ter o apoio da mídia.

Porém, hoje, quando todos estão conectados à internet, em suas próprias bolhas de relacionamentos (com pessoas que pensam necessariamente igual a você), compartilhando apenas as notícias e as informações que lhes interessam, pode-se dizer que a mídia tornou-se algo irrelevante. 



Qual o seu posicionamento político? 
Todos veem agora a necessidade de se posicionarem de um dos lados, mesmo sem compreenderem muito bem a diferença entre Direita e Esquerda, e ainda entram em debates violentos com seus antagônicos ideológicos com direito a insultos e todo o tipo de xingamentos.

A verdade é que as definições de Direita e Esquerda já não se aplicam mais nos dias de hoje. E certas opiniões podem atrair o ódio de pessoas que se acham muito inteligentes e esclarecidas apenas por ler materiais de panfletagem política enviesadas na internet.
Com o fim da Revolução Francesa, a grande vencedora foi a "Esquerda" que derrubou a Monarquia. E foi a partir daqui que surgiram os vários segmentos que deram origem às modernas versões da Esquerda e da Direita, às quais por sua vez originaram diversos outros segmentos políticos correlacionados entre si (dentro da Direita temos o conservadorismo, o liberalismo, etc. e na Esquerda temos o socialismo, o comunismo, etc.).
Um "conservador raiz" atesta que nos EUA a política é dividida entre a Esquerda e a "Direita canhota" (Visto muitos aspectos revolucionários presentes na constituição norte-americana). Afinal, a Direita de hoje seria a Esquerda de ontem.

Bem... O Arqueiro Verde tem muita história. E eu diria que ele é um personagem único, uma vez que não existem outros super-heróis dentro da DC ou da Marvel tão similares (Não estou falando de similar no sentido de ser uma cópia dele, como é o caso do Gavião Arqueiro na concorrente Marvel).


A icônica parceria de Bruce Wayne (Batman) e Oliver Queen 
(Arqueiro Verde), em The Dark Knight Returns 
de Frank Miller em 1986.

Cabe recordar ao leitor a trajetória do Arqueiro Verde dentro das HQs. Em suas origens, o Arqueiro Verde era um personagem um tanto desinteressante pelo fato de ser considerado apenas mais uma cópia do Batman. As semelhanças entre o Arqueiro Verde e o Batman são muito evidentes: ambos são órfãos, são playboys bilionários, são super-heróis sem super-poderes protegendo suas respectivas cidades, enfrentando os super-vilões utilizando de seus próprios punhos, apetrechos especiais e seu grande intelecto...

Foi Denny O'Neil, um dos maiores revolucionários dos quadrinhos norte-americanos durante a década de 1970, responsável pela reformulação de diversos personagens, como o Arqueiro Verde e o próprio Batman que finalmente retornava às suas origens sombrias (distanciando-se definitivamente do carismático "cavaleiro brilhante de Gotham" de Adam West).

E durante esta fase, em plena Era de Bronze dos quadrinhos, o Arqueiro Verde ressurge totalmente repaginado, enfrentando agora políticos corruptos e empresários mal-intencionados, defendendo os trabalhadores pobres e explorados, confrontando o racismo e a degradação do meio-ambiente, e cheio de frases anarquistas.


Hal Jordan encara a realidade.
Lanterna Verde e Arqueiro Verde de Denny O'Neil, 
arte de Neal Adams

A Era de Bronze foi marcada por quadrinhos com um viés mais político, e enredos e roteiros mais sofisticados, explorando um novo público, uma vez que os leitores mais antigos já deixavam o hábito da leitura de quadrinhos. E esta reformulação definiria a sua imagem de Oliver Queen perante os fãs nos próximos anos.

O seriado popular do CW, Arrow, tornou o personagem mais do que um similar ao Batman, ele se tornou literalmente um "Batman-Verde". Talvez seja complicado trabalhar com o personagem original. Vocês conhecem algum vilão relevante do Arqueiro Verde? Claro que não. Estão todos mortos! O Arqueiro não tem pena dos bandidos, e mete flecha na cabeça de todo mundo. Não é à toa que ele precisa roubar os vilões do Batman e dos Novos Titãs para ter um seriado.


Green Batman Arrow

Com o passar das fases, o Arqueiro Verde tornou-se mais explicitamente alinhado à Esquerda, e por isso alguns críticos acusam as HQs de se converterem em um tipo de panfleto político.
Eu imagino que a ideia era dar à história a sensação de seriedade do mundo real que eles já haviam conseguido com histórias anteriores, como o Arqueiro Verde arrastando o Lanterna Verde pelo país para aprender sobre a América Real nos anos 70.

Tudo isso foi determinante para a personalidade do Arqueiro Verde, como podemos ver em nossa amada animação Liga da Justiça sem limites. E, em vista das reações furiosas do público atual, talvez houvesse a necessidade do Arqueiro ter um discurso mais sutil nos dias de hoje (Vejam o Questão, outro grande super-herói que também tem uma excelente representação e participação na série animada. Todos mundo que lê quadrinhos sabem que o Questão é de Direita, mas o discurso dado ao personagem é tão sutil que muitos se lembram dele apenas como um adepto de teorias de conspiração).
No episódio Flashpoint da citada animação, os membros da Liga da Justiça estão discutindo política, e o tema é:  é justo que o governo tenha armas super-humanas para se defenderem caso a Liga da Justiça venha a se rebelar? O Arqueiro Verde é da opinião de que o Governo deve fazer pelo povo o que este não pode fazer por si mesmo (Quem os protegeria de super-seres como o Superman?).

Na caixa de comentários onde o vídeo com o dito trecho foi postado no Youtube, há milhares de xingamentos direcionados ao personagem, o que significa que por ele ter se assumido como um Esquerdista, isto invalidou TODO o seu discurso mesmo para quem tem a mesma opinião sobre o assunto, mas que está jogando no time rival da política.
E a opinião do Arqueiro Verde é ironicamente a mesma de muitos economistas liberais. Inclusive a sua frase, "O governo deve fazer pelo povo o que o povo não pode fazer por si mesmo", é uma frase de  Abraham Lincoln, um conservador.
Em nenhum momento o personagem impôs a sua agenda ou insinuou que o Governo deva controlar nossas vidas, isso seria a opinião de um extremista ignorante, coisa que ele não é (Ao menos esta versão não é, diferente de como ele foi retratado em DC Universe: Desicions).


O personagem interpretado pelo grande humorista mexicano Cantinflas em
El Padrecito (1964) é um Conservador e declara que é dever do Governo
 garantir os direitos dos trabalhadores, porque é deles que vêm as riquezas das 

nações (óbvio), e ele explica que isso não tem nada haver com Comunismo.

Já li não a uma, mas a várias críticas ao discurso do Arqueiro Verde estar alinhado à Esquerda pelo simples fato do seu uniforme ser uma referência clara ao conhecidíssimo personagem da literatura  européia Robin Hood, aquele que "roubava dos ricos para dar aos pobres". E, nesta crítica, o escritor nos faz recordar do personagem clássico não como aquele que "roubava dos ricos para dar aos pobres", mas sim como aquele que "tirava do Estado (que cobrava altíssimos impostos da população) aquilo o que este confiscou dos pobres para devolver ao povo". E, portanto, neste sentido, Robin Hood seria um personagem antagônico à Esquerda.

O grande problema é que definir a Esquerda como "Estado grande" e a Direita como "Estado mínimo" não é somente uma simplificação, mas uma negação da realidade... Originalmente os movimentos anarquistas nasceram das esquerdas, e mais tarde surgiram movimentos ligados às diretas que militavam por um Estado cada vez menor, para finalmente militarem pela extinção completa do Estado.

Como dito anteriormente, a Era do Bronze das HQs carregou este forte viés político e um apelo ao público mais velho. Nas anteriores fases, as Eras de Ouro e de Prata, o Bem era o Bem e o Mal era o Mal. Não havia meio-termo, nem nuances. Com o fim da desastrosa Guerra do Vietnã e a luta pelos Direitos Civis, a contracultura denunciava todos os males e as contradições da sociedade norte-americana. E o Arqueiro Verde ressurge como um super-herói com ideais progressistas.

Antes disto tudo, um personagem de quadrinhos que desejasse mudar a sociedade, normalmente seria associado ao vilão, enquanto o personagem que desejasse preservar a sociedade seria associado ao herói. O vilão seria aquele personagem que traz a novidade, enquanto o herói é aquele quem a combate. Isto é o que hoje chamamos de maniqueísmo? Não. Na verdade pode até ser maniqueísmo, mas não do ponto de vista de um leitor de quadrinhos da década de 1940. Aquilo que nos é comum, não nos parece simplificação.


É importante lembrar que por mais que os leitores gostem de ver os X-Men, na rival Marvel, como figuras inerentemente políticas desde sua origem, eles na verdade surgiram na Era de Prata, como uma "cópia" da Patrulha do Destino, outro supergrupo da DC Comics.

Embora seja muito difundida a ideia de que os X-Men surgiram como alegorias às minorias, como os homossexuais, na verdade eles nascem da ideia brilhante de Stan Lee para não precisar mais se preocupar em pensar em explicações para a origem dos poderes dos personagens. Nestas HQs estreladas pelos mutantes, todos os personagens teriam a mesma explicação para a origem de seus poderes: a presença do gene-X.

Foi a partir da Era de Bronze que os X-Men passaram a ser representados por personagens vindos de todas as partes do mundo e o discurso sobre perseguição e aceitação tornou-se constante em suas histórias. Chris Claremont roteirizou histórias maravilhosas com os personagens abordando este tema como X-men: God Loves Man Kills e New Mutants: We Were Only Foolin.

Fim da aula de História, voltemos a Universe DC: Decisions...

Com o Arqueiro Verde declarando apoio ao candidato Democrata, pensando nos programas sociais deste para os pobres, os outros super-heróis não deixariam isso por menos e aos poucos declarariam seu apoio aos demais candidatos.

O primeiro a tomar partido foi o Lanterna Verde que chuta a bunda dos bandidos com a mesma facilidade que frequenta boates e casas de strippers, e é claro que estou falando de Guy Gardner. O Lanterna que todos amam odiar declarou o seu apoio ao candidato Republicano Bob Ridgeway, e também foi o único personagem a xingar o Arqueiro Verde de comunista, em rede nacional.

Após Gardner, outros super-heróis também declaram explicitamente as suas opiniões políticas:


Vixen = Republicana
Doutora Luz = Democrata
Poderosa = Republicana

Mutano (Waffles, Waffles, Waffles...) = Democrata
Pantera = Republicano
Homem-Borracha = Republicano (Sério?)

Tormenta (Acho que essa é ela): Democrata
Nuclear: Democrata
Gavião Negro: Republicano (Ele é o Arqueiro Verde vivem se estranhando)

Como podem ver, na prática, na maioria das vezes, apenas um monte de personagens que ficavam por aí fazendo declarações despreocupadas sobre o porquê de se inclinarem para a Esquerda ou para a Direita. Entre algumas exceções, temos o Pantera, um homem de 80 anos que se veste como um gatinho e dá porrada em todo mundo, e ele é da opinião de que precisamos de um "durão" na Casa Branca, enquanto Jaime Reyes, o Besouro Azul, está ligeiramente interessado em um sistema de saúde universal. 

O Demônio Azul, conhecido por sua forte personalidade, respondeu sobre suas inclinações políticas de forma contraditória. Ele não revela em quem votará, mas responderá quais os três outros candidatos em quem não votará. Conseguem adivinhar? O Demônio Azul é descendente de imigrantes irlandeses, e talvez isso o sensibilize sobre a imigração. Mas, por outro lado, é um cara extremamente religioso, o que pode atrair a sua preferência por candidatos mais conservadores. 

O Detetive Chimp dá a desculpa banal de que chipanzés AINDA não podem votar para não revelar se prefere os Democratas ou os Republicanos.

O Flash não expôs a sua opinião, mas isso foi apenas uma piada interna. E, bem, levando em consideração que o velocista escarlate usa um uniforme idêntico ao do Chapolin Colorado, eu acredito que ele não está com o Super Sam nem tão pouco com o Dimitri Panzovisk, ou seja, o Flash é um dos nossos (Referência obscura?). 

E não são apenas os super-heróis. Até mesmo Lois Lane entra em ação, declarando-se como Republicana:



Universe DC: Decisions:
As opiniões de Lois Lane

Que surpresa. Eu sempre via de uma forma estereotipada o casal mais famoso da DC. Enquanto a Lois Lane seria a feministinha esquerdista (Lisa Simpson?), o Clark Kent seria o playboy de direita.
Em algumas histórias fica claro o conflito entre Lois e o pai dela, um general do exército, o que a levaria a rejeitar ou a cultivar uma devoção a um "exército forte". Esses são traços de caráter que não são muito explorados nas histórias. 
Sabemos que Lois Lane está casada com um imigrante ilegal e em várias histórias é possível vê-la com discursos bem queixosos e protestando contra Lex Luthor por seu sucesso no livre mercado graças em grande parte à falta de regulamentação de Metropolis sobre o desenvolvimento de suas armas para a guerra (inclusive algumas destas utilizando kryptonita). 
Mas, temos bem documentado o ódio da personagem pelos impostos, o que de fato não a faz soar como um defensora de um Estado forte.  

Anteriormente eu fiz um comentário sobre cursos de Humanas, Extrema-Esquerda e uso de Cannabis... Uma história engraçada para vocês: Quando iniciei o meu mestrado, precisei encontrar minha professora orientadora no campus de Humanas. Eu sou das Biomédicas, e embora o meu campus fique junto ao Hospital das Clínicas, o laboratório da professora fica junto ao campus de Humanas... Há anos não andava naquele campus, por isso acabei me perdendo e invadi o prédio da Sociologia e... caras, eu saí daquele lugar cantando Smoke weed, smoke weed evereday...
Mas por um outro lado, foi um professor do curso de História daquele mesmo campus (e um conhecido meu de longa data) quem refutou no jornal as mentiras ditas por um certo deputado da Extrema-Esquerda sobre a história do Brasil... Vejam como toda generalização é burra.


As convicções de Oliver Queen em confronto
com Hal Jordan na fase Denny O'Neil.

Como você pode esperar quando a política está em jogo, as coisas esquentam rapidamente. Em pouco tempo, as linhas do conflito são traçadas entre os super-heróis, começando com o Arqueiro Verde e o seu eterno amigo, o Lanterna Verde Hal Jordan.

Quando o Arqueiro Verde reprende Jordan, comparando-o aos nazistas e dizendo ter fé naquilo o que acredita, o Lanterna Verde retruca que Oliver Queen é a última pessoa no planeta que pode usar a palavra "fé". E no caso de você estar se perguntando, Jordan toca na palavra "fé", no diálogo original utilizando-a no sentido de "fiel". E, creio eu, seja uma referência àquela vez em que o Arqueiro Verde traiu a Canário Negro em um quadrinho também escrito por Judd Winick. 

Você sabe, para um cara que escreveu quadrinhos por anos, eu não tenho certeza se ele realmente gosta muito do Arqueiro Verde. O ponto é, Oliver Queen recebe uma palestra sobre usar seu poder com responsabilidade de Hal Jordan, um cara que enlouqueceu, matou um monte de seus colegas de trabalho, tentou destruir a totalidade do espaço e do tempo e depois pôs a culpa disso tudo em um fucking inseto gigante amarelo do espaço que viveu em seu cérebro por dez anos. É um grande debate...

Mas e os "grandões"?
Quero dizer, quem a Trindade DC Comics está apoiando nestas eleições? 

Comecemos pela Mulher Maravilha que apoiou em rede nacional o candidato republicano Bob Ridgeway. E eu aposto que muitos, se apoiando em estereótipos, devem ter pensado: "O quê? Mulher Maravilha? Apoiando um político de Direita? Mas ela não é Feminista?"


Wonder Woman: Spirit Of Truth:
a Mulher Maravilha não se submete.

Retornemos à História... Basicamente, a Direita prega a "eficiência", enquanto a Esquerda prega a "igualdade". Certo?
O Feminismo esteve alinhado à Esquerda por seu "histórico de luta contra as desigualdades". A Direita vê as desigualdades de uma forma diferente, a desigualdade é inevitável e sempre existirá, somos diferentes como indivíduos, mas iguais como seres humanos.


Wonder Woman: Spirit Of Truth: Na opressão do Oriente
Médio, a Mulher Maravilha é apedrejada pelas mesmas
mulheres que quer ajudar, considerada uma "libertina"
 por sua pouca vestimenta.

A Esquerda sugere que a luta contra as desigualdades seja ensinada nas escolas desde cedo. Combatendo o machismo, desconstruindo isso de "coisa de homem", "coisa de mulher", etc. Assim é  também o combate ao racismo, à homofobia... E daí vem o ensino sobre gênero, cotas, etc nas escolas. E os governos de Esquerda interferem desta forma na educação, porque, de acordo com suas crenças, de médio à longo prazo, construirão uma sociedade melhor. E, além disso, se o Estado não interferir, dificilmente o nosso meio o fará.

A Direita, por outro lado, pregando a eficiência e a equidade (Somos iguais enquanto seres humanos, respeitando a individualidade de cada um), crê que o Estado não deve interferir, porque isto seria uma imposição de pensamento único. A igualdade não deve ser forçada em uma sociedade desigual, porque isto poderia causar outros gravíssimos problemas. A Direita tem a crença de que a sociedade é desigual, mas as mudanças devem partir das iniciativas individuais. Quer dizer, deve ser ensinado o respeito absoluto das liberdades individuais. O respeito individual não depende dos gêneros.


Mulher Maravilha e o Feminismo

Por isso, existiam sim correntes do Feminismo ligadas à Direita. Estas acreditam sim que a mulher deve lutar por seus direitos, combater o Machismo, militar por melhores salários, etc. Mas o Estado não deve interferir.
A Mulher Maravilha, criada por um homem feminista na década de 1940 está ligada à primeira onda do Feminismo. Embora o seu criador (um cientista boêmio e polígamo) talvez não tenha sido visto por pessoas do seu tempo como um grande exemplo de conservador. Enquanto atualmente muitos se auto-denominam conservadores como se ser conservador se resumisse a odiar a Esquerda.


"A Mulher Maravilha inspira as pessoas... nós não..."
(Spoiler: esse filme foi ótimo...)

Desigualdade é um tema complexo. Nossa sociedade é acima de tudo muito injusta. Também acredito que cotas não são solução para nada e forçar a igualdade cria problemas. Mas como combater essa injustiça?
Compartilho uma experiência de vida: Quando cursei a Federal, eu era um dos únicos alunos da minha classe de origem humilde, o vulgo pobretão. Todos os meus colegas eram mauricinhos e patricinhas. Se os pais deles tinham condições de colocar seus filhos nas melhores universidades particulares do país, por que não deixar a Federal para os estudantes mais pobres e da rede carente?
Criticam e atacam tanto o ensino superior da Federal, mas não abrem mão se isso significar ter ainda mais vantagens (Talvez porque ao menos este serviço tenha qualidade).
Inclusive foi inspirado nisto tudo que um trio de ex-alunos da Federal, partindo de uma iniciativa individual, tiveram a liberdade para criar um curso preparatório para o vestibular, destinado à comunidade carente na cidade onde cresci. E tenho o orgulho de dizer que participei dele, afinal na época não teria condições de bancar a máfia dos cursos particulares.


Para cursar a Federal é preciso ser raçudo como Kojiro Hyuga.

Ao prestarem o vestibular, os mais pobres enfrentam uma concorrência desleal porque muitas vezes estudaram em colégios públicos com baixa qualidade de ensino, enfrentando greves e falta de professores.
O pobre sempre fica em desvantagem. Direita e Esquerda não estão de acordo neste ponto? Por que não encontrar juntos um modo de tornar nossa sociedade mais justa?

Agora vamos ao Batman...


Batman Year One:
Batman confronta os poderosos e corruptos de Gotham.

Bruce Wayne apareceu apoiando o Democrata Martin Suárez, o que pode também causar estranheza para muitos, mas não me surpreendeu tanto pelo histórico do personagem.
O Batman é um super-herói criado no final década de 1930, e, como tal, nasceu de um ideia conservadora: combate o crime e as desigualdades a partir de uma iniciativa individual, portando as suas próprias armas e ainda mantém sua identidade secreta.


Batman War On Crime

Independente das suas convicções políticas, o Batman é capaz de despertar alguma coisa em você...
Há extremistas que o criticam por ser um cara rico que bate em "pobres" e há extremistas que o criticam por nunca matar seus inimigos.


Batman War On Crime

Uma parte da "mídia especializada" ataca Frank Miller, o autor do excelente The Dark Knight Returns pelas ideias conservadoras deste, inclusive taxando sua obra como fascista (?!). O que é um pouco irônico, porque, segundo o próprio Miller, o seu Batman da dita HQ de 1986 poderia ser visto como um "liberal" (no sentido estadunidense da palavra) para as pessoas da época, embora o personagem encarnasse valores claramente conservadores.


The Dark Knight Returns

O Batman de Miller inspirou na HQ toda uma geração de desordeiros que estavam à margem da sociedade, sendo tratados como verdadeiros párias, a entrarem na linha e a segui-lo para combater aqueles outros desordeiros que não buscavam redimirem-se, se não viver do crime. Batman fez aquilo que o governo não tinha coragem de fazer, e ainda mostrou como os jovens párias poderiam ser aceitos e bem vistos por seus antes acusadores. Isto não é inspirador para você, independente da sua ideologia? Afinal, todo mundo no fim das contas quer justiça social, o que nos diferencia é a forma como vemos o problema e a maneira como trabalhamos nele.

O Batman de Denny O'Neil na Era de Bronze por outro lado era considerado por muitos como um Esquerdista moderado. E Bruce Wayne sempre foi conhecido em inúmeras HQs, das mais antigas às recentes, por apoiar a filantropia e investir em programas sociais. E, infelizmente nos dias de hoje, parece que fazer caridade virou sinônimo de comunismo. Vejam só!


Anarquia (O cinema precisa investir em grandes e desconhecidos personagens).

Mas o Batman é também constantemente retratado como um "antirrevolucionário". Tanto no cinema de Christopher Nolan, quanto em uma série de HQ's. Não é a toa que um de seus maiores inimigos se chama Anarquia.


"Ele ficou ao lado dela, até seus últimos minutos de vida..."
Quem viu esta animação já sabe: Este é o verdadeiro Batman!

Por fim, o Superman... 
Assim como o Flash, ele não se posicionou explicitamente sobre nenhum candidato em particular. E o Superman nos trás uma boa mensagem sobre a importância de sair e fazer seu dever cívico de votar, e é um bom exemplo de sua confiança na humanidade como um todo para tomar as decisões certas. 

Por outro lado, o Superman também está nos dizendo que essas últimas páginas do quadrinho que acabamos de ler eram sem sentido e idiotas, e, acredite em mim, eu já sabia disso. Além disso, foi meio cafajeste com a Lois sobre isso:



DC Universe Decisions:
Clark Kent reforça que o voto é secreto.

Talvez Clark Kent possa ser o mais isento de todos os super-heróis...
Em postagens anteriores cheguei a escrever que o Superman seria uma representação de Moisés, o que está tão errado quanto a suposta ideia original para a criação dos X-Men. Eu escrevi isto apenas para fazer um paralelo com o Son Goku de Dragon Ball (O verdadeiro, não aquele tão colorido quanto as calças do Restart) que é uma representação de Sun Wukong, com Kal-el criado por dois judeus e Kakarotto criado por um homem asiático.

Os mitos super-heroicos da antiguidade representavam o conflito do homem com a sua própria mortalidade - como é o caso de Hércules -, mas com a chegada do Cristianismo, surgiram novos arquétipos de Super-heróis: Gary Stu e Underdog.



Superman = Gary Stu
Rocky Balboa = Underdog

Gary Stu é aquele personagem inspirador, porém inalcançável dentro de suas virtudes e força e, por isso, mais difícil de se identificar. Enquanto o Underdog seria aquele personagem que não recebeu a sua força desde o berço, que normalmente veio dos mais baixos estamentos da sociedade, confrontando as suas próprias limitações humanas, mas que tem uma gigantesca força de vontade, o que o torna muito mais identificável e inspirador para o público (Em outra ocasião vamos nos aprofundar mais no assunto).

O Superman, como a ideia clássica do super-herói, representa a preservação dos valores tradicionais, o que nos faz relacioná-lo diretamente ao conservadorismo. Mas, vejam que interessante, em suas primeiras histórias, o Superman não enfrentava super-vilões tão poderosos quanto ele, nem tão pouco ameaças cósmicas como Darkseid. O Superman estava mais comprometido com a justiça social.
Isso mesmo! Era muito comum vermos histórias em que o Superman aparecia para defender uma mulher que apanhava do marido abusivo, ou para ajudar às crianças pobres de uma comunidade carente, no melhor estilo "Oh, e agora, quem poderá nos defender?"


Superman: For Tomorrow

Quanto ao conhecido paralelo entre o Superman e a figura de Jesus... Zack Snyder, em sua imensa falta de criatividade, não consegue dirigir um filme do Superman sem correlacionar o personagem ao messias do Cristianismo.
Independente de não acreditar ou acreditar no metafísico, ambos os lados da política tentam monopolizar a figura principal do Cristianismo. Uma vez que Esquerda e Direita têm visões completamente díspares da realidade, considerando o seu lado o dono de todas as virtudes e o outro lado a representação de tudo o que há de pior na humanidade.


Superman Peace On Earth:
O mais altruísta dos super-heróis alimenta os pobres e famintos. 

O "Homem do amanhã" é o personagem central de diversas histórias que nos convidam a pensar não só no papel do super-herói, como também do próprio homem, em antítese aos salvadores que nunca virão. O homem assim cria barreiras para si mesmo o que vem a fomentar guerras, injustiça e miséria.
E é claro que nestas últimas linhas estava me referindo a Superman: Peace On Earth, belíssima HQ de Paul Dini e ilustrada por Alex Ross. Na referida HQ, o Superman confronta o problema da fome no mundo. Com tantos poderes, ele não poderia fazer algo significativo por todos os famintos do planeta?


Superman Peace On Earth:
Interesses particulares, ideologias e corrupção: os desafios do Superman.

Superman confronta-se com as desigualdades enraizadas em diversas sociedades, muitas vezes sustentadas por déspotas e corruptos.

Por favor, precisamos falar sobre a urgente produção de um filme decente do Superman, utilizando o fascinante vilão Manchester Black (Ele empata com o Lex Luthor em relevância, na minha opinião).


Action Comics # 796: o confronto "final"
entre Superman e Black
O Superman nunca mata (por mais que Snyder tenha manchado a reputação do Homem de aço nos cinemas). O Manchester Black encarna a atitude de “justificar os meios” em seu relacionamento com o Superman. 
Black é um herói autoproclamado e, por mais violentas que sejam suas ações, ele acredita que o que está fazendo (livrando o mundo dos criminosos) justificará seus métodos. Ironicamente, para convencer o Superman de que o mundo real precisa de um herói como Black, ele se transformou em uma ameaça cruel e perigosa como os piores super-vilões. 



O suicídio de Black em Action Comics # 796

O Manchester Black foi uma resposta perfeita para uma crescente tensão entre a narrativa da DC e seus leitores. A mitologia do Universo DC lutou por muito tempo com a questão dos heróis que matam, mas em vez de quebrar sua moralidade paradigmática fundamental, tem uma longa história de forçar aqueles heróis que cruzam a linha a responder por suas ações. Embora possa parecer de outra forma, Manchester Black não é uma condenação aos heróis que matam, mas sim à justificativa desses assassinatos. Sua mitologia representa um princípio abrangente do Universo DC: o assassinato vem com um preço alto, e o fim não justifica os meios.



Universe DC Desicions:
Dever cívico.

Se há uma falha em DC Universe: Decisions, além dos argumentos que alguém pode ter com as inclinações políticas de qualquer super-herói (Homem Borracha Republicano?), é que não há uma cena em que um super-herói explique para todos que a pessoa que vota é tanto um herói quanto uma pessoa comum.

Claro, o Superman pessoalmente pode não querer votar em um político que mente ou faz comentários odiosos, mas só faz sentido que ele não se pronuncie publicamente especialmente enquanto ele luta com a ideia de que o seu país escolheu um líder que ele não suporta. E claro que estou falando de Lex Luthor aqui. 



Funny Valentine: Democrata
ou Republicano?

Estereótipos simplificam a realidade, e a realidade é muito complexa para a mente humana. Por isso são úteis, mesmo quando falsificam a realidade. O ser humano ama simplificações, e tem hábito de projetar todas as suas insatisfações no outro. Direitistas e Esquerdistas não admitem que suas ideologias não estejam isentas do "pecado original". Qualquer uma delas podem levar ao extremismo e ao totalitarismo. 


Tendências nazistas todos nós temos! Por isso devemos lutar contra esses elementos desagradáveis, ao invés de projetá-los no outro.

domingo, 8 de julho de 2018

ENRICO PUCCI E O "CAMINHO PARA O CÉU"


Enrico Pucci é o antagonista de Stone Ocean, a parte 6 do mangá Jojo's Bizarre Adventure. Embora ele seja o "cara mau", seus objetivos finais são muito mais admiráveis do que os da heroína Jolyne Kujo (a minha "Jojo" favorita ao lado de Johnny Joestar). Jolyne quer sair da prisão, salvar seu pai (recuperando sua "alma" roubada por Pucci) e derrotar Dio Brando, enquanto Pucci deseja reiniciar o universo para que este exista sem o "mal", transformando-o em "céu". Embora Pucci seja um filadaputa e possa ter feito coisas ruins, por um ponto de vista mais analítico, ele é inocente e suas ações são de certo modo justificadas.

O próprio mangaká Hirohiko Araki, personificado no narrador deste conto, questiona ao leitor: "De quem é a culpa de todo o mal desta história? Cabe a você, leitor, decidir".
Na minha opinião, Enrico Pucci é uma das vítimas. Sua vida é governada pelas circunstâncias.


Foi seu irmão gêmeo fraterno, Weather Report (Domenico Pucci), quem foi trocado pelo filho natimorto de uma mãe desesperada na maternidade. Enrico poderia ter sido o escolhido...

Quem é Enrico Pucci?

Parte de uma família muito rica e descendente direto de um Papa, Enrico Pucci buscou cedo, na tenra idade de 15 anos, estudar em um seminário para se tornar padre.
Foi ele quem escolheu escutar a confissão da mesma mãe desesperada que sequestrara seu irmão, até então considerado morto. Enrico poderia ter escolhido não escutar aquela confissão...


Sua irmã mais nova, Pearla, estava naquele momento vivendo um romance com o seu próprio irmão, agora conhecido como Wes Bluemarine, desconhecendo a verdade por trás daquele encontro.
Enrico estava desesperado por sua irmã. Ele sabia a verdade. Mas o que poderia fazer? Ele descobriu a verdade através de uma confissão. E ele se via na obrigação de zelar por seus votos sacerdotais.

Enrico tinha a consciência de que a revelação de uma confissão é punida com a excomunhão. E por outro lado, ele temia pela salvação da alma de sua irmã, que cometia o grave pecado do incesto, mesmo que a verdade não fosse do seu conhecimento. Enrico protegeria sua irmã, ele não permitira que ninguém a machucasse, não se importando com os meios necessários para isso.


O silêncio sacramental do sacerdote em relação aos pecados ouvidos em confissão já foi utilizado como um tema de fundo em inúmeros filmes, inclusive, em um dos melhores filmes de suspense de todos os tempos, dirigido com brilhantismo pelo mestre Alfred Hitchcock. Trata-se de A Tortura do Silêncio (I Confess), de 1953. E o mestre Hirohiko Araki utilizou-se também deste tema belo e interessante.

Os fins justificam os meios? Quais foram as medidas tomadas por Enrico para proteger Pearla? Por uma quantia considerável de dinheiro, da qual Pucci estava mais do que disposto e capaz de fornecer, ele contratou uma agência de detetives particulares. A agência ameaçaria o Wes para separa-lo de Pearla, posando como um grupo de membros de gangues ameaçadores para intimidá-lo.

As estipulações? Seria realizado com rapidez, não-violência, profissionalmente, e sem perguntas. No entanto, Pucci não levou em conta dois detalhes cruciais: a curiosidade humana e o preconceito.
A agência ocultara de Pucci suas afiliações antigas com o movimento Ku Klux Klan (KKK), a seita religiosa secreta do sul dos Estados Unidos. E por eles foi descoberto que Wes era fruto de um relacionamento inter-racial. Diferente de Enrico, Weather Report, tinha a pele clara, mas ainda era considerado negro.


Ao ver o casal compartilhar um beijo de boa noite, quatro dias depois de Pearla ter se aproximado de seu irmão, o detetive-chefe da agência assumiu uma raiva malévola.
Dentro de uma noite, Pearla foi atacada e molestada, enquanto Wes foi linchado e enforcado, pendurado em uma árvore. As cenas são muito fortes como se descrevessem os casos reais documentados durante a história.

O tempo todo, o detetive-chefe fez questão de avisá-los que foi o irmão de Pearla quem lhes dera autorização para aquela atividade. Depois de tudo dito e feito, Pearla desceu seu irmão da árvore, e em seu desespero, pulou do penhasco cometendo suicídio...

Curioso Enrico Pucci ter sido o único poupado da violência. Enrico Pucci é mulato, ele aparenta ser negro. Embora tenha nascido nos Estados Unidos, é descendente de imigrantes italianos (Ele é ítalo-americano). É católico, e ainda sacerdote...
A KKK teria motivos de sobra para pendura-lo em uma árvore ou ao menos queimar algumas cruzes na porta da sua casa ou diante da igreja onde ele comunga...


Os WASP ("White", "Anglo-Saxon" e "Protestant") da KKK não veem Enrico como americano, eles são extremamente agressivos com católicos, negros, latinos, judeus, nativo-americanos, asiáticos, e a lista segue.
A KKK é, na verdade, o conjunto de diversos grupos de extremistas, e não um só grupo. Embora tenha tido milhões de membros, atualmente ela conta com apenas alguns adeptos.

Os Estados Unidos são um país fundado por imigrantes desde a sua origem, mas, paradoxalmente, importantes facções políticas convencidas de que a imigração deveria ser drasticamente limitada sempre estiveram presentes. Muitas vezes, as justificativas para essa rejeição à imigração tiveram, como hoje, um tom étnico quando não abertamente racista. As limitações são sempre dirigidas a populações consideradas em qualquer época indesejável, desde os alemães no século XVII até os mexicanos, centro-americanos, passando pelos irlandeses e italianos, chineses e japoneses, franceses e russos, judeus da Europa Central e povos do Mediterrâneo em geral.

Procurem ler sobre o movimento Nativista iniciado nos Estados Unidos no século XVII. E assistam ao ótimo Gangues de Nova York, de 2002, dirigido por Marin Scorsese.


Muitas vezes exacerbado em situações de crise econômica, a persistência desses sentimentos mostra que há algo mais. A história dos movimentos nativistas nos EUA não começa em Charlottesville, mas vem de muito mais longe: desde seu nascimento como nação.

Mas voltando ao mangá... Provavelmente porque a notícia de um suicídio estava apenas começando a se espalhar, ou provavelmente devido ao fato de que a agência havia incendiado a casa dos Pucci momentos antes de atacar Wes e Pearla, Enrico entrou em cena em pouco tempo.
Ao ver o corpo morto de sua irmã sendo retirado do rio, ele desesperadamente entrou naquelas águas, puxando-a à força das mãos dos resgatadores e levando-a de volta à praia. Ele teve apenas um minuto para gritar e chorar pela sua irmã, o seu porto seguro, a pessoa que o jovem mais amou em sua vida. E mal ele poderia imaginar que a sua vida mudaria completamente a partir do seguinte acontecimento...

Por que ele seria uma vítima?


Em primeiro lugar; ele foi educado pela igreja a acreditar nos conceitos religiosos da fé e na vontade de Deus. Como um sacerdote, ele se via como parte da vontade de Deus e discípulo da fé. Além disso, como um homem religioso, foi criado para acreditar que "os fins justificam os meios"... (Isto não é uma crítica direcionada exclusivamente ao fanatismo religioso, mas a qualquer tipo de fanatismo.)

Em segundo lugar; Dio mudou o destino de Pucci ao curar o seu pé deformado de nascença na igreja. Foi Dio quem incentivou Pucci a fazer coisas antiéticas para "alcançar o céu". 

Em terceiro lugar; se não fosse pela flecha Stand (presenteada por Dio), Pucci teria renunciado a sua crença. Quando sua irmã comete suicídio e Wes quase morre, Pucci questiona profundamente sua vida. Se ele não tivesse conhecido Dio e ganhado a flecha, ele teria renunciado a sua crença e encontrado significado em outro lugar. Infelizmente, quando a flecha entra em seu corpo, sua fé em Dio também fica encravada. 



O primeiro poder que Enrico ganhou da flecha tinha tudo a ver com o seu sentimento. A capacidade de armazenar a "alma" e as memórias de qualquer pessoa em discos. E ele preservou para sempre as memórias de sua amada irmã em um destes discos.

Enrico Pucci é um personagem falho, mas de certa forma bem-humorado. Dio apenas se aproveitou de toda esta doutrinação. Em última análise, Pucci não fez nada de errado; foram suas circunstâncias e o azar que o levaram a fazer o que ele fez. O destino não foi gentil com ele. Seu objetivo final era puro; chegar ao "céu", e trazer todo o universo com ele.

"Meu malvado favorito" é o Enrico Pucci. Ele é um personagem simpático e até talvez identificável. Eu admiro seu amor pela perfeição e seu firme objetivo. Seu compromisso inabalável com seu propósito e sua genuína tentativa de reconciliar o mundo com suas crenças. Tenho profunda empatia por suas deficiências. Embora na superfície ele possa parecer um personagem unidimensional (fanático religioso), vejo Enrico como uma grande quantidade de contradições de ação e crença; um personagem extremamente humano, inocente e justificado.

Dio Brando, antes de sua morte, assassinado no Egito por Jotaro Kujo (trineto de Jonathan Joestar), estava pesquisando métodos para conceber um mundo perfeito através do uso de Stands altamente potentes, registrando todas as suas análises detalhadas e explicações abrangentes em um diário. Mas tais anotações foram lidas e consequentemente queimados pelo próprio Jotaro Kujo.


Oficialmente empregado em Green Dolphin Street Prison, uma prisão fora das zonas úmidas do Cabo Canaveral, Pucci trabalhava como um Sacerdote Prisional, desempenhando seus deveres pastorais. Sob sigilo, Pucci governou a prisão a partir das bases: inserindo discos de Stand em criminosos para controlá-los.
Seus capangas? Que tal um brucutu que atrai meteoros do espaço sideral? Uma jovem com a capacidade de bloquear a memória de curto prazo das pessoas até o limite de três informações? Uma versão made in China de Charles Manson? Uma Mulher-Plâncton?

Pucci supostamente também planejara uma sentença ilegítima poder vigiar seu irmão gêmeo (que sobreviveu ao massacre), mantendo-o na prisão onde vivia como um amnésico quieto e excêntrico.
Pucci mantinha seu irmão vivo na prisão unicamente porque havia pensado em salvá-lo eventualmente da "maldição" colocada sobre ele desde o dia em que nasceu.

"Você é o tipo de mau que não sabe que é mau... esse é o pior tipo que existe." É assim que, nas últimas circunstâncias, Weather Report definiu o seu perturbado irmão.


Enrico Pucci não transmitia ameaça, espelhava uma imagem rigorosa sem parecer autoritário, obstinado sem parecer excessivamente intrusivo. Ele mantinha alguns vestígios duradouros da religiosidade clássica: Dio descreve-o como um homem sem necessidade de poder político, fama, riqueza ou desejo sexual. Seus motivos para assumir o controle da prisão não eram para se deliciar com o controle que a autoridade fornece. Pelo contrário, ele estava mais do que satisfeito em seguir as regras de seus supostos superiores, desde que seus objetivos não fossem comprometidos.
Ele movia as ações para os seus planos pedindo educadamente aos outros, em vez de distribuir ordens impetuosas. Ele rezava. Ele tinha a Bíblia aprendida de cor. Ele ouvia a adoração religiosa em seu tempo livre.

Apesar dos seus ideais, Pucci era um tanto excêntrico. A amplitude de sua inteligência era quase ilimitada. Ele exibia um claro fascínio pela aritmética, biologia e psicologia. Estava mais do que disposto e pronto para discutir em grande detalhe a fisiologia de um animal ou as mensagens subliminares em cartazes de campanha ou a criptozoologia, não importando o quão triviais sejam os fatos concretos. E como Dio, ele era excelente em exalar um senso de compaixão e carisma quando necessário. Era a intensidade de sua devoção que atraía a admiração de tantas pessoas (os guardas da prisão, os filhos de Dio...). Pucci realmente acreditava estar fazendo a coisa certa. Não apenas por si, mas pela nobre busca de um futuro melhor para a humanidade como um todo.

Dependendo de quem você pergunta, alguns dirão que há poucos que podem rivalizar com ele em termos de generosidade, especialmente quando comparado aos severos guardas prisionais ansiosos para dispensar violência a qualquer sinal de desordem.


É de seu interesse que pessoas venham a segui-lo. Quando a oportunidade se apresenta, ele prefere delegar agressão àqueles considerados pecadores irredimíveis, em parte para manter as aparências, em parte para reafirmar seu próprio senso de virtuosidade. Para a causa de Pucci, ou as pessoas vivem uma vida de pecado, ou são utilizadas para um propósito maior do que elas. Até certo ponto, ele não acredita em reforma pessoal, o que tanto justifica quanto contraria sua descrição oficial de trabalho, dependendo da sua avaliação. Uma vez que você nasceu amaldiçoado, você morre amaldiçoado. É uma questão simples de destino. Pucci está convencido, esta era está amaldiçoada, os Joestars são amaldiçoados... assim como todo aquele que se opõe a ele.

Por que ele é um vilão?

Dio estava usando Enrico Pucci? Ou será que foi Enrico Pucci quem estava usando Dio?
Fundamentalmente, Pucci é um homem totalmente incapaz de se examinar em termos de certo ou errado, porque simplesmente não há "errado" para ele em suas ações. Arrependimento e vergonha não têm lugar em seu raciocínio. Porque se fizessem, serviriam como lembretes insuportáveis ​​dos erros de seu passado, ou pior ainda, da pergunta confusa sobre sua responsabilidade pessoal com relação a Wes e Pearla. Desde sempre, o lema "coisas ruins não acontecem com pessoas tementes a Deus" foi vigorosamente doutrinado em sua psique. Para lidar com as muitas contradições de sua vida, "coisas ruins" são apenas obstáculos, não consequências, o que elimina a responsabilidade pessoal, e "coisas boas" são sinais divinos de que ele está destinado. Claro, Pucci não tem problema em flexionar seus músculos de atenção seletiva em todos os lugares, alimentando seu senso de superioridade a alturas extremas sob as mais generosas estimativas. Seus ideais intelectuais, sua devoção, sua lealdade, tudo isso é mais do que suficiente para justificar seus meios, por mais sinistros ou corruptos que pareçam.


Enrico Pucci e Claude Frollo são personagens similares, no 
sentido que em suas trajetórias é dito que ambos praticam o
"mal" e o chamam de "bem". São incapazes de verem o mal 
que há em si mesmos, apenas veem o mal que há no outro.

A marca de violência de Pucci é dissimulada, não bárbara, totalmente maquiavélica em sua execução. Ele está inclinado a lutar na presença de outro perigo presente e, muitas vezes, arquiteta deliberadamente seus confrontos para que seus oponentes enfrentem dilemas internos importantes.
Pucci não fechou os olhos para suas próprias fraquezas, é um planejador especialista, graças a uma paciência duradoura e a sua forte convicção.

Mesmo o menor indício de incerteza, de mãos dadas com a sensação de perder o controle, é o suficiente para lhe dar surtos de ansiedade nervosa. Combinado com uma demonstração rigorosa de contorção de mãos, contar números primos é seu mecanismo de enfrentamento em tempos de alta tensão, unicamente pelo fato de que eles não podem ser divididos por eles mesmos além de 1: o "número de Deus", um símbolo de invencibilidade eterna. Em suas próprias palavras? Isso lhe dá força. Deus está sempre no controle e, como Pucci se considera o embaixador mais dedicado de Deus, ele também deve estar sempre no controle. Até mesmo sua ideia de "céu" é aquela em que todos os humanos nasceriam sabendo o que está além do horizonte de seu futuro, para que possam resignar-se a seu destino com dignidade. Em última análise, Pucci subscreve uma forma radical de fatalismo religioso, aumentada por uma infância em que o desconhecido o condenou a tumultos.

Avançando para 2011. Enrico Pucci não contava que seu plano infalível para alcançar o céu tivesse uma falha crucial... A filha de Jotaro Kujo, Jolyne Kujo, tinha uma tenacidade capaz de envergonhar os mais durões heróis do cinema brucutu. Mas infelizmente todos os acontecimentos conspiraram a favor de Pucci e ele foi capaz de ler as memórias de Jotaro, o que era necessário para completar o "caminho para o céu".


* a partir daqui, Spoilers dos últimos capítulos da parte 6 do mangá * Pucci alcançou uma das maiores contagens de corpos de protagonistas que um vilão poderia sonhar. Todos os heróis (Jolyne e seu pai incluídos) pereceram em suas mãos... Pucci adquiriu a habilidade de alterar o tempo relativamente a tal ponto que gerou uma singularidade e, bem, reiniciou todo o universo, elevando-se efetivamente a algo semelhante à divindade.

Como eu disse: a vida de Pucci é governada pelas circunstâncias, do começo ao fim. E, no final, foi Emporio, aparentemente o herói com menos poderes, quem acabou matando-o. Como? Pouco antes do fim, bem no momento da morte de Weather, este deu a Jolyne seu disco Stand - que continha o seu poderosíssimo Weather Report - na esperança de que ela pudesse usá-lo para acabar com o seu irmão para sempre. Jolyne então deu aquele disco a Emporio, sabendo que Pucci sequer sabia da existência do garoto... Em um esforço para fazer um golpe letal nele, Pucci acidentalmente empurrou o disco Stand de Weather na testa de Emporio, fazendo com que a concentração de oxigênio na sala fechada em que se encontravam subisse exponencialmente. O padre foi vencido por sua própria habilidade! Embora seu relógio biológico estivesse funcionando normalmente, o tempo corria a velocidades incalculáveis e por isso ele estava respirando a uma velocidade muito superior.

Intoxicado por oxigênio 100% puro e imobilizado, Pucci implorou a vontade de Weather de deixá-lo viver, pelo menos até que sua "ascensão" ao céu estivesse completa, para que o universo não fosse reiniciado sem ele, pelo bem da humanidade.
A vontade de seu irmão, entretanto, não permitiu que Pucci sobrevivesse. A morte de Pucci foi por causa da retribuição acima de tudo, a vingança demorou a chegar.
Emporio foi devolvido são e salvo, mas o estrago foi feito: Emporio teria que viver agora em uma realidade alternativa, como a única pessoa que tinha uma noção do que havia acontecido antes da reinicialização do universo.

"O caminho para o céu" decifrado

A "receita" para alcançar o céu registada no diário de Dio Brando: o osso de Dio; as vidas de 36 humanos que cometeram pecados (os 36 prisioneiros residentes em Green Dolphin Street Prison), porque estes guardam um grande poder dentro de si; e os 14 nomes (Escada Espiral, Besouro Rinoceronte, Cidade Fantasma, Figueira, Besouro Rinoceronte, Via Dolorosa, Besouro Rinoceronte, Ponto de Singularidade, Giotto, Anjo, Hortência, Besouro Rinoceronte, Ponto de Singularidade, Imperador Secreto).


O osso de Dio evoluiu para um estado semelhante a um bebê de cor verde, o Green Baby, que ao se fundir ao Stand Whitesnake de Pucci, levou este a evoluir para o Stand C-Moon, que futuramente tornou-se o Made in Heaven, o Stand definitivo de Pucci.

O Made in Heaven pode controlar a gravidade de todos os elementos do universo, fazendo o tempo avançar de tal forma que, em um momento, dia e noite tornam-se um só. No céu, o Sol era visto apenas como um rastro luminoso. E Enrico Pucci tornou-se imbatível. Por estar sincronizado com a passagem do tempo, ele está sempre se movendo com velocidade infinita. Do ponto de vista de quem o vê, ele está sempre se movendo, mesmo quando está parado.
Então chegamos a um ponto em que o universo entra em colapso, sendo aniquilado, enquanto outro universo é construído em seu lugar.

No quadro abaixo temos, na coluna da esquerda, cada um dos nomes ditos por Enrico Pucci para causar a fusão do Whitesnake com o Green Baby e, na coluna da direita, o seu suposto significado.

Escada Espiral
O Começo
Besouro Rinoceronte
Desenvolvimento
Cidade Fantasma
O Apocalipse
Figueira
Poder sobre a natureza
Besouro Rinoceronte
Desenvolvimento
Via Dolorosa
O caminho do sofrimento
Besouro Rinoceronte
Desenvolvimento
Ponto de Singularidade
O Fim
Giotto
Criando um novo começo
Anjo
Mensageiro
Hortênsia
Renascimento
Besouro Rinoceronte
Desenvolvimento
Ponto de Singularidade
O Começo
Imperador Secreto
Deus

E a seguir, para finalizar, descrevo e especulo sobre as possíveis inspirações que Hirohiko Araki buscou para justificar a escolha de cada uma das palavras. Lembrando sempre, claro, de que é tudo apenas especulação...


Escada Espiral: tempo e humanos são elementos que nos conectam diretamente ao Made in Heaven. O tempo pode ser pensado como um loop, ao menos quando termina, mas ao mesmo tempo, o tempo nunca termina. Tempo também é o começo, o começo de tudo. E qual o começo da vida? O que uma escada espiral lembra você quando pensa no começo da vida? DNA, o código de toda a vida e a espiral que começa tudo.


Besouro Rinoceronte: inseto da subfamília Dynastinae, a subfamília dos escaravelhos. Os escaravelhos têm um enorme efeito na história do Egito.
Khepri era o deus do renascimento. Acreditava-se que ele renovava o Sol a cada dia. Seu nome influenciou inclusive a própria língua. O verbo "Khepre" significa "renascer", "desenvolver".
Pucci o cita quatro vezes. E você pode relacioná-lo às quatro estações ou aos quatro estágios do desenvolvimento que o Green Baby passa (Osso de Dio, Green Baby, C-Moon e Made in Heaven). Logo, besouro rinoceronte é igual a renascimento.


Cidade Fantasma: este é o item mais fácil de especular. Deve significar o Apocalipse, isto é, fim de tudo.


Figueira: você já deve estar familiarizado com a história de Adão e Eva.
Qual era o fruto proibido? A maçã deve ter sido a sua resposta, porém...
Dizem que no Gêneses nunca foi mencionado qual é o fruto proibido, no entanto Adão e Eva usavam folhas de figueira para se cobrirem, por isso há uma teoria de que o fruto proibido seria um figo - símbolo do desafio a Deus e a uma maldição.


Adão e Eva desafiaram Deus. E quando Jesus amaldiçoou uma figueira, demonstrou sua autoridade sobre a natureza. Assim, podemos deduzir que figueira representa o controle sobre a natureza, o que é ainda mais interessante quando você lembra do irmão de Pucci que literalmente pode controlar a natureza.

Besouro Rinoceronte: é citado novamente anunciando um segundo estágio no desenvolvimento.


Via Dolorosa: O "caminho do sofrimento", o "caminho da tristeza", simboliza a luta, a dor ou qualquer tipo de dificuldade no caminho para o céu.

Besouro Rinoceronte: terceiro estágio do desenvolvimento.


Ponto de Singularidade: na física do espaço, no centro de um buraco negro, há uma única dimensão unidimensional. Neste ponto ridiculamente pequeno, a densidade e a gravidade tornam-se infinitas, e o espaço-tempo curvado infinitamente.
Conexão perfeita com o funcionamento do C-Moon e do Made in Heaven.
Após o fim do universo há o ponto de singularidade, onde o universo original acabou e um universo novo nasceu, basicamente é o ponto onde o fim acabou, mas o início ainda não começou.


Giotto: não é um lugar ou uma "coisa", mas uma pessoa. Giotto di Bondone foi um artista do Renascimento, aparentemente o primeiro de uma boa quantidade de artistas durante esse tempo.
Sua arte pode ser interpretada como uma visualização da Bíblia.
O nome deste personagem histórico pode representar uma visualização, especialmente por aparecer após o Ponto de Singularidade. O começo que não pode ser visualizado, mas possível de ser visto porque está entrando em forma.


Anjo: significa mensageiro.
É apenas especulação, mas pensem nisso: quem ajudou Pucci a completar seu plano mesmo contra a vontade dele? Ninguém senão o próprio Jotaro Kujo.
Se Jotaro nunca tivesse lido o diário de Dio antes de queimá-lo, Pucci nunca poderia saber como alcançar o céu porque sua pesquisa nunca chegaria a tão longe. Jotaro queria salvar o mundo, mas acabou sendo a razão para o sucesso do Made in Heaven.


Hortênsia: florescer, afinal é o que as flores fazem. As hortênsias são plantas que precisam de muita água, o que se conecta ao seu próprio nome que vem de duas plavras gregas: Hydrangea, hydros (água) e angos (navio). Este nome também representa  uma vasilha de batismo, símbolo de regeneração, renascimento, etc.
O renascimento que houve foi o do Green Baby porque o corpo de Dio é o corpo de Jonathan Joestar (do pescoço para baixo). Então houve o renascimento de Jonathan... Bem, a genética de Dio é meio louca quando pensamos em Green Baby, Giorno e seus meio-irmãos.

Besouro Rinoceronte: quarta etapa do desenvolvimento.

Ponto de Singularidade: o fim dos fins e o começo dos primórdios.


Imperador Secreto: imperador é símbolo de poder, autoridade e paternidade. Mas, por que ele é um segredo? Porque não sabemos como ele é. Uma pessoa que você nunca viu, fé e essas coisas...
Sem mexer com as sensibilidades religiosas de ninguém, o imperador secreto deve ser algo como Deus. O ponto de singularidade vem antes do imperador secreto porque é a transição para o começo de tudo. Logo, o elemento mais significativo para um homem como Enrico Pucci.


36 vidas de criminosos sacrificadas? O osso de Dio? No futuro talvez possamos amarrar estes dados com os significados reais dos 14 nomes. 

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