sexta-feira, 1 de março de 2019

O RELATO DE UM HOMEM ADULTO DIAGNOSTICADO COMO AUTISTA



Ano passado, passei por uma avaliação neuro-cognitiva. Nem sequer imaginava que estaria fazendo algo assim naquele ano, uma vez que havia me planejado para me concentrar apenas em minha pós-graduação.

Fui então diagnosticado com a Síndrome de Asperger (SA), um transtorno do desenvolvimento que afeta a minha capacidade de me comunicar e de socializar. Para os leitores que por um acaso ainda não ligaram o nome a pessoa, isso significa que eu sou autista.

A pouco conhecida SA é uma forma leve do autismo. Um autismo de alto funcionamento, vulgarmente conhecido - e põe vulgarmente nisso - como "autismo inteligente", e eu gostaria de compartilhar esta experiência com os leitores deste blog.


Digamos que fui conduzido por mim mesmo, devido certos comportamentos que pareciam inexplicáveis. A opinião de um profissional experiente poderia ser de grande ajuda. Tive a sorte de encontrar uma excelente psicóloga, uma vez que foram dias de longos e tediosos testes.

Meses após iniciar aquela avaliação, recebi o resultado daquilo que eu já suspeitava. Após apresentar todos os resultados dos meus testes de QI, habilidades sociais, etc, ouvi da boca da doutora as seguintes palavras: "você está no espectro".

Doutora P: ... Síndrome de Asperger.

Doutor Nerd: ...

Doutora P: Sabe o que é isso?

Doutor Nerd: Estudei psicologia no primeiro período da universidade, mas foi há muito tempo, então não tenho certeza...

Doutora P: A Síndrome de Asperger é um distúrbio do desenvolvimento que afeta a sua capacidade de se socializar e se comunicar com eficiência... É uma perturbação do espectro autista.

Doutor Nerd: (gargalhadas)

Doutora P: O que é tão engraçado?

Doutor Nerd: "O que é tão engraçado?" Ora, é que eu meio já sabia disso...

Isso mesmo, meses antes de receber o resultado, inspirado em minhas próprias experiências, dizia a mim mesmo: "Se ao final da avaliação, a doutora disser que eu sou autista, não será surpresa nenhuma. Isso, aliás, explicaria muitas coisas".

A medida que a doutora me explicava o que era tudo aquilo, passou um filme na minha cabeça. De repente, todas as peças começavam a se encaixar. Tudo agora fazia sentido.


Diagnosticado, agora é seguir adiante numa nova etapa da minha vida, sobre aprendizagem e os desafios comportamentais e emocionais que outrora pareciam inexplicáveis para mim. É preciso iniciar um processo para aprender a viver mais adaptado com o cérebro de um Asperger, o que pode ajudar também em demais aspectos da minha vida.

A doutora, surpresa com a minha capacidade de entendimento do que acontece com a minha mente, teve ainda mais certeza do meu diagnóstico.

Doutora P: Incrível! Você sabe o que está acontecendo consigo mesmo! Como foi que você chegou a essa conclusão sozinho?

Doutor Nerd: Baseado em comportamentos de estereotipia... Tudo o que me acontecia batia com tudo o que eu aprendi sobre o autismo... Vendo documentários na TV, na internet, lendo livros na universidade e com exemplos na vida real... Todos os esteriótipos eram um tanto identificáveis.


No começo do ano passado, quando ainda nem imaginava que passaria por uma avaliação neuro-cognitiva, comecei a ter desconfianças sobre meu comportamento peculiar. Passava horas meditando e pensando sobre tudo isso.

Até que um dia, indo de carro para a universidade para encontrar com a minha professora orientadora do meu projeto de pós-graduação, eu tive um tipo de "epifania"...


Bizarro, não é? A minha capacidade de percepção do que há comigo é tão alta, que eu já desconfiava do meu próprio diagnóstico, mesmo sendo um leigo no assunto - não sou psicólogo - e, portanto, sem ter o conhecimento de que existiam formas tão leves de autismo que um portador poderia até passar desapercebido na multidão.

Durante toda a minha vida eu sentia que havia algo de errado comigo. E esse meu diagnóstico mudou esses pensamentos.

Quando soube do meu diagnóstico, percebi que nada estava errado comigo, mas eu sabia que algo estava prestes a mudar.

Como a SA é um transtorno ainda muito pouco conhecido, os seus portadores são frequentemente alvo de preconceito e discriminação. Esta síndrome afeta a nossa interação social recíproca e a comunicação verbal e não-verbal. Temos resistência em aceitar as mudanças, inflexibilidade de pensamento e campos de interesse estreitos e absorventes.


Nem todos os portadores da SA são superdotados. Isso é mito. Eles se tornam obcecados e apaixonados por certos campos do saber que requerem treinamento (matemática, música, etc), o que permite que eles se destaquem.

Desde criança, eu já tinha essa percepção de que era "diferente" frente aos meus colegas de classe. Mas o Asperger não é uma doença. Não somos esquisitos, nem loucos. É apenas a nossa maneira de receber e processar a informação que é diferente. Eu sentia muita necessidade de me explicar, porque me sentia incompreendido por meus colegas de escola.


E não são apenas as crianças portadoras da síndrome que sofrem, os seus pais também podem igualmente sofrer com o julgamento da sociedade.

As crianças com essa condição podem ser hipersensíveis a certos ruídos, cores, texturas, etc. Então se bloqueiam e se comportam de um jeito que parece "birra".

Há quem interprete esse comportamento como malcriação - Eu já ouvi muito isso! - e acham que os pais precisam ser mais enérgicos. Os pais, frequentemente, se sentem julgados e incompreendidos frente a sociedade. Eles sentem culpa.


Eu lembro de tudo agora. Minha mãe me levou a vários médicos quando eu era criança. E ninguém sabia ao certo qual poderia ser meu problema. Os pais acabavam injustamente culpados pela ignorância dos outros.

Uma criança com SA é muitas vezes categorizada como muito tímido - muitas delas sequer tem a habilidade de olhar nos olhos da pessoa com quem conversa. Na verdade, elas só precisavam de um pouco de atenção extra.

Diferente do "autismo clássico", as habilidades cognitivas do portador da SA estão em sua maioria preservadas e algumas delas estão inclusive muito acima da média (Meu QI de processamento é de 133), mas isso não é tão foda quanto parece.

Eu ouço todos os sons ao mesmo tempo, fico completamente sobrecarregado, não entendo nada da linguagem não-verbal e olhar nos olhos de outra pessoa é uma experiência quase dolorosa. A tendência é a de me impor um auto-isolamento.

Nas palavras da minha psicóloga: "Veja, você até sabe o que você tem... Você sofre porque você sabe o que está acontecendo com você, mas não tem as ferramentas para lidar com isso".


Falhamos em nossas interações sociais porque somos muito rígidos. Não entendemos bem a linguagem não-verbal e temos uma tolerância muito baixa para aqueles que não se encaixam nos padrões que estabelecemos. Eu passei por inúmeras situações hilárias justamente por todas estas características que acabei de descrever.

Resumindo, temos dificuldade em compreender o mundo em que vivemos. Imagine, viver completamente isolado em um mundo que você não pode compreender e vice-versa.

Finalmente tenho as explicações para todas as situações bizarras nas quais estive envolvido na infância e principalmente na adolescência e início da fase adulta. Surgem as explicações para os rótulos os quais a sociedade me impôs.

A SA pode ser uma forma muito leve do autismo, mas ela me afetou muito.

No dia seguinte ao diagnóstico oficial com a psicóloga, lembro-me de ter saído do meu trabalho e parar nos meus pensamentos no meio da praça: "Eu me sinto normal".

Por que, depois de todos esses anos, eu finalmente me senti "normal"?

Ainda estou tentando descobrir o que isso significa. Porém, por mais estranho quanto isso possa parecer, minha vida faz sentido agora. Eu não me sinto fora do lugar e desajeitado. Eu acho que a melhor coisa que saiu disso é agora ter o sentido de que minha vida inteira foi finalmente validada.

Quando eu digo às pessoas que sou "autista", e as reações delas são principalmente “Uau, eu nunca teria adivinhado isso. Você não age como se tivesse autismo".

Quero então dizer a elas: "E como eu devo agir?" Você não pode dizer que uma pessoa está no espectro apenas olhando para ela.


Enquanto tento explicar o que significa estar no espectro, posso vê-los começar a se interessar pelo que estou dizendo e começam a me fazer perguntas. Eu respondo da melhor maneira possível usando exemplos da minha própria vida.

Embora eu esteja feliz por finalmente saber qual o meu "problema", às vezes fico muito aborrecido, revoltado.

Como teria sido a minha vida se eu tivesse sido diagnosticado quando criança em vez de um adulto na casa dos trinta anos?

Eu me pergunto em meus próprios pensamentos: "E se eu fosse uma criança agora, eu seria diagnosticado? O quão diferente teria sido a minha vida se eu tivesse descoberto a SA com uns 13 anos de idade ou menos?"

Eu sempre tive uma grande tendência ao isolamento, fui alvo constante de bullying durante todas as fases da minha vida. Na faculdade era vítima de colegas e, pasmem, até mesmo de alguns professores.

Eu era um alvo muito fácil em meu distanciamento, em minhas poucas palavras e em meu temperamento pavio curto e intolerante.


Tenho características temperamentais muito complicadas para um homem que escolheu seguir a área da saúde como profissão. Perco a paciência muito fácil, e tenho uma tolerância extremamente baixa para com gente que categorizo como ignorante e arrogante.

Mas quem tolera gente assim, não é?

Quando me encontrava em algum grupo e esse tipo de pessoa dava sua opinião estúpida sobre um certo tema, antes dela terminar seu raciocínio, eu já sabia qual seria o final do seu discurso, e a minha tendência era me aborrecer e me afastar. Ou pior. Isso já aconteceu mesmo no meu ambiente de trabalho.

Mas ninguém suspeitava de autismo.

Passei por vários outros psicólogos e assistentes sociais antes desta recente avaliação neuro-cognitiva e nunca ninguém pensou na ideia de que eu poderia ter SA.

Era frustrante não saber porque me sentia tão diferente. Ninguém parecia saber.

E quanto mais eu leio sobre o autismo de Asperger, mais me eu vejo nele... Especialmente no aspecto social disso.

Esta poderia ser a resposta que eu estava procurando por toda a minha vida?

Interesses restritos, apego extremo a rotinas e rituais, dificuldades em compreender o abstrato, ser literal e muito racional, além da dificuldade de entender emoções e relacionamentos. Como não me dei conta disso antes?

Por isso muitos nos catalogam como tímidos acima de tudo, silenciosos, sem empatia e solitários.


Você que está lendo esta postagem tem filhos? É adulto e acha que precisa de alguma ajuda? Por que deve procurar ajuda e se tratar caso diagnosticado?

A SA pode ficar no caminho da sua carreira. Você parece nunca conseguir um emprego que reflete suas habilidades, mesmo que todas as credenciais sejam ótimas no papel.

A SA pode ficar no caminho do começo de suas amizades. Você tem dificuldade de fazer e/ou manter amigos, e não sabe porquê. Mesmo que envolvidos em uma atividade que você compartilha, você não constrói relação pessoal com outras pessoas.

A SA pode fazer você ficar obsessivo em determinados temas. Você poderia procurar saber sobre a oportunidade para expandir os seus interesses.


A SA pode dificultar a sua vida pessoal. Conhecer pessoas é essencial para conseguir trabalho, namorar e até mesmo encontrar um casamento feliz.

A SA pode dificultar o seu romance. Se namorar já é difícil para alguns, imagine para quem tem SA.

Precisa de ajuda? Que tal começar com um diagnóstico?


A SA pode ser a razão para você ter algum tipo de fobia. Você fica facilmente “esmagado” quando há muito estímulos sensoriais em atividades/eventos os quais você gostaria muito de fazer parte.


Adendo: O episódio da animação infantil Arthur When Carl Met George se aventura em um tema espinhoso (o autismo) para as crianças e lhes ensina com uma bela descrição o que é a Síndrome de Asperger.

Imagine que você está em um planeta estranho. É como a Terra, mas é um pouco diferente - as pessoas falam mais alto, dizem coisas estranhas e algumas coisas são mais engraçadas para você do que para elas. É difícil no começo porque as pessoas não te entendem e acham que você é estranho. No entanto, você aprende a se ajustar. Às vezes você encontra um interesse especial que ajuda você a lidar com a vida no planeta. Eventualmente, você e as pessoas encontram maneiras de se entender: elas falam mais quietamente e você usa as suas gírias. Embora você possa se encaixar, você sempre se sentirá um pouco diferente, mas tudo bem. (Esta não é a explicação exata no episódio, mas apenas uma versão condensada.)


SA pode estar lhe afetando na escola. Você pode não entender a linguagem não-verbal e a comunicação com os colegas e professores pode ser prejudicada.

Você pode obter a ajuda e as acomodações que você precisa para concluir os cursos, testes e entrevistas para o tão sonhado trabalho.


A SA pode ser um problema em uma relação importante.

O diagnóstico de SA pode ser a chave para a obtenção de serviços que você precisa.

Você pode ter encontrado problemas em toda a sua vida, ser isolado, com pouco dinheiro, ou mesmo na necessidade de uma melhor habitação.

O diagnóstico pode qualificá-lo para uma variedade de serviços e benefícios.


Você tem se sentido “diferente” a sua vida inteira. Agora, você está esperando para encontrar uma comunidade de pessoas que recebem quem você é, como você pensa, e até mesmo como você se sente.

O diagnóstico pode ser aquilo que faltava para você entrar em contato com grupos de apoio e se conectar com uma comunidade.

O diagnóstico pode inclusive abrir portas para novas amizades em grupos ou comunidades.


Eu acho que eu tinha duas coisas trabalhando contra mim enquanto crescia. A primeira foi que o autismo não era tão conhecido quanto é hoje...

Isso foi tudo que eu ouvi crescendo... que eu era tímido e quieto.

Isso sempre me deixou aborrecido...


Agora sinto que sou muito melhor compreendido pelas pessoas da minha vida.

É uma luta todos os dias tentando descobrir essa coisa chamada vida como alguém que está no espectro, mas com o apoio da minha família e amigos, sei que posso me tornar uma pessoa melhor.

Quando olho para trás e lembro do que eu passei. As experiências desagradáveis com as humilhações (aquilo que hoje chamamos de bullying) e os julgamentos, eu sinto muita revolta mesmo.

Será que se soubessem que eu era autista, aquelas pessoas teriam se portado de uma forma diferente?


Se você acredita que há um autismo verdadeiro, um autismo "severo", e que há um falso autismo, “leve”, fácil de lidar, que não precisa de nenhum suporte porque a pessoa namora, trabalha, escreve, lê, fala, e “é até criativa” não sabe o que é autismo.


Um autista que não tem “cara de autista”, é atacado como se fosse uma criatura muito grosseira, mal educada, sem noção nenhuma de civilidade.

Há autista que não consegue transitar pra vida adulta e fica em um limbo sendo julgado como incompetente, fracassado e inútil e achando que é verdade porque nem acesso a um diagnóstico ele tem.


Você não pode enxergar que há “autistas leves” que vivem pensando em se matar todo santo dia porque estão com desequilíbrios emocionais intensos causados por exigências sociais que são impossíveis de atender?

Se acha que só "autistas severos" têm crises, você não sabe o que é ser autista nesse país. Aqui a comunicação se dá muito nas entrelinhas. Todo vínculo de amizade, afetivo e profissional se dá por meio de uma linguagem altamente trabalhada no nível abstrato, cheia de não ditos.


Todos os autistas precisam de algum tipo de suporte. Alguns bem menos, outros bem mais.

O que nenhum autista precisa é de ser tratado como um falso autista que só faz o que faz e é do jeito que é pra chamar a atenção de alguém.

Esse tipo de tratamento só atrapalha, é como espancar alguém que está tentando se levantar e andar com as próprias pernas.



Outro dia, alguém muito próximo de mim mencionou o quanto cheguei em tão pouco tempo. Eu ainda fico frustrado com pequenas coisas que sinto que não devo fazer e com minha sensibilidade sensorial, mas estou aprendendo a viver como um homem no espectro do autismo.

E como eu disse durante a defesa da minha pós-graduação: "Se eu estou aqui hoje, defendendo a minha tese, deve haver um motivo muito especial. Graças ao auto-conhecimento que adquiri, agora me aceito como um neuro-atípico. Apesar de todas as minhas limitações cognitivas, graças ao apoio da família e dos amigos, eu pude superar todas elas. E, se eu sou capaz, qualquer um também é capaz".

O último ano foi uma montanha-russa, mas posso finalmente dizer que estou confortável em minha própria pele. É um ótimo sentimento!

domingo, 20 de janeiro de 2019

GLORIOSO GODFREY, O MAIS ASSUSTADOR E REALISTA SUPER-VILÃO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS


Medo. Ódio. Justificação. Estas são palavras que parecem se tornar mais relevantes a cada vez que uma notícia aparece. No entanto, elas também são as marcas de um dos vilões mais fascinantes e incrivelmente críveis da DC Comics: o Glorioso Godfrey de Fourth World Saga de Jack Kirby.

Apesar de ser um vilão menos conhecido, Godfrey não é um inimigo menos perigoso e é um forte candidato a vilão que melhor representa os perigos do nosso atual clima social. Então vamos dar uma olhada em quem é Godfrey, de onde ele vem, o que ele defende e o que ele diz sobre todos nós.


O jovem Jack Kirby em seu escritório na década de 1940.

Nunca subestime Jack Kirby (1917-1994). Nos anos de 1970, Kirby imaginou para a Marvel Comics uma história definitiva para o Thor. Isso mesmo, para acabar com todas as histórias do personagem, Ragnarok, a grande guerra dos deuses nórdicos que resultaria na aniquilação de todo o panteão e na ascensão de um novo em seu lugar.


A Marvel não gostou muito dessa ideia. E combinando essa discordância com a crescente inquietação em relação aos direitos dos criadores, Kirby deixou a Marvel e tentou a sorte na editora rival, a DC Comics.






Kirby, um titã multigeracional dentro da indústria de quadrinhos, recebeu imediatamente um dos títulos mais importantes do DC Comics: Superman's Pal Jimmy Olsen.

Isto foi seguido por três títulos originais, The New GodsMister Miracle, e The Forever People.
Estes quatro títulos compreenderiam uma única história, referida coletivamente como The Fourth World Saga (O Quarto Mundo, de Jack Kirby).


A ideia era simples: os Deuses Antigos estavam mortos, todos eles foram destruídos em uma grande guerra e, das cinzas das batalhas anteriores, dois planetas se formaram, um brilhante, feliz e pacífico, conhecido como Nova Gênesis e um escuro, ardente e brutal, conhecido como Apokolips.

Esses planetas eram governados por seres cujo poder era alto o suficiente para que pudessem ser considerados divindades: os Novos Deuses.


Nova Gênesis e Apokolips.
The New Gods # 1 (1971)

Jack Kirby planejava isso na Marvel há algum tempo. Ele era fascinado pela ideia de panteões, de deuses ou seres divinos adorados pelo homem, cada um deles uma expressão simplificada de algum conceito ou ideia.


Órion (super-herói e filho rebelde de Darkseid)
aprende mais sobre Asgard,tem visões de Wotan
uma feiticeira, e Lokee, o deus da discórdia, aquele 
que jogou o Terceiro Mundo no caos que levou 
à divisão sobre os Antigos Deuses.
The New Gods v.3 # 7 (1989).

No entanto, os deuses costumavam ser aqueles apresentados a todos os séculos. Tínhamos deuses da guerra ou do amor, mas que representavam a guerra e o amor de centenas de anos atrás.
Qual poderia ser o equivalente moderno das personificações tão poderosas e simplificadas da vida humana?

A resposta de Kirby foi: os super-heróis!


Forever People # 7 (1971) com os heróis do
Quarto Mundo de Kirby.
Neste caso, agora temos um novo panteão de super-heróis e super-vilões, deuses alienígenas, governando seus planetas em um arco épico para as eras.
Para esse fim, os personagens que ele criou para a The Fourth World Saga humanizaram as personificações dos aspectos modernos da vida.

Heróis como o Senhor Milagre representavam a liberdade, enquanto Magtron e o Povo da Eternidade representavam aspectos da juventude, e Orion representava a guerra justa.


A elite de Darkseid.

Os vilões eram liderados por Darkseid, que representava as piores e mais obscuras inclinações da humanidade, o lado sombrio em todas as pessoas.

E todos os seus seguidores apresentavam a mesma tendência: Vovó Bondade era uma figura materna manipuladora, levando as crianças a um caminho obscuro e particular; Kanto era o amor a violência personificada; Desaad era o sadismo e a tortura; e então havia o mestre de propaganda de Darkseid, o Glorioso Godfrey.


O Glorioso Godfrey e os Justificadores.

"Você pode justificar qualquer coisa com a Anti-Vida!"

O objetivo final de Darkseid era encontrar e usufruir do poder da "Equação Anti-Vida", uma lendária fórmula matemática que provava a falta de sentido da vida, concedendo ao seu portador o poder sobre as mentes de todos os seres vivos. A representação de Kirby do mal descontrolado desejado sobre tudo.


Nesta imagem acima: O Glorioso Godfrey apresenta a prova matemática de que Darkseid é DEUS. A Equação Anti-Vida justifica ódio, medo, rotulagem, acusação e o assassinato dos outros.

Godfrey era uma entidade única cujo poder era uma versão mais limitada desse mesmo conceito: através de sua voz e outras ferramentas, ele poderia exercer algum nível de controle sobre todos os que o ouviam. Apelando para certas emoções e traços de personalidade dentro de seus ouvintes, ele poderia inspirá-los a certas ações, tipicamente no emprego de Darkseid.

Seus seguidores recebiam capacetes e passavam a atender pelo nome de Justificadores, pois uma vez que sucumbiam à mensagem de Godfrey, eles se sentiam justificados em cometer qualquer ação violenta e horrível que eles desejassem.


Na aparição inicial de Godfrey em The Forever People # 3, ele assumiu uma forma impressionante: sua aparência e design baseavam-se em um pastor/pregador de tendas evangélicas, com uma enorme tenda itinerante abrigando uma audiência de interessados ​​e um órgão colossal cujos acordes sônicos estimulavam os instintos brutos que levavam os homens ao serviço de Godfrey.

O próprio Godfrey era como um orador apaixonado vestido de branco, com um cabelo perfeitamente penteado e quase gentilmente encarnando a mensagem de ódio de um super-vilão vindo de além das estrelas.

Em post anterior, mencionei um palpite de que o Glorioso Godfrey fora inspirado no Reverendo Billy Graham (1918-2018) e o palpite tem apoio factual. Em Jack Kirby Collector # 32, o biógrafo de Kirby, Mark Evanier, discute os modelos da vida real que inspiraram os personagens do referido autor, e com certeza Graham foi o modelo para Godfrey.


O Glorioso Godfrey e o Reverendo Billy Graham.

Como Evanier observou em outra ocasião, "o estilo e a substância de Darkseid foram baseados em quase todos os tiranos loucos por poder que Kirby já conheceu ou observou, com ênfase especial em Richard Milhous Nixon". O relacionamento entre Godfrey e Darkseid é um exemplo da habilidade de Kirby de usar quadrinhos de super-heróis para criar alegorias que espelhavam, de forma distorcida e exagerada, questões humanas genuínas.

O evangelismo do avivamento de tendas era uma visão relativamente comum, especialmente no sul dos Estados Unidos, de 1800 até a década de 1960. E com Godfrey aparecendo pela primeira vez em 1971, estava, portanto, desempenhando um papel muito familiar. Os reavivamentos de tendas por este ponto foram construídos em torno da ideia de espetáculo; uma atmosfera de circo, cheia de alto-falantes, de fogo e enxofre e cura pela fé dramática projetada para incitar os fiéis a um frenesi.

Godfrey era o supervilão equivalente disso; ele grita nos microfones, mãos firmemente plantadas no púlpito enquanto se inclina para o público, prometendo o poder de Darkseid, o "Pacote da Felicidade", através da crença no poder da "Anti-Vida". E ele até compartilhou outro traço fascinante com os charlatões e golpistas pregadores: ele próprio não era crente. Ele expressa a incredulidade de que seu mestre Darkseid acredita legitimamente na existência da Equação Anti-Vida.


Ele entende bem o poder de incentivar os outros a agir por meio de discursos cuidadosamente escritos. Ele não acredita na Equação em si, no poder desinibido de controlar com uma simples palavra. Ele não está comprando o que está vendendo, mas o vende porque sabe quanto pode ganhar com a crença de outros.


As aparições de Godfrey na Fourth Word Saga de Kirby foram relativamente breves, mas ele apareceria novamente em Legends, de 1986, de John Ostrander, Len Wein (1948-2017) e John Byrne.

Aqui, ele assumiu uma forma diferente, uma forma mais moderna de uma autoridade confiável chamada G. Gordon Godfrey, que apresentava a talk shows de televisão para provocar um pânico moral contra os super-heróis.


Ele parafraseou teses do psicólogo Frederick Wertham (1895-1981), em Seduction of the Innocent, um livro de 1954 que usava informações falsas para acusar os quadrinhos de influenciar negativamente a juventude, criando uma reação dos pais que quase abateu a indústria de quadrinhos.


Esta versão do personagem seria adaptada para as séries animadas Justice League e Young Justice, onde ele aparece como um comentarista político com seu talk show que usava o seu tempo de tela para reunir as audiências contra a Liga da Justiça usando discursos furiosos e apaixonados dirigidos a seus telespectadores.


Essa versão lembrava bastante os apresentadores de talk shows da vida real, como Bill O'Reilly e Glenn Beck. Ele deprecia pontos de vista opostos e frequentemente atrai seu público como pessoas “decentes” e “amigos”. Ele concentra sua mensagem na xenofobia e no medo, capitalizando as incertezas do mundo para assegurar ao seu público que o ódio é a resposta mais correta e razoável.


Parte do que faz de Godfrey um personagem tão fascinante é que, ao contrário de muitos vilões, seu verdadeiro poder não está em sua força ou habilidade. Ele exerce o poder da influência, e o que o torna perigoso são as pessoas que acreditam e seguem suas palavras com fervor violento.
Além disso, Godfrey vai além do super-vilão de histórias em quadrinhos e se torna uma declaração sobre nós e o nosso mundo.


"A Anti-Vida lhe dará o direito!"

A ideia de vilanizar um pregador itinerante que tira proveito das pessoas que acreditam em sua mensagem é um aspecto único o bastante para ser adicionado a um super-vilão. Os pastores/pregadores do avivamento e os televangelistas nos anos mais recentes estão no centro de uma indústria bilionária frequentemente baseada em mentiras e espetáculos destinados a atrair um grupo demográfico muito particular.

No entanto, a interpretação de Jack Kirby para o Glorioso Godfrey não se resumiu a um tapa na cara desta determinada prática comercial. As armadilhas dos pregadores foram usadas para ilustrar uma ameaça muito mais insidiosa.


A página de abertura de The Forever People # 3 começa com uma citação atribuída a Adolf Hitler (a maior inspiração para a construção do vilão Darkseid): "Essa é a grande coisa sobre o nosso movimento - que esses membros são uniformes não apenas em ideias, mas, até mesmo, a sua expressão facial é quase a mesma!"

Em outras partes desta edição, os Justificadores de Godfrey queimam livros e reúnem pessoas indesejáveis ​​para transferi-las para algum lugar desconhecido. As menções diretas a Hitler e à campanha nazista nos dão uma forte indicação do mal que Godfrey representa. Ele é o propagandista e a sua mensagem é o ódio.

Sua mensagem é que seu público escolhido é melhor, mais moral e mais merecedor do que os “outros”. “Outros” sendo diretamente referenciados dentro do diálogo ao longo desta edição.

Esse sentimento de alteridade tem estado na raiz de muitas das maiores atrocidades da humanidade, a mais óbvia das quais é o Holocausto nazista. Hitler pode ter tentado conquistar a Europa através da força, mas em seu país, ele teve que subir ao poder através da política. Ele teve que convencer uma nação que lutava, na esteira da Primeira Guerra Mundial, de que ele era o líder certo para eles e, para isso, unificou seu país em uma plataforma de ódio contra um grupo específico e facilmente acessível.


Além disso, a ascensão nazista ao poder não é a única vez que essa estratégia funcionou. A alternância de algum grupo particular é frequentemente utilizada ao longo da história para mobilizar a população por trás de um movimento ou governo, e sempre leva à perseguição daquele grupo alvo. Assim foram com os julgamentos das bruxas de Salem e com o Red Scare, o internamento de cidadãos nipo-americanos.

Os quadrinhos estão cheios de vilões que não têm aparentes contrapartes da vida real, como palhaços assassinos e alienígenas que controlam a mente, mas Godfrey representa o tipo de super-vilão que temos em demasia em nosso mundo real, e pior, eles são frequentemente bem-sucedidos.

Como paramos isto? Os quadrinhos nunca deram nenhuma fraqueza gritante ao Glorioso Godfrey, mas o que ele mesmo reconhece é que ele não é a ameaça real. Ele simplesmente trabalha para um poder maior, o Darkseid.

No equivalente nazista, Godfrey não é Hitler; ele é o Ministro da Propaganda do Reich, Joseph Goebbels. Ele não tem assento de poder próprio, ele apenas torce a opinião do público por uma crença escolhida. Seu verdadeiro poder é influência, influência sobre nós. Se nos recusarmos a dar-lhe esse poder, ele não tem nenhum.

A chave para derrotar esse tipo de mal é pensar racionalmente e pensar gentilmente. Devemos ter cuidado com os Godfreys e os Justificadores do mundo, ou a próxima vítima deles pode ser você!

Embora não tenham sido o foco da postagem, deixo dois importantes adendos e algumas homenagens póstumas.

Adendo 1: Nosso país, infelizmente, produz em massa charlatães e exploradores. Como se não bastasse, o país vem há décadas importando dos Estados Unidos estes mesmos tipos de problemas sociais. Com estes enganadores - muitos inclusive acreditando em suas próprias mentiras - chegando a ocupar altos cargos administrativos, temos motivos para nos preocuparmos. Entendam, há dois tipos que nunca perdoarei em alguns de nossos compatriotas: a "viralatisse entreguista" e os inimigos da ciência (que muitas vezes são também revisionistas históricos por conveniência). [O verdadeiro conservador despreza todas as ideologias, TODAS. Como diria o professor Orlando Fedeli. Ou será que isso já mudou?].
Inimigos da ciência que pregam que a Terra é plana - Será que nunca ouviram falar de Fernão de Magalhães (1480-1521)? Talvez sim, mas ele era ibérico e sabemos que eles idolatram anglo-saxônicos e desprezam suas próprias origens - ou pregam que as vacinas são malignas e produzem pessoas como o Doutor Nerd - Você entenderá esta referência na próxima postagem.
Antigamente estes tipos não seriam levados à sério. Estou para ingressar na academia e espero chegar a me tornar um professor universitário. Eu entendo a importância de se levar a educação à sério e levá-la a todos. Há inúmeros potenciais sendo desperdiçados.



Quando me deparo com esta situação de descaso, torço para que tudo não passe de mais um quadro do Fantástico e que ao final o padre Quevedo (1930-2019) apareça e diga o seu "Isso non ecziste". Combateu o bom combate. Um homem que desmascarou inúmeros charlatães e levava a fé racional. Religioso cientista, merecia a admiração de todos, mesmo de não-religiosos. Já deixa saudades. Obrigado, padre Oscar Gonzalez Quevedo. Você era o cara! 

Adendo 2: Stan Lee (1922-2018) e suas aparições especiais. A seguir, em página de The Uncanny X-Men #97, temos uma rápida aparição especial de dois dos maiores gênios que a indústria das histórias em quadrinhos já conheceram, que inspiraram o que há de melhor em cada um de nós através de grandes personagens e super-heróis. Obrigado, por passarem por minha vida e deixarem comigo um pouco de cada um de vocês.

Minha homenagem a Stan Lee e Jack Kirby.


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