domingo, 8 de setembro de 2019

A HISTÓRIA QUE MATOU SAINT SEIYA


Há bastante tempo Saint Seiya morreu.

"Morreu" pode parecer uma conclusão extrema e exagerada, mas acredito que o leitor irá concordar com a maior parte dos argumentos expostos nesta postagem.

Saint Seiya, os Cavaleiros do Zodíaco, é uma franquia que está morta, ou pelo menos encontra-se em um tipo de coma criativo, já que com relação às vendas, ainda tem angariado bons números.

Muitos já devem estar pensando: "Morto? Mas sai uma série nova quase todos os anos".

Ok, mas quantas destas séries foram realmente boas? O que esta franquia ofereceu nos últimos anos?

Soul of Gold não passou de um fan service genérico para vender mais brinquedos apoiando-se na popularidade dos Cavaleiros de Ouro.

O animê de Saintia Sho foi, infelizmente, uma péssima adaptação que sujou a reputação do seu mangá de origem, feito com o único objetivo de vender brinquedos capitalizando o fã mais hardcore, incluso o otaku caçador de waifus.


Mas a "punhetagem" foi novamente em cima da popularidade dos Cavaleiros de Ouro.

O animê Saintia Sho, além de resgatar o traço clássico de Shingo Araki para chamar a atenção do público otaku da melhor idade, coloca as Saintias (As "mulheres cavaleiros" sem máscara e verdadeiras protagonistas do mangá) em segundo plano, trás uma história extremamente corrida, suprimindo importantes acontecimentos do mangá, e é difícil não suspeitar que tudo foi assim executado para que os Cavaleiros de Ouro entrassem logo em cena.


Saint Seiya Omega (Só não chamo este de "Saint Seiya Super" porque, felizmente, ninguém o tornou canônico) falhou miseravelmente na execução de todas as suas novas ideias apresentadas, para vender mais brinquedos e nostalgia no lugar de qualidade.

A única vez em que nos foi oferecida uma série realmente boa e sólida foi com a adaptação do mangá The Lost Canvas que acabou terminando como um fracasso comercial. E ainda há fãs viúvas e iludidos esperando uma terceira temporada deste animê. Esqueçam. Não parece que acontecerá.

Cavaleiros do Zodíaco da Netflix... melhor nem comentar.


A última vez que a saga clássica tentou fazer algo com integridade artística e tratando de explorar de forma profunda as temáticas da franquia foi há mais de 10 anos com O Prólogo do Céu, um filme cheio de sutilezas e sub-textos... que também foi um fracasso.

O Prólogo do Céu é um filme profundo, com uma animação espetacular e uma história maravilhosa. É o meu filme favorito da franquia, e fico feliz por saber que não sou o único a pensar desta maneira acerca deste trabalho de extrema qualidade. Ele prova porque a franquia foi uma das mais bem sucedidas do seu tempo, mais até do que Hokuto no Ken, a qual sempre foi comparada.

Muito mais interessante para o público espectador (e para as lojas de brinquedos) uma série formada por um grupo de heróis com suas diferentes personalidades com os quais pode se identificar e variados poderes especiais como protagonistas do que uma série semelhante que conta com um único super-lutador no papel principal como é o caso de Hokuto no Ken.

Então qual o estado atual de Saint Seiya? Na minha opinião, desta série restou apenas uma "franquia zumbi" que hoje só pode oferecer execuções áudio-visuais medíocres.

Por outro lado, temos também várias opções (melhores) envolvendo o nome da franquia em mangá.

Temos  Saint Seiya Episode G Assassin, um mangá que apesar de parecer quase uma fanfic glorificada, é interessante e expande a história dos cavaleiros de Athena, apesar de seus exageros presentes desde o Episode G clássico e a sua arte "poluída".


O mangá de Saintia Sho é um spin-off, mas ainda assim respeitável, com boas histórias e personagens.

E ainda temos alguns mangás originais de Kurumada com algumas ideias recicladas.

Quem então teria dado o tiro de misericórdia que matou a franquia?

Muitos poderiam culpar a Bandai, por financiar péssimas adaptações animadas apenas para turbinar o seu catálogo de brinquedos. Ou poderiam escolher a Toei como culpada por produzir estas animações medíocres, mesmo sendo o estúdio com o maior número de animações e capital financeiro.

Não tiro a razão da revolta contra a Toei, mas esta foi na verdade apenas uma cúmplice, quando o verdadeiro responsável por esta tragédia é ninguém menos que o próprio... Masami Kurumada.

Next Dimension, a continuação canônica do mangá original assinada por Kurumada, não é um crime contra a obra. Aliás, eu gosto bastante deste mangá. Mas é preciso separar as coisas.

Eu gosto de Next Dimension, mas também não posso dizer que ele é um mangá excelente. Apesar de trazer ideias novas e interessantes, ele recicla demasiadamente ideias antigas, como uma nova batalha nas 12 Casas.

Deve ser a terceira vez que os Cavaleiros de Bronze precisam cruzar as 12 Casas, e isso só contando obras canônicas. E sem falar do terrível esquema de publicação do mangá Next Dimension, alongando forçosamente o ritmo da história.

Com a aparição de um promissor e intrigante personagem, Odysseus de Ophiuchus, muitas destas coisas pareciam ter sido solucionadas, mas o dano já estava feito. Agora que finalmente temos uma história nova e com um grande potencial, teremos que esperar anos para que Kurumada a finalize.


Next Dimension não chega a ser daninho para a obra clássica. Ao menos não é um Dragon Ball Super da vida, porque este sim destruiu uma boa obra clássica, tornando-a irreconhecível, cagando em conceitos e desconstruindo e flanderizando personagens icônicos.

Enquanto Next Dimension tem sim muita coisa boa e interessante, por outro lado este mangá não afeta em nada a história de Saint Seiya e definitivamente não funciona como uma continuação. Então, se você não gostar de Next Dimension, pode simplesmente ignorá-lo, isso não interfere em nada.

O mesmo, entretanto, não pode ser dito dos outros mangás assinados por Masami Kurumada, as duas armas as quais ele utilizou para matar a sua franquia: Saint Seiya Episode Zero e Saint Seiya Origin, mangás canônicos que supostamente narram os acontecimentos anteriores à história do mangá original.


Para começar, Episode Zero tem uma execução pobre. Aliás, MUITO pobre. Resumidamente, Masami Kurumada intentou produzir uma versão oficial para a história do escape de Aiolos com o bebê Athena do Santuário, sendo desta vez perseguido por Afrodite, Shura e Máscara da Morte.

Mas o que temos nesta história são versões completamente simplórias, planas e eu diria até idiotas de todos estes personagens. E, para piorar, esta história tornou o cavaleiro de Sagitário o personagem mais genérico, simples, tedioso, pouco memorável e tosco de toda a série. Quem diria.

Aiolos era o irmão severo, porém justo, de Aioria. Esta é a imagem que a maioria do público casual de Saint Seiya têm do sagitariano. Ainda que o treinamento de Aioria tutelado por Aiolos seja um filler do animê clássico, esta era a imagem mais recordada pelo público acerca do personagem, e quando você pensa em "expectativa versus realidade", há sim uma grande perda com este mangá.

O Aiolos do mangá original, após salvar Seiya do ataque de Aioria, protegendo-o com a sua armadura, sugere que seu irmão menor cometa suicídio por duvidar da palavra e por lançar seu ataque contra a deusa a qual ele supostamente deveria proteger.


A ideia de retratar um escape oficial de Aiolos junto com o bebê Athena já cheirava a caça-niqueis. O mangá original apenas nos entrega que Aiolos fugiu do Santuário junto com Athena, foi acusado injustamente de traição e foi assassinado por Shura. O que aconteceu entre a fuga de Aiolos e o seu encontro com Mitsumasa Kido não faz diferença nenhuma para a história. Isso nunca foi relevante.

Já tivemos várias versões não-canônicas para a fuga de Aiolos como o filler tosco produzido pela Toei no episódio clássico da série animada (Episódio 65: A espada sagrada ruge), o original mangá Episode G e o game Saint Seiya Online.

Nestas três versões clássicas, Shura é o único oponente poderoso que surge barrando o caminho de Aiolos. E, aparentemente, Shura sozinho foi capaz de ferir mortalmente aquele cavaleiro de ouro que era considerado o mais poderoso em atividade naquela época.

O Episode G descreveu este acontecimento de maneira aceitável, sem prejudicar ou desconstruir a imagem de nenhum dos personagens envolvidos. Entretanto, com Episode Zero tudo isso muda. Nesta nova versão descobrimos que Aiolos não enfrentou apenas um, mas três cavaleiros de ouro. E tanto Aiolos quanto seus três perseguidores agem de forma estranha e retardada, como num filler tosco da Toei já mencionado.


Por que Aiolos não se protege com sua armadura? Por que Shura, Afrodite e Máscara da Morte apenas atacam um oponente que claramente não quer lutar e ainda carrega um bebê que ele só quer manter seguro? Por que todos atacam indiscriminadamente antes de fazer perguntas?

Ao que tudo indica, os três dourados já estavam à par da traição de Saga e de que este ocupava a cadeira do Pontífice, entretanto, como vemos nos últimos momentos do confronto deles com o cavaleiro de Sagitário, Shura, Máscara da Morte e Afrodite não tinham intenção real de matar Aiolos. No fim, Shura, sem alternativa melhor para tirar Athena dos braços de Aiolos, deu o golpe de misericórdia. Ele desejou que seu amigo morresse com hombridade, como um samurai, e convence seus companheiros de que o melhor a se fazer seria aguardar que Athena renascesse algum dia.

Apenas após este golpe, Shura demonstrou arrependimento em lágrimas, o que é estranho porque em sua primeira aparição no mangá original, ele se apresentava a Shiryu na casa de Capricórnio, como orgulhoso por ser o responsável pela morte do "traidor".

Nada disso ficou claro. A péssima escrita deste mangá também o leva a estranhas conclusões.

O caça-níquel perde ainda uma oportunidade para desenvolver os personagens. E por que não? Mas os cavaleiros dourados do século XX já eram carismáticos, sem a necessidade de conhecermos o passado deles, embora isso pudesse dar um maior peso e carga dramática a cada um deles (Vide Episode G). Mas isto é um shonen mangá, e, para este tipo de história, não importava a sua unidimensionalidade, ainda seriam ótimos personagens para o tipo de escrita.

O tema central de Saint Seiya original era a justiça e as diferentes formas de promovê-la. Algumas das opiniões seguintes são particulares das visões que tenho a respeito dos já mencionados personagens...


No mangá original, a ética de Shura era o agir pelo dever. Ele era o cavaleiro mais devotado à justiça. Ser o mais fiel à deusa Athena não passa de um filler cretino. E a ética deste cavaleiro só poderia ser atingida através do livre arbítrio. A sua vontade se embasava na moralidade e suplantava os instintos. Para Shura, tudo era preto no branco. Ele, obviamente, não reconheceu Athena, quando ela veio ao mundo.

Shura era um traidor e não um iludido, como o animê fez parecer. Shura sabia de tudo, a traição de Saga, a inocência de Aiolos e também a identidade de Saori como Athena, mas ainda assim manteve-se calado e leal ao Santuário. Por suas convicções acerca da força, da moral e da justiça, viveu anos tentando se convencer de que estava do lado correto da história.

Acreditou que seu silêncio poderia ajudar o Santuário a proteger a justiça do mundo, mas aconteceu justamente o contrário, ele só piorou tudo. Assassinou Aiolos, que era seu amigo mais próximo, e por isso precisou conviver com a culpa de executar aquele que era o único cavaleiro que merecia ser chamado de "mais fiel à Athena".

Quando colocamos tudo isto em retrospecto, o sacrifício e posterior redenção de Shura, confiando a Shiryu o seu poder (Excalibur) e a sua missão, ganha um peso ainda maior.


Afrodite, tal como Shura e Máscara da Morte, não reconheceu em Saori alguém a quem confiar o mundo. Muitas pessoas podem não reconhecer, mas ele poderia ser quase tão cruel quanto o Máscara da Morte. A diferença estava em sua ideologia.

A filosofia do pisciano pode ser resumida na seguinte frase: “agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar”. Ele não se importa com o fraco que haveria de perecer nestas batalhas. Para Afrodite, a perfeição era o objetivo principal do cavaleiro da justiça e pessoas podem ser prejudicadas para o benefício da uma maioria. Seria Afrodite um utilitarista?

Máscara da Morte... Veremos este mais adiante...

Episode Zero e Origins são prequelas mal escritas, e gostaria agora de citar um exemplo de uma prequela que foi muito bem escrita.

O filme especial de Dragon Ball Z para a TV, conhecido no Brasil como Bardock, o pai de Goku é o melhor exemplo de uma prequela muito bem feita, e na qual todos os roteiristas de mangás do mesmo estilo deveriam ter como inspiração.

Vejam como estou sendo honesto. Escolhendo uma obra contemporânea a Saint Seiya, feita para a mesma audiência e que incluso foi publicada na mesma revista.

O filme de Bardock segue sendo um exemplo excelente de como se deve fazer uma prequela. Se este filme tivesse sido feito do mesmo jeito que foi feito Episode Zero, seria algo que apenas mostraria Goku saindo de sua nave ao chegar a Terra, alguma cena com Frieza utilizando alguma técnica nova, destruindo algum planeta, algum cameo insignificante e fim.


Mas não. Este capítulo anterior a saga de Dragon Ball é uma história que se sustenta por si mesma e não só isso, era diferente. Tem um tom mais trágico e não se tratava da história de um herói salvando o dia. Foi a história de um guerreiro saiyajin, que era bastante sanguinário, mas tratou de proteger o seu povo que lhe deu as costas, sendo considerado um louco que tinha visões apocalípticas. Este guerreiro rompeu os seus limites, e morreu, perdendo-se no esquecimento.

Sim. Dragon Ball já foi um animê maravilhoso (Saudades). Akira Toriyama é infinitamente mais nocivo para Dragon Ball do que Masami Kurumada foi com CDZ recentemente.

A única maneira de conhecermos esta história sobre Bardock é vendo o filme em questão, diferente dos eventos de Saint Seiya Episode Zero, os quais você não precisa ler o mangá para conhecê-los, porque já conhece toda a história que ele descreve.

Agora com Saint Seiya Origin poderíamos até oferecer a Kurumada um prêmio. Ele definitivamente conseguiu realizar um trabalho que em muito foi pior do que Episode Zero em todos os sentidos! Com esta história, Masami Kurumada matou Saint Seiya!

Saint Seiya Origin conta a história do nascimento de Saga e Kanon. Pois bem, aqui é revelado que Saga tornou-se um instável bipolar por culpa de uma Espectro surgida do nada chamada Ker. Estes são novos elementos por si só restringem a história e, para entender isto, observe as mudanças que foram acrescentadas à história.


Similar ao caso Athena, nascida dos céus como um bebê em Episode Zero, assim que se aproxima uma nova Guerra Santa, nasce o primeiro cavaleiro de ouro, e este é transportado por uma estrela cadente a sua respectiva casa zodiacal no Santuário (?).

Fazer com que os cavaleiros dourados cheguem ao Santuário desta maneira apaga completamente o seu passado. Agora precisamos aceitar que todos os 12 dourados foram criados lado a lado, isolados do resto do mundo que não conhecem.

Assim, não há mais a possibilidade de pensar em momentos que poderiam ter marcado suas respectivas infâncias, o que ajudaria a explicar as suas distintas visões de mundo. E estas diferenças existem. Cada um dos Cavaleiros de Ouro têm a sua particular e distinta definição do que é justiça.

Poderíamos finalmente imaginar que Máscara da Morte teria essa personalidade e valores tão corrompidos por alguma experiência terrível do passado ou algo assim, mas agora não. Por que ele é mau? Caiu de cabeça da sua estrela cadente ao chegar ao Santuário?


Máscara da Morte, por alguma razão que desconhecemos, é violento, malvado e maligno, entretanto a sua armadura de ouro ainda o reconhecia (ao menos até a sua luta contra Shiryu na casa de Câncer). Nunca nos foi explicado a causa para isto. Mas qual seria a melhor explicação para a maldade do personagem? Talvez uma infância sumamente violenta que torceu o seu espírito? Assim poderia ter sido Manigold em Lost Canvas se ele não tivesse sido acolhido pelo Patriarca do Santuário...

Ok. Aqui também é o caso de que para o tipo de mangá, tais acontecimentos não teriam tanta importância para a história. Máscara da Morte é mau e só isso importa. A rivalidade entre ele e Shiryu ainda segue sendo a mais memorável de todo o mangá. Porém, estes novos elementos acrescentados por Kurumada acabam prejudicando em muito a sua obra.

O mesmo pode ser dito de Saori/Athena. Comparando também com caso Lost Canvas, a personagem Sasha tem o conflito de ser separada dos que ama para liderar os cavaleiros em uma guerra, buscando estar a altura da Athena original e deixando o seu lado humano para trás. Tudo isto fazia com que Sasha e até certo ponto Saori fossem mais interessantes.


Agora precisamos aceitar que todas as reencarnações de Athena são criadas no Santuário sem conhecerem o mundo que devem proteger porque nascem do céu e caem no templo do Patriarca. No lugar de encontrarem as razões para lutarem por este mundo nos seus respectivos passados, os cavaleiros e a sua deusa precisam proteger o mundo simplesmente porque este é o seu destino.

Outro gravíssimo problema neste mangá é deixar implícito que o Santuário esteve "desativado" durante dois séculos. Sendo então "reativado" somente com o surgimento de uma nova geração de cavaleiros. Isto contradiz uma das ideias mais poderosas do mangá original chamada "legado".

Em parte, Saint Seiya trás a ideia de tomar o manto daqueles que viveram antes, seguir com sua luta para proteger a humanidade, o que pode ser visto na vontade de Aiolos, de Dohko e outros.

Lost Canvas complementou esta ideia com a história de Hasgard de Touro, o Aldebaran de Lost Canvas, um cavaleiro passando sua armadura, seu nome, suas experiências, erros e sonhos a seus estudantes, em um ciclo generacional.


O conceito de cavaleiros que não lutaram em guerras santas, mas que são pontes entre as mesmas, comunicando e reforçando o que uma geração há 200 anos viveu a atual, é muito mais potente do que "bom, acabou a Guerra Santa, então vamos fechar o Santuário por uns 200 anos".

É interessante ver Mu treinando junto ao seu mestre Shion em Saint Seiya Origins e compreender como foi que se estabeleceu a sua relação com Dohko e finalmente entender como é que o Mestre Ancião vigia os Espectros nos Cinco Picos. São detalhes bons, ainda que muito simplistas. Mas e os demais cavaleiros?

Milo e Écarlate têm os mesmos golpes (Agulha Escarlate, Agulha Escarlate de Antares, Restrição), Ox e Aldebaran idem (Grande Chifre), etc. Como os sucessores aprenderam os golpes de seus antecessores? As armaduras vem com manual de instruções? Algumas pessoas teorizam a reencarnação que é uma ideia que particularmente abomino por ser extremamente fácil e preguiçosa.

Em Lost Canvas, os discípulos de Hasgard se encarregaram de transmitir tais técnicas, e em Episode G Assassin vemos que Shura foi treinado por Izo enquanto Máscara da Morte foi por Death Toll, os respectivos cavaleiros de Capricórnio e Câncer do século XVIII (Obviamente isso foi possível através de métodos viajantes diferentes do caso de Dohko que recebera uma benção de Athena que lhe permitiu passar dos 200 anos de idade).

Todas situações presentes nestes outros mangás são muito mais interessantes, mas infelizmente não-canônicas.


Agora chegarmos ao ponto principal desta crítica: a presença de um novo personagem que arruinou completamente Saint Seiya: a deusa Ker.

A deusa Ker é uma personagem totalmente desnecessária em todos os aspectos. Percebam que usei a palavra "desnecessária" no lugar de "incoerente". O plano da deusa é rebuscadamente desnecessário, e ainda é uma personagem que foi integrada a história muito tempo depois, mas que o autor quis retroativamente inserir no cânon, tratando de convencer a audiência de que ela sempre esteve aí, tipo o que acontece com Bills em Dragon Ball Shit Super.

Ker é apresentada como irmã dos deuses Thanatos e Hypnos e como a deusa do destino, embora na mitologia grega original seja reconhecida como a deusa da morte violenta. Além disso, sua representação mais comum na mitologia era de um grupo de espíritos malignos com a forma de mulheres, as Keres ("Ker" era um singular).

Quando Saga e Kanon recém-nascidos chegaram a casa de Gêmeos, Ker enviou um "terceiro bebê", um espírito maligno chamado Lemur. O plano da deusa era simplesmente possuir o recém-nascido Saga com um tipo de "fantasma" para que ele destrua o Santuário por dentro e para infiltrar-se a vontade no Santuário.


E no final deu tudo errado.


Deusa inútil!


A pergunta que fica é: Se ela é uma deusa capaz de entrar no Santuário e mexer com a mente de qualquer cavaleiro, apagando a sua memória no processo, porque ela simplesmente não matou a Athena e os Cavaleiros de Ouro quando ainda eram crianças?

A verdade é que jamais deveria ter sido estabelecido uma personagem assim neste ponto da história com uma origem para conflito da dualidade de Saga de Gêmeos, ainda que usando esta personagem de uma forma mais inteligente.







Deusas de inteligência comparável.





Outro problema com presença de Ker é que TODOS neste mangá, igual ao que acontece em Episode Zero agem como idiotas. Ker, com o seu plano estúpido, é realmente uma idiota. Shion, por outro lado, pode ser considerado o pior destes casos. Por um lado, ele tem dúvidas a respeito de matar um Espectro porque este tem a forma de um bebê, mesmo sendo um veterano que lutou na Guerra Santa e tendo ideia do que o exército de Hades é capaz. Porém o suposto bebê é uma merda de um vórtex negro, não passa de uma massa escura. Quem veria isto como um bebê?

O autor claramente força o personagem a agir de forma estúpida e incoerente para desenvolver de uma forma artificial certos eventos que de uma outra forma não poderiam acontecer.

O plano de Ker de introduzir um terceiro bebê só foi bem sucedido devido a um pequeno retardo mental que fez com que Shion duvidasse se deveria matá-lo. De nenhuma outra maneira isto funcionaria.

Porém a pior parte de todo este mangá é que não só Saint Seiya Origins inseriu retroativamente uma personagem idiota enfraquecendo a saga das 12 Casas, como também desconstruiu um dos melhores antagonistas de Shonen de todos os tempos, Saga de Gêmeos, que de um homem incompreendido e atormentado por poderosas e conflitantes convicções, passou a ser uma marionete manipulada pelos deuses.


Algumas das maiores críticas ao estilo Shonen pancadaria total recai sobre a previsibilidade dos acontecimentos da sua narrativa. Entretanto, a revelação de Saga de Gêmeos como o responsável por toda a crise do Santuário durante a dita casa das 12 Casas foi uma das mais incríveis e inesperadas surpresas deste mangá.

Ainda mais quando o "vilão" revela diante de Seiya o rosto de um homem sobrecarregado de remorsos e que chora lágrimas de dor e arrependimento, para na outra cena revelar-se um demônio sedento por sangue.

A ideia de um antagonista com um conflito tão forte era muito interessante. No mangá original, em nenhum momento é dito de forma clara qual seria a origem do desdobramento de personalidade de Saga, mas havia a presença de nuances e ideias poderosas para a sua origem.

Os mais comuns sintomas da suposta condição psiquiátrica de Saga descritos na literatura estavam presentes. O sujeito portador do desdobramento de personalidade pode levar duas ou mais vidas sem que uma tenha consciência da existência da outra, portanto uma patologia ainda mais grave do que a esquizofrenia.


Como o esquizofrênico, Saga ouvia vozes que ditavam a sua conduta, e a relação das duas personalidades antagônicas do personagem, em um matiz de preto e branco, era como a relação entre o Doutor Jekyll e Mister Hyde, do clássico literário O Médico e o Monstro.

Este clássico inspira também outros personagens da cultura pop em geral, como a relação entre Norman Osborn e o Duende Verde e o caso Harvey Dent e Duas Caras. Mas a verdade sobre Saga era muito mais complexa do que isso.


Comparando novamente a condição de Saga ao relatado em estudos psiquiátricos, as personalidades assumidas pelo portador de um desdobramento de personalidade podem representar identidades criadas subjetivamente e que atendem aos anseios mais íntimos do indivíduo. Cada caso de personalidade pode ser vivido como se possuísse uma história pessoal distinta e própria, auto-imagem e identidade próprias, incluso com nomes diferentes.

Existe geralmente uma identidade própria, portadora do nome correto do indivíduo, frequentemente esta identidade costuma ser a passiva, dependente, culpada e depressiva, e eventualmente taxada de covarde pela outra ou outras personalidades.


As identidades alternativas têm nomes e características que contrastam com a identidade primária, como por exemplo virulência, hiper-atividade e/ou auto-afirmação exacerbada. Outras personalidades particulares podem emergir quando a pessoa se encontra em circunstâncias específicas ou altamente exigentes em termos emocionais.

O número de identidades relatadas pode variar de 2 a mais de 100, e metade dos casos examinados inclui indivíduos com 10 ou menos identidades. As causas podem estar associadas a abusos sexuais ou algum outro tipo de forte choque emocional durante a infância.

Provavelmente o fã de animê, deve lembrar-se do caso do icônico vilão Shinobu Sensui da série Yu Yu Hakusho, que manifestava 7 identidades distintas, cada uma com nome e personalidade diametralmente opostas: Minoru (o argumentador), Kazuya (o psicopata assassino), Naru (uma garota tímida e insegura), dentre as mais famosas. E a origem do seu desdobramento de personalidade está justamente relacionada com um poderoso choque emocional que sofrera.


Em Jojo's Bizarre Adventure Parte 5, a relação entre o vilão Diavolo e sua outra persona, chamada Doppio, é também semelhante em seus sintomas ao Transtorno Dissociativo de Identidade. As personalidades criadas subjetivamente atendem as ânsias mais profundas do indivíduo. Bem semelhante a Saga de Gêmeos, cada estado da personalidade pode ser vivido como se possuísse uma história distinta pessoal e própria. Mas Doppio não sabia que ele e Diavolo eram a mesma pessoa, configurando um tipo de amnésia, algum dos sintomas das pessoas que sofrem deste transtorno.

O caso de Diavolo já era muito ambíguo no mangá, e o animê conseguiu torná-lo ainda mais ambíguo. O personagem nascera de sua mãe em uma prisão feminina, com seu pai morto há 2 anos. E mesmo quando bebê, ele já encara as pessoas e os seus olhos mudavam de maneira semelhante ao que víamos quando suas personalidades trocavam.

É discutível se Doppio e Diavolo são personalidades divididas. Ficou implícito que poderiam ser almas separadas, compartilhando o mesmo corpo (O Silver Chariot Requiem parece confirmar isso). Isto faria de Diavolo uma espécie de quimera distorcida como o resultado das circunstâncias incomuns do seu nascimento.


Ainda que o termo desdobramento de personalidade seja mais adequado para o cavaleiro de ouro de Gêmeos, Saga não era psiquiátrico, mas um homem que sofria. Alguém que, assim como nós mesmos, tem um pouco de escuridão dentro de si e que pode chegar a dominá-lo.

No caso de Saga, a origem do seu transtorno seguia sem explicação oficial que suscitava muitas interpretações. Mas a verdade que o mangá original parecia querer passar era que Saga sim trilhava o caminho de sua personalidade má.

O antigo Patriarca Shion já desconfiava da conduta de Saga, por isso escolheu Aiolos no lugar dele para ser seu sucessor. E isto foi o que faltava para Saga finalmente revelar quem era, assassinando Shion à sangue frio para tomar o seu lugar.


Tornar-se o Grande Mestre era peça fundamental para os planos de Saga para mundo, e como Shion e Aiolos ficaram me seu caminho, precisou agir de forma impulsiva, mas ainda inteligente.


Você via que o cavaleiro de Gêmeos, escondido sob o elmo e as vestes sacerdotais do Grande Mestre, realizava vários atos bons como acalmar o coração de um ancião em seus momentos finais de vida, ou mesmo dando ordens como se fosse o verdadeiro Patriarca.


Muitos diziam que aquele Grande Mestre que servia à vontade da sua deusa Athena não parecia ser um humano, mas ele próprio parecia um deus. De fato, Saga não era um cavaleiro de ouro qualquer, é dito que ele poderia ser Deus e o Diabo, e isso pode dizer muito acerca de sua "enfermidade".

Após matar Shion e tomar o seu lugar, Saga seguiu todo o protocolo de um Sumo Sacerdote. Seu comportamento junto à corte do Santuário e as pessoas que viviam naquela região era bem diferente do monstro em que ele se transformava quando sua personalidade má se manifestava.

Quando os primeiros diálogos entre as duas personalidades de Saga ganharam linhas no mangá, ficou claro que elas estiveram juntas desde o nascimento dele. Quando a personalidade má se fazia presente, toda a humildade do personagem desaparecia, julgando que ambos, as almas que formavam aquele único ser, juntas seriam uma criação divina, uma perfeição encarnada.

Poderíamos concluir que toda aquela egolatria não era fruto de possessão demoníaca, mas sim dos sentimentos mais profundos e reprimidos de Saga.


Saga sofria tensos momentos de crise, entrando em conflito consigo mesmo, e ficou claro que uma das suas personalidades estava disposta a fazer o necessário para cumprir todos os desejos da outra (De fato, ficou explícito que ele assassinaria a qualquer um que se atrevesse a descobrir o verdadeiro rosto do Patriarca impostor), uma ideia que, considero eu, era muito mais potente.

A morte de Saga tinha um peso real. Ele se vê responsável por suas ações e, após um duro caminho em busca de redenção, termina com a cruel ironia de tirar a própria vida diante de Athena, implorando a ela o perdão por seus pecados.


Intuímos que Kurumada pretendia fazer no início um vilão mau não verdadeiramente mau, apenas que sofrera de um problema psíquico, dividido entre o bem e o mau, que o fizera sucumbir a seu lado obscuro e a seus demônios, o dilema de todo ser humano.

Com Origins já não é mais assim. Agora um "fantasma" é o responsável pela segunda personalidade de Saga que sim era má. Toda a complexidade do personagem, todo este sub-texto se perdeu, dando lugar para um história de possessão maligna.

Saga passou a ser uma vítima do contexto. Uma marionete manipulada. Agora a saga das 12 Casas não aconteceu devido a determinação soberba de um cavaleiro dourado, mas por um plano mal pensado que funcionou por casualidade e que foi feito por uma deusa que poderia simplesmente ter acabado com Athena muito tempo atrás. Então a saga das 12 Casas ocorreu em vão, por engano de um personagem novo.


É por tudo isto que considero que Kurumada matou ou pelo menos está matando Saint Seiya. Por um lado o seu revisionismo histórico está recontextualizando partes do mangá clássico, tornando-o substancialmente inferior. E, por outro lado, despreza o trabalho de outros autores que fizeram muito mais por seu mangá do que ele mesmo.




sábado, 6 de julho de 2019

COMO OS SUPER-HERÓIS SUBSTITUÍRAM O CINEMA DE AÇÃO (REVISIONISMO HISTÓRICO)


Como podem perceber, de uma certa forma os filmes de super-heróis têm substituído os tradicionais filmes de ação no cinema. Por mais que ainda tenhamos fodões como John Wick, ele não representa o perfil heroico ao qual gostaria de discutir agora.

Os filmes de super-heróis se converteram em um dos gêneros mais rentáveis e populares do cinema atual. Sobretudo observado após a compra dos direitos dos heróis da Casa das Ideias, a Marvel, pela Disney produzindo intermináveis sequencias semi-conectadas sem que o público tenha necessidade de acompanhar a todas. A maioria do público casual, isto é, não leitor de quadrinhos, simplesmente curte o gênero graças as suas espetaculares cenas de ação.

O objetivo desta postagem é apresentar como os filmes de super-herói passam para o público uma espécie de revisionismo histórico, diferente do que visto na era "cinema brutucu" cujo discurso político foi um reflexo ao então contemporâneo mundo polarizado pela Guerra Fria. O mundo mudou. O medo da distopia que vivíamos na década de 1980 já não é mais o mesmo.


Anteriormente, estávamos acostumados a todo o tipo de cenas de ação nesta época no cinema de ação tradicional. Eu mesmo cresci acompanhando estes inspiradores heróis do cinema brucutu. Considerados verdadeiros referenciais de masculinidade.

Mas este tipo de entretenimento do passado tem sido condenado pela sociedade atual mais moralista por contar com protagonistas que reivindicam esta masculinidade clássica e por supostamente fazer apologia a violência (algumas vezes contra grupos minoritários?), fazendo com que não seja apto a toda família e se considere daninho e tóxico por uma parte do público mais progressivo e sensível.


É importante destacar que, quando escrevo sobre isto, me refiro a audiência estadunidense. Muitos leitores provavelmente irão fazer associação com o famoso "politicamente correto", mas este foi também importado da terra do Tio Sam como muitas outras formas de expressão política e social. 

Por outro lado, o cinema de super-heróis sempre teve uma moral mais clara, com histórias da luta do bem contra o mal, e os protagonistas são, na maioria dos casos, heróis com códigos morais incorruptíveis que continuamente se sentem culpados se são ligeiramente duros com algum criminoso. 


Sem contar também que com os seus uniformes coloridos que atraem ao público infantil e, graças ao fato de terem super-poderes, não precisando recorrer às armas de fogo, permite que o gênero seja apreciado tanto por crianças quanto por adultos, sejam de qualquer país ou de qualquer credo político. 

Os pais agora não precisam se preocupar se seus filhos estão recebendo mensagens ruins de filmes violentos porque seus personagens são quase sempre modelos de conduta perfeitos. Não sou o primeiro a dizer que os super-heróis se converteram na mitologia da sociedade moderna.


Antes ainda de que fossem populares no cinema, dentro de seu material de origem, as Hq's, funcionavam como alegorias de como se comportar e apresentavam um mundo de bons e maus onde alguns seriam modelos quase divinos e asseguravam a justiça entre os homens.


Esta similaridade com figuras mitológicas é evidente desde o primeiro super-herói, o Superman, a quem seu pai o enviara a Terra para proteger os humanos, muitas vezes de seus próprios pecados.

Superman, ainda que não nos deva nada, se sacrifica pela humanidade com inesgotável compaixão e usa suas habilidades milagrosas para nos salvar uma e outra vez.  

Ele é basicamente um Jesus Cristo hiper-musculoso. E, mais adiante, o panteão de deuses se ampliaria, referenciando personagens das mitologias de crenças politeístas, criando dentro das Hq's um tipo de pseudo-religião.


Mesmo que as histórias das Hq's sejam pura ficção, a sua mensagem ainda é real e válida. E assim podemos permitir que elas se modifiquem com a evolução social dos nossos conceitos acerca do bem e do mal, no lugar de permanecer no dogmatismo que tornou as outras mitologias obsoletas, acompanhando a secularização da sociedade que vem à passos largos.


Que os super-heróis são a mitologia moderna é algo que agora tem muito mais importância, já que unificam a visão de mundo de diferentes sociedades graças a globalização da cultura. Incluso acima das próprias religiões de cada região ou sendo um substitutivo delas em países europeus, hoje majoritariamente laicos.


A mitologia, desde seu nascimento, sempre tem servido para explicar o mundo, os eventos sobre os quais não tínhamos conhecimento e sobretudo para explicar nossa origem, de onde viemos e para onde vamos.

Todos sabemos que o cinema de super-heróis não intenta fazer um retrato do passado. A popularidade e a força de suas histórias chega ao ponto que tem o efeito da reescritura de nossa história para as futuras gerações.

Estes filmes em sua maioria não seguem à risca o seu material de origem, que certamente é muito mais complexo que a versão cinematográfica e pode ser considerado como um material de valor histórico. Assim, como um modo de tornar tal material mais compreensível para a plateia atual, é necessário valer-se de temas modernos, como o liberalismo, o protecionismo, a questão dramática dos imigrantes refugiados, etc. O que é algo realmente admirável, mas em muitos casos parece inevitável a aparição de um revisionismo da história para torná-la mais palatável e menos complexa para o público atual, o que deve também facilitar a escrita dos roteiristas.

Assim cito alguns exemplos de revisionismo histórico presentes exclusivamente em filmes de super-heróis. Portanto, não adianta o leitor usar como argumento "mas na Hq original não é assim...". Exatamente, na Hq não é assim. 


O medo da distopia oitentista desapareceu neste tipo de entretenimento. E lembrando de que os super-heróis são um produto do seu tempo, representando os anseios da sociedade da época em que foram gerados. Leve em consideração que muitos super-heróis surgiram quando o mundo vivia a Segunda Guerra Mundial.

O primeiro caso de revisionismo acontece com o primeiro filme do Capitão América. Este se situava na Segunda Guerra Mundial, a guerra favorita do cinema, principalmente pelo brutal impacto que teve no mundo Ocidental e na política das décadas posteriores.


Entregar uma visão simplificada da Segunda Guerra Mundial não é nada novo. É o que vem se passando praticamente desde que ela acabou e quase sempre isso nos dá uma visão clara de uma luta entre maus malvadíssimos contra os defensores da verdade e da justiça.

Que Adolf Hitler foi uma das piores pessoas da história da humanidade, isso ninguém tem a menor dúvida. Mas o que o líder nazista fez foi bastante similar ao que qualquer outro império que intentasse conquistar o mundo havia feito antes: Reforçar o nacionalismo para levar ao genocídio e a invasão do resto do mundo. (Isto lembra ao leitor outros nomes de figuras políticas clássicas ou mesmo contemporâneas?)

Dito que a simbologia nazista vem diretamente do império romano, mas por sua proximidade histórica e pelo efeito que tiveram na Europa, os nazistas parecem ser praticamente os únicos monstros racistas sedentos por sangue dos quais nos recordamos, e nos filmes de guerra esta descrição é muito presente. 

Estamos tão praticamente certos de que os únicos demônios em pessoas eram os nazistas e os Aliados eram os heróis santos, que só de pensar em uma visão menos simplista do conflito seria seguramente um bom motivo para as pessoas o acusarem de nazista.


A verdade é que, em qualquer guerra, ambos os lados, no caso em questão Eixo e os Aliados, cometem atrocidades. Sobre os governos dos países Aliados, é fato que os norte-americanos também tinham campos de concentração para os cidadãos japoneses, inclusive para aqueles que nasceram nos Estados Unidos, adotaram práticas eugênicas de forma cruel, aliaram-se alguns dos regimes mais cruéis da história e, anteriormente, escravizaram milhões em suas colônias africanas. A maioria dos soldados alemães não trabalhavam em campos de concentração e realmente pensavam que estavam fazendo algo bom para o seu país que estava destroçado após a Primeira Guerra Mundial, sem falar que havia um grande ressentimento para com os judeus. A cruel propaganda nazista acusava os judeus de se valerem dos bancos para se pouparem do trabalho físico e mental, entre outras coisas. A falta de informação do povo alemão sobre os horrores que aconteciam veio com o fim da imprensa livre e com a destruição dos meios de comunicação pelo mais poderoso instrumento de propaganda, o rádio. 

O império Britânico, por outro lado, não era muito diferente do nazismo. Pergunte sobre história para qualquer um irlandês, indiano, aborígene australiano ou sul-africano. Os filmes tradicionais que retratam a Segunda Guerra foram feitos do ponto de vista judeu, já que esta comunidade controla os meios dos Estados Unidos e tem muito interesse em recalcar o mal que passaram durante a guerra para assegurarem-se não somente de que não se repita outro genocídio similar e também de que o Estado de Israel não receba demasiadas críticas, porque se asseguram de que qualquer um que expressar qualquer tipo de crítica sobre a comunidade judaica ou sobre o comportamento de Israel como nação seja tachado imediatamente como um antissemita ou diretamente como um nazista.


Israel recentemente fez jogo sujo na guerra da Síria, abertamente apoiando o filiado da Al Qaeda naquela invasão insana e preferindo assim o governo jihadista sunita que persegue cristãos e shiitas mais do que Assad. Também querem dividir a Síria em três ou quatro países, junto com o seu novo aliado, a Arábia Saudita (esta também aliada aos Estados Unidos), a qual já provocou uma crise humanitária pior do que a da Síria, iniciando uma guerra no Iêmen. Poderia continuar, inclusive falando da catástrofe que ajudaram a provocar no Sudão do Sul e a recusa da criação de um estado Palestino, o que faz de Israel um país onde metade da população não tem direito a voto. 

Uma coisa também precisa ficar clara: na Palestina também há cristãos (católicos e ortodoxos), a Basílica da Natividade, inclusive, se encontra lá. Mas, por motivos unicamente ideológicos, muitos preferem enxergar TODA a população palestina como terroristas perigosos, e ignoram estas comunidades, aqui minorias que sofrem perseguição de ambos os lados do conflito no Oriente Médio. Nem todos os árabes são terroristas. E inclusive os árabes da Palestina são mais semitas do que os judeus europeus.

Algumas verdades inconvenientes. Só estou convidando/provocando o leitor a ter uma visão menos simplista deste conflito. É uma coisa ilegal e nojenta que certos seguimentos censuram da população brasileira. São os fatos lamentáveis para onde o mundo está caminhando.


Voltando aos filmes, com o Capitão América tivemos inclusive, vinda diretamente das Hq's, uma versão própria dos nazistas, a organização Hidra, que se manteve durante toda a história do universo Marvel representando o medo do fascismo que permanece nas sombras, esperando o momento idôneo para estender seus tentáculos e destruir as sociedades ocidentais no totalitarismo.

Hitler é substituído pelo Caveira Vermelha, um vilão tão desagradável em seu aspecto exterior quanto em sua ideologia política, dando-nos uma versão incluso mais exagerada e extrema do nazismo que já não está mais confinado pelos limites de uma nação.

A parte da representação dos nazistas, também é destacável a representação dos Aliados que se mostram manipulados até certo ponto, já que usam o Capitão América como uma arma propagandística, entretanto não tão controlados já que este consegue facilmente entrar em batalha. E, de praxe, os Estados Unidos são apresentados como os heróis e salvadores de uma Europa dominada pelos nazistas.

Mais uma vez entregando uma estética infantil do conflito e sendo uma reescritura de uma realidade em que o avanço tecnológico armamentístico na Segunda Guerra foi evidente não por armas laser, mas pela aviação e a bomba atômica, uma arma que destruía civis e cidades indiscriminadamente, aqui substituída por um homem forte portando um escudo muito resistente.

A verdadeira força do Capitão América, entretanto, não está em seus músculos, mas em sua retidão moral e sua capacidade estratégica. E sua liderança natural é inspiradora como uma bandeira andante que lidera seus homens representando os melhores valores do seu país. Um autêntico líder. Mas neste universo, obviamente, ao final não há nenhuma menção ao lançamento das bombas atômicas.


O restante dos filmes Marvel Disney já não se situam mais no passado, e destaca-se a existência de uma agência governamental secreta que opera internacionalmente ignorando as leis dos países onde atua e desprezando direitos humanos básicos, prendendo ou matando sempre que considerado necessário.

Muito semelhante aos segredos revelados dos detalhes acerca de vários programas que constituem o sistema de vigilância global de NSA americana. Revelações estas que obviamente tornaram seus divulgadores perseguidos pelo governo dos Estados Unidos.

O discurso destes filmes aqui torna-se muito relevante e atual, ainda mais quando nos iteramos de uma agência governamental americana que espiona todo o mundo de forma ilegal. Sabemos hoje que inclusive o Brasil é alvo de espionagem por parte de órgãos de inteligência dos Estados Unidos. Uma outra verdade inconveniente que provavelmente, caso divulgada hoje seria, ignorada por uma parcela da população, que vê os Estados Unidos como um bastião da civilização ocidental, um título que muito provavelmente irão retirar dele caso os democratas voltem ao poder. Os Estados Unidos não tem amigos, tem interesses. E isso precisa ser dito.

É preciso aqui citar um ditado estadunidense que diz muito sobre a política internacional: "Não existe nada mais democrata do que um republicano na presidência e não existe nada mais republicano do que um democrata na presidência".


Não é "antiamericanismo". Não há nada de errado em se aproximar de outros países como os americanos, da mesma forma que não há nada de errado em uma aproximação aos israelenses ou aos árabes, contando que colocando os interesses da nação em primeiro lugar, e não para afagar o ego de um seguimento social contaminado por ideologias nocivas - como qualquer outra ideologia, aliás, nenhuma presta - respeitando a nossa democracia e preservando nossa soberania e nosso patrimônio nacional. A nossa soberania deveria estar acima de qualquer bosta de ideologia política!

Pantera Negra é um outro filme que reescreveu a história ainda que de uma forma mais sutil. É um filme excelente, que transcende um simples filme de super-heróis, assim como foi Logan, o qual também considero uma obra-prima.

Além de ser um dos meus dos meus favoritos do UCM, ainda foi premiado com vários Óscares. Para mim, Pantera Negra mereceu todas as suas premiações, mas este é o meu gosto e opinião pessoal. Afirmo isto porque é um estilo de filme do qual realmente gosto. Do mesmo modo que não compreendo por que Titanic recebeu tantas premiações e por que um Óscar para Leonardo Dicaprio demorou tanto para sair. Dicaprio é um puta ator, e nós só não gostávamos dele porque odiávamos Titanic.

Em Pantera Negra somos apresentados a uma nação africana que se manteve pura e intocável pela colonização conseguindo não perder os seus recursos por culpa do conquistador branco. Não apenas conservando seus recursos naturais como também tendo um desenvolvimento científico muito superior ao restante dos países.

Supomos que tudo isto por contar com um sistema educacional muito mais eficiente do que no restante do mundo. Mas como vemos no filme, seu sistema se baseia mais em uma membro da família real ser um gênio em todos os campos, comunicações, transportes, armamentística e medicina, sendo ela, entretanto, uma adolescente.

Mais uma vez nos é apresentada uma versão simplista da história, dando a ideia de que a colonização foi algo terrível e que os problemas atuais dos países africanos são unicamente por culpa da intervenção estrangeira, ideia que exploraram durante a promoção do filme. Usar os movimentos sociais é a estratégia promocional mais efetiva na publicidade atual.

Mas não se precipitem. Em nenhum momento quis afirmar que o colonialismo foi algo bom para a África. Basicamente os europeus invadiram outros países, escravizaram seus habitantes e exploraram seus recursos naturais para benefício próprio.


Entretanto também houve um intercâmbio cultural, econômico e político que alguns países souberam aproveitar para converterem-se em economias emergentes, enquanto outros caíram em uma sucessão de ditaduras constantes quando os colonizadores se retiraram.

Há unicamente dois países africanos que nunca foram colonizados e eles são a Libéria e a Etiópia, que infelizmente não acabaram por se transformarem na fantasia utópica de Wakanda apresentada em Pantera Negra. Assim, a ideia de que um país africano poderia ser incrivelmente avançado se mantendo livre do intervencionismo europeu acaba tornando-se pouco crível.

A isso somamos que para manter-se isolada do resto do mundo, Wakanda vive um tipo de autarquia sem nenhum intercâmbio econômico com o resto do mundo. As possibilidades deste país ser tão avançado são ainda menores, já que todas as ditaduras que tenham intentado fechar suas fronteiras econômicas para não dependerem de poderes estrangeiros apenas levaram seus habitantes a pobreza . Wakanda é um país rico em um material valioso, o vibranium, mas se não há intercâmbios em recursos com outros países, isso não serve de muito.

Este tema do liberalismo X protecionismo é muito recorrente, principalmente para a sociedade norte-americana atual. Mas o empenho de dar um sentido a história de Wakanda acaba nos entregando que por trás da imagem inicial de um paraíso, há na realidade uma das piores ditaduras do mundo. Para começar, precisam manter um sistema politico da monarquia para darem a ideia de que preservaram a sua identidade tribal, permitindo que o trono seja disputado por outros líderes que podem ganhar e tomar o controle do país lutando e matando seu rei, porque a lei do mais forte é estranhamente a melhor forma de eleger um líder e assegurar de que não acabará gerando guerras civis.

É um país que não tolera nenhum tipo de divulgação de seus conhecimentos além das suas fronteiras, vivendo em uma bolha em que as comunicações com o restante do mundo são altamente controladas. Recorda algum país atual? (Coreia do Norte, talvez?)

Esse controle extremo chega a um tal ponto que eles estão dispostos a matar compatriotas em outros países por revelar segredos nacionais ou por vender algum do seu precioso vibranuim, incluso se esse alguém seja irmão do rei.

Um dos arcos argumentais mais importantes do filme é quando T'challa (o Pantera Negra) se dá conta de que seu pai e seu país não eram tão perfeitos quanto ele acreditava e finalmente abrindo as fronteiras para ajudar o resto do mundo compartilhando os seus conhecimentos e avanços.

"Em momentos de crise, o tolo constrói muros, enquanto o sábio constrói pontes", foi o ditado nigeriano proferido por T'challa ao final do longa.

Killmonger (o primo de T'Challa) era um vilão com um incrível magnetismo para com o público porque ao final de tudo, ele tentou causar um golpe de Estado, mas introduzindo a democracia e liberdade para os wakandianos.


Nos filmes dos X-men também é visto todo um revisionismo histórico. Enquanto nas Hq's os mutantes tornaram-se uma alegoria para representar a discriminação contra as minorias, concretamente representando a luta pelos direitos civis por parte da comunidade negra americana, já que estes também eram odiados e temidos, lutando contra uma parte da população branca que os consideravam violentos e perigosos.

Nos primeiros filmes dos X-men, entretanto, criou-se uma maior similaridade com a comunidade homossexual, uma alegoria também presente nas Hq's, mas aqui ganhando maior equiparação. Assim como nas Hq's, os poderes mutantes se manifestam na adolescência com o despertar sexual da puberdade. Nos filmes também temos visto uma comparação com a perseguição sofrida pelo povo judeu.

Estas alegorias não funcionam igual com a comunidade negra já que, ainda que os judeus e os homossexuais tenham sido odiados muitas vezes, normalmente não eram temidos. Certos círculos da ultra-direita temem que os judeus estejam manipulando a sociedade ocidental para promover a homossexualidade e as relações inter-raciais para acabar com a civilização ocidental. Sério, tem gente que acredita nisso, do mesmo modo que tem gente que acredita que o planeta é chatinho, tipo o mundo da Unigata.


Há quem acredite em ambas boçalidades e talvez em outras mais... (suspiro)

Em Dias de um Futuro Esquecido, vemos em princípio a perseguição contra os mutantes nos anos 70, representando também uma alegoria ao medo comunista. Ainda que na realidade, por trás do Macartismo, foram os movimentos hippies que ganharam um relevo de perseguição em tempos de Guerra do Vietnã. Aqui é o movimento mutante que passa a ser o inimigo público número 1.

A verdade é que há mutantes (vilões) que dão muito mais motivos para serem perseguidos do que essas comunidades análogas do mundo real. Assim é uma similaridade muito problemática já que pode justificar a perseguição e o controle a certos grupos. O Magneto sozinho tem poder para destruir todo o planeta Terra! E há ainda mutantes muito poderosos e instáveis que não controlam plenamente os seus poderes. A única diferença entre a escola de Xavier e um acampamento do ISIS é que sim os mutantes de Xavier tem a capacidade para destruir todo o Ocidente. Mais uma vez, pela complexidade de conflitos presente nas histórias de suas Hq's de origem não poder ser transmitida em sua totalidade às versões cinematográficas, há margem para uma interpretação problemática destes X-men.

A parte importante da escola de Xavier é que os estudantes aprendam a usar os seus poderes e se preparem para lutar junto aos mutantes adultos enquanto estão minimamente preparados. Se não fosse a presença de Magneto, um líder terrorista autoproclamado, que faz com que Xavier pareça bom, todos veríamos que nem tudo parece tão claro. Falemos de um velho que rechaça qualquer intento do governo de criar um registro para saber quem tem poderes (ok), mas que construiu uma máquina para espiar e localizar todos os mutantes do mundo.


O exemplo mais claro de revisionismo histórico acontece com Mulher Maravilha, um dos melhores filmes do DCU, que usava do feminismo para promover-se como uma produção de importância social inigualável. Em Mulher Maravilha vemos a Primeira Guerra Mundial, ainda que poderiam ter utilizado a Segunda Guerra como plano de fundo, uma vez que os alemães que aqui aparecem são uma espécie de proto-nazistas. Mas uma vez a Guerra Mundial é retratada como um conflito entre bons e maus.

O nazismo era claramente uma ideologia altamente condenável, mas na Primeira Guerra Mundial, basicamente, todos foram vítimas. Foi um conflito complexo que levou a uma grande perda de vidas nunca antes vista devido ao avanço da tecnologia militar, com jovens de diferentes bandos sendo massacrados de formas horríveis, acabando com os antigos conceitos românticos do heroísmo da guerra.

A guerra não era um ato de valentia onde os homens poderiam demonstrar o seu heroísmo. Era um cenário sujo e patético, onde os homens se afogavam em poças de gás tóxico e eram deixados presos durante dias em arrame farpado e morriam às centenas a cada centímetro a que se avançava o seu exército.

Em Mulher Maravilha, entretanto, tudo isto é insignificante, não um conflito complexo, contendo um super-vilão, Ares, o deus greco-romano da guerra, que manipulava a todos os homens para se matarem entre eles. Tudo isto faz Ares parecer um tipo de proto-Hitler e os alemães uma versão descafeinada dos nazistas.

Por um momento, temos que a intenção do filme ao final era mostrar que Ares não era o verdadeiro provocador da guerra e que na verdade haveria uma reflexão inteligente com uma mensagem mais profunda:


Mas não. Ele aparece. Aí está Ares. Com amadura digital e tudo. A existência de Ares acabou atirando por terra toda a mensagem edificante que poderíamos aprender.

Um dos maiores erros da história moderna não foi consequência de estúpidas tensões políticas que poderíamos e deveríamos ter evitado, agora é culpa de um super-vilão que nos fez matar uns aos outros, negando nossa própria responsabilidade e tornando o conflito inevitável, dando a lição de que os humanos não podem evitar a guerras nem solucioná-las porque estamos à mercê da vontade dos deuses. Isso significa que no DCU a religião verdadeira é a antiga mitologia grega?


Outro detalhe interessante dentro deste mesmo filme é a presença da doutora Veneno, vilã clássica das Hq's e uma espécie de cientista louca malvada que inventa variantes de armas e gases venenosos. É interessante compararmos esta personagem àquele que é considerado o pai da guerra química, Fritz Haber, um dos principais responsáveis pelo descobrimento e produção de numerosos gases letais e, além disso, foi quem desenvolveu a síntese do amoníaco necessária para a criação de fertilizantes que ajudaram a assentar as bases da agricultura industrial atual, permitindo alimentar um mundo cada vez mais superpopulado, o que o levou a receber um Prêmio Nobel.


Sua história é um exemplo de que ainda que uma pessoa possa ser parcialmente responsável pela morte de milhares de pessoas, também pode ajudar na sobrevivência de muitas mais, demostrando que o saber e o progresso podem ser bons ou maus dependo de como e para que os usamos e que há possibilidade de redimir nossos próprios erros usando o esforço e o saber.

Chegamos ao final. E há muitos comentários aqui expostos que podem ser descontextualizados para entendê-los como racistas, antissemitas e antifeministas, coisa que até certo ponto seria justa. Porque o texto em si retira do contexto detalhes de histórias fictícias para criar um argumento. E por quê? Porque há uma evidente manipulação dos movimentos sociais visando unicamente o lucro e não uma preocupação sincera pelos grupos sociais (Eu acredito que ignorar as diferenças é também uma forma de preconceito). Sobretudo, odeio quando se promove uma visão simplista e dualista da história, dividindo os lados entre bons e maus, esquecendo o contexto histórico e dando a ideia de que todos os indivíduos de um lado eram iguais ou invertendo os papéis de bons e maus dependendo da visão a qual esteja na moda.

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