domingo, 21 de agosto de 2016

DICA DE FILME: PERFECT BLUE


Existe no mundo da animação japonesa um grandioso número de realizadores e diretores de filmes de animês tão brilhantes quanto um Hayao Miyazaki, embora não tão conhecidos pelo público casual quanto o homem por trás de Meu Vizinho Totoro.
Satoshi Kon é um deles. Infelizmente, um câncer pancreático tirou sua vida em 2010. Ele tinha apenas 46 anos, o que é jovem demais para qualquer um morrer. A sua morte foi um acontecimento muito doloroso, seja pela sua precocidade, seja pelo fato de que ele foi um dos maiores diretores de animação de todos os tempos. Kon nos deixou um grandioso legado de filmes para explorar.
Para se tornar um grande animador, ele se inspirou em seus primeiros dias de escola graças a títulos como Gundam Mobile Suit (1979) e Space Battleship Yamato (1974). Ele também trabalhou com mangá, scripts e projetos de supervisão antes de começar a trabalhar como animador. Perfect Blue (1997) foi sua estréia na direção. E que maneira fantástica de começar!

Satoshi Kon
Os filmes de Kon frequentemente são surreais, com imagens de sonhos e uma narrativa não-linear que caracterizavam os filmes de diretores como David Lynch, mas com uma abordagem mais animada e fantástica.

O filme Perfect Blue foi muito bem recebido pela crítica, dentro do Japão e fora dele. Ele ganhou prêmios no Festival Fantasia 1997, em Montreal, e Fantasporto Film Festival, em Portugal. Terry Gilliam, conhecido por Monty Python, o incluiu em seu lista dos 50 melhores filmes de animação.
Um filme simplesmente fantástico, mundialmente conhecido e reverenciado. Mesmo assim, Perfect Blue não é um animê para todos, uma vez que lida com temas muito sérios e imagens perturbadoras. Tive o meu primeiro contato com este filme através do Animefã no cinema universitário da UFES, do qual já escrevi algumas vezes aqui no blog.


A história foi baseada em um romance de Yoshikazu Takeuchi, e foi adaptada para o cinema por Sadayuki Murai (o único momento em que Kon não escreveu um roteiro para seus filmes). Ela começa bastante simples: Mima Kirigoe abandona o grupo pop CHAM para se tornar uma atriz, apesar de seu sonho de infância de ser uma cantora, devido a promessa de uma carreira maior. Ela recebe um papel que a transforma em uma pequena celebridade. Mas um punhado de fãs estão indignados com esta decisão, e começam a causar problemas para Mima.

Além de Mima, há outros personagens no centro das atenções, todos eles são interessantes e humanos. Sem dúvidas muito humanos! Não demora muito para nos sentirmos atraídos pela heroína, nós sentimos seus medos e dúvidas enquanto ela explora a sua nova realidade.

Em determinado ponto, ela é convidada a interpretar uma vítima de uma cena de estupro em Double Bind. Seu empresário de longa data (e ex-ídolo pop), Rumi Hikada, adverte dizendo que isto poderia arruinar a sua reputação, mas Mima aceita para o bem da sua empresa gestora, e sua carreira.

Com o tempo, ela começa a recebe faxes e telefonemas ameaçadores, um perseguidor segue-a em todos os lugares, e as pessoas envolvidas com os projetos estão sendo assassinadas.


A tensão do filme é construída gradualmente à medida que nos é dada uma visão sobre a rotina do dia-a-dia de Mima, e os desafios que ela enfrenta ao fazer a transição de cantora a atriz. O filme é muito bem executado, quando ao seu final ele está perto do incompreensível. Satoshi Kon é grande especialista em confundir o espectador.

Como o estresse de Mima torna-se incontrolável, há momentos em que é difícil distinguir entre sonhos, alucinações, e realidade.


À beira de um colapso, Mina fica dividida entre o desejo de ser bem sucedida e as coisas que ela tem que fazer para alcançar esse sucesso.

Realidade e ficção se confundem e há muitas perguntas que ela não pode responder: Por que alguém que sabe detalhes íntimos de sua vida deixa publicações em seu nome na ainda nova e desconhecida Internet? Por que existem roupas ensanguentadas em seu armário? Por que ela não consegue lembrar de longos períodos de tempo? Ela está se tornando a personagem de Double Bind, um serial killer com personalidades múltiplas?


As respostas são surpreendentes e inteligentes. Como um thriller psicológico, Perfect Blue é excelente. Tem um ritmo forte que rapidamente apresenta a ascensão de Mima à fama menor, a sua subsequente queda e a aparente redenção em menos de 90 minutos, com pistas falsas o suficiente e potenciais causas da dissonância ontológica para manter o público totalmente preso à trama.

Mas as coisas que o tornam único são a direção e edição que permitem a Kon criar essa sensação de confusão.


Na época, eu tive que investigar pessoalmente fóruns on-line para tentar decifrar o final deste filme. A estranheza e o desprendimento do roteiro poderiam ser vistos como uma falha e uma qualidade a este respeito.
 
Mima fica cada vez mais angustiada, e sua vida parece estar fora de seu controle. Cenas são cortadas rapidamente, às vezes no meio de uma frase, e as cenas de Double Bind tornam-se entrelaçadas com a vida real, para sugerir os paralelos entre Mima e sua personagem. O resultado é uma atmosfera surreal que deixa o espectador, assim como Mima, incapaz de descobrir o que está acontecendo.

Eventos acontecem rapidamente e sem contexto, como se eles simplesmente tivessem sido predestinados. É uma excelente representação visual da própria desorientação de Mima.


O estilo de Satoshi Kon é muito verdadeiro para a vida real sem torná-lo muito realista. Há gordos, magros, jovens, idosos, com uma gama de estruturas corporais e características faciais. Os personagens têm um charme único que é difícil de se colocar em palavras. As cores são típicas de uma produção de 1997, e a animação em si é maravilhosa. Trajes, roupas e cenários são bem detalhados, e a quantidade de movimentos é fluida e realista, um espetáculo para ser visto.

Sem a utilização das típicas técnicas mais atuais de animação, as cenas de violência e perseguição são mais sinceras do que aquilo que atualmente é produzido. Os animadores tinham um sentido muito claro de como traduzir o peso e a gravidade de tais situações em um espaço de animação 2D.

A nudez frontal completa neste filme é um dos retratos mais reais e de bom gosto do corpo feminino.
A trilha sonora também é muito boa. As melodias sombrias dão um toque especial a atmosfera do filme, como em Serial Experiments Lain (1998).  

                          
 
A música de abertura no início do filme é bem anos noventa, e por isso cativante.

A indefinição entre realidade e fantasia se tornaria a marca registrada do trabalho de Kon, mas este é o seu trabalho mais duro e realista. A maioria dos outros trabalhos que mesclam realidade e fantasia, muitas vezes precisam recorrer à ficção científica ou a truques fantásticos, a fim de fazerem sentido narrativamente, o que normalmente enfraquece o efeito.
 

Mas Perfect Blue deixa claro que nada disso está acontecendo (a partir da linha repetida em Double Bind, "Ilusões não podem se tornar realidade"), enquanto faz parecer que algo realmente fantástico está realmente acontecendo.


Kon começa a fazer essa configuração cedo, antes mesmo do mundo de Mima começa a ficar fora de controle. O melhor exemplo disso é a cena do estupro, que é, provavelmente, també a cena mais memorável do filme.

Desde o início, é evidente que aquilo não é real: é apenas a gravação de um programa. Em seguida, nos chamados "extras" o homem que estuprou Mima está se desculpando por ter que fazer isso.
 

Enfim, Perfect Blue é um clássico. Eu definitivamente recomendo que você vá vê-lo, caso não o tenha visto ainda. E se já o conhece, também vale pela nostalgia. 

Ele é tão bom quanto você ainda deve se lembra.
 
 
Perfect Blue foi a principal razão para hoje eu estar escrevendo sobre a profundidade única presente nas animações japonesas. Ele é daqueles filmes clássicos do cinema que você sempre indicará àqueles que procuram obras como temas mais complexos e adultos. E é também uma das razões pelas quais Kon fará muita falta.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

O REINO DO AMANHÃ: ESPECIAL DE 20 ANOS

Neste ano, Kingdom Come (O Reino do Amanhã, 1996), uma verdadeira obra-prima das histórias em quadrinhos está já completando incríveis 20 anos.
Situada em uma visão quase-futuro do Universo DC, estas quatro edições realizadas por Alex Ross e Mark Waid foram partes iguais de um verdadeiro espetáculo cinematográfico e uma meditação surpreendentemente filosófica sobre as responsabilidades e os perigos acerca do poder.

A série Kingdom Come não apenas foi influenciada pelos quadrinhos da Era de Ouro da DC, mas foi uma série bastante influente para os projetos subsequentes da DC Comics.
Antes de escrever mais detalhadamente sobre este clássico, vou primeiro citar algumas das influências desta obra sobre o universo DC, e então mencionar alguns dos conceitos da Era de Ouro que inspiraram partes da série:

 
Terra-22 - No novo e reinicializado multiverso da DC a história de Kingdom Come realmente aconteceu na Terra-22.

Robin Vermelho - O primeiro personagem a vestir o traje de Robin Vermelho foi Dick Grayson, o original e ex-Robin do universo Kingdom Come. Nesta realidade, ele era casado com a Estelar (já falecida) e sua filha adulta é Estrela Noturna. O manto de Robin Vermelho no universo principal da DC nunca pertenceu a Dick Grayson, mas o primeiro Robin Vermelho foi Jason Todd em Countdown to Final Crisis # 17, onde Todd veste o traje e luta ao lado do Batman da Terra-51. No universo corrente o Robin Vermelho é Tim Drake, outro ex-Robin.

Ibn al Xu'ffash - Seu nome em árabe significa "Filho do Morcego". Foi revelado em Kingdom Come que Bruce Wayne e Thalia al Ghul tiveram um filho. No universo principal DC, ele é o mais recente Robin, Damian Wayne. Em Kingdom Come há uma faísca romântica entre o filho de Bruce Wayne e a filha de Dick Grayson. Na Sociedade da Justiça da América, volume 3, # 22, eles são mostrados vinte anos mais tarde, com dois filhos, assistindo o funeral de Batman da Terra-22.

Arqueiro Vermelho - Roy Harper, o ex-Ricardito. Ele fez sua primeira aparição como Arqueiro Vermelho em Kingdom Come # 2.

Maxine Hunkel - O alter-ego do Tornado Vermelho da Terra-22. Maxine é a neta de Mathilda Hunkel, o Tornado Vermelho original (Não confundir com o robô de mesmo nome, membro da Liga da Justiça. Em Kingdom Come ele aparece sem seu corpo robótico, personificando a entidade composta de ventos e brumas que deu origem a seu corpo original, sendo chamado simplesmente de Tornado). Maxine aparece pela primeira vez em Sociedade da Justiça da América, volume 3, # 1 e ela adota o nome Cyclone.

Esmaga Átomo - O afilhado do Átomo original, Al Pratt, era conhecido como Nuklon na primeira série de Corporação Infinito.

Pantera - Em Kingdom Come ele é um homem-pantera e possui o espírito de Ted Grant, o Pantera original. Em New Earth, a versão homem-pantera acaba por ser o filho há muito tempo perdido de Grant.

Rajada - Jennifer Pierce, filha meta-humana do Raio Negro, apareceu pela primeira vez em Kingdom Come. Seu homólogo em New Earth foi introduzido pela primeira vez em Sociedade da Justiça da América, volume 3, # 12.

Besouro Azul - O Besouro Azul de Kingdom Come usava um traje de combate blindado que eu suspeito que pode ter servido como inspiração para a versão Jaime Reyes do personagem na linha principal do universo DC.

O Flash - O Flash da Terra-22 é Wally West e usa um capacete semelhante ao de Jay Garrick, o Flash original.

Homem Bala e Mulher Bala - anteriormente pela Fawcett Publications, esta dupla foi muito popular na década de 1940. Os heróis Fawcett foram adquiridos pela DC Comics em 1972.

Living Doll - Aparecendo no ombro de Superman em Kingdom Come # 3, ela é a filha de Doll Man e Doll Girl, um dupla da Era de Ouro Golden adquirida pela DC Comics.

Lady Fantasma - Outro personagem da Era de Ouro adquirido pela DC, ela aparece em Kingdom Come como um fantasma literal semelhante a Bettie Page.

Caçadora - Uma versão africana da personagem da Era de Ouro, Paula Brooks.

Vigilante - Com base no cowboy da Era de Ouro, a versão Kingdom Come o recriou com partes robóticas e uma arma para um de seus braços.

É particularmente intrigante como Kingdom Come buscou a sua inspiração na Era de Ouro da DC, ou a forma como esta obra posteriormente inspirou grupos de heróis como a Sociedade da Justiça e a Família Batman cujas origens remontam à Era de Ouro.
 
Embora aparentemente focado no conflito entre os heróis tradicionais mais velhos e a imprudente e amoral geração de jovens vigilantes, eu vejo muito mais para este conto, especialmente agora enquanto também envelheço. Kingdom Come reflete os grandes conflitos filosóficos e ideológicos que, com a experiência, podemos perceber no mundo ao nosso redor. Em meio a mais uma grande mudança política, Kingdom Come veio trazer grandes advertências contra a arrogância do poder e as suas visões utópicas corrompidas. A sua mensagem é tão oportuna como nunca.

 
O Superman que protagoniza este conto, diferente daquele apresentado em The Dark Knight Returns (1986) de Frank Miller, envelhece como os seres humanos, embora permaneça um ser quase divino, ainda mais poderoso do que durante a sua juventude. Alex Ross decidiu que seria melhor para o personagem se ele vivenciasse o máximo que pudesse de aspectos humildes da humanidade, e envelhecer naturalmente compensaria os seus atributos divinais.
Esta versão experiente do Superman é fascinante, e também é, provavelmente, a melhor representação do homem de aço, em minha opinião. Este Superman não é apenas o meu personagem favorito de toda esta história, mas é ainda uma identificação pessoal para mim.
Não, eu nunca enfrentei a tentação de confrontar as Nações Unidas com a minha super-força (e eu não tenho super-força), mas como um cara de fortes convicções políticas, e distante de crenças em quaisquer ideologias, às vezes me sinto anacrônico e um tanto afastado da sociedade em torno de mim, como o personagem central desta história em conflito neste jogo de moralidade.


Semelhante ao que é feito com The Dark Knight Returns, o Superman foi aposentado por dez anos, devido a uma perda pessoal e filosófica, mantendo-se recluso e distante de qualquer forma de vida pública. A sua ausência leva ao surgimento de uma raça de heróis mais violentos, aqueles que estão dispostos a matar e causar tanto dano e perda de vidas como os vilões que enfrentam. Depois de uma terrível tragédia envolvendo inúmeras mortes de civis, a Mulher Maravilha convence o Superman a sair do seu esconderijo para voltar a estabilizar o mundo, sem saber, desencadeando uma cadeia de eventos que poderiam levar a um apocalipse.

O retorno do Superman traz a velha guarda da Liga da Justiça de volta ao redil, renovando a esperança de alguns. No entanto, seu retorno também sinaliza o que muitas pessoas há muito temiam: o destino da humanidade não é mais deles para controlar, mas está nas mãos de seres super-poderosos, muitos dos quais não se pode confiar com seu próprio poder. Com a tentativa do Superman e da Mulher Maravilha de colocar os meta-humanos desonestos na linha, Lex Luthor constrói toda uma paranoia em torno dos meta-humanos, possivelmente recrutando um Batman idoso para a sua causa.

 
Kingdom Come, como Waid excelentemente diz, examina os temas de esperança, humanidade e de fé através dos olhos de Norman McCay, testemunha desses eventos significativos. Ele capta perfeitamente a personalidade e o cansaço de cada personagem em face de uma nova geração de heróis, levando-os a refletir sobre que tipo de legado que deixariam para a humanidade. A arte realista de Alex Ross é também impressionante de se ver. Os temas refletidos nesta história, bem como as manipulações de Luthor, têm alguma semelhança mesmo com obras mais recentes, sendo aproveitado mesmo para o tão criticado Batman vs Superman: A Origem da Justiça, dirigido por Zack Snyder. Kingdom Come é um livro de referência para o gênero romance gráfico, ele conta uma história madura, sincera e com um belíssimo estilo, envolvendo muitos dos maiores heróis da DC.

 
Este tema, "o estranho em uma terra estranha", foi novamente relevante com a aparição do Superman do universo Kingdom Come nas páginas de Sociedade da Justiça da América. Inteligentemente definido entre Kingdom Come # 3 e # 4, o Superman mais velho, através de uma fenda dimensional, está presente em uma aventura estendida com a SJA.
No capítulo final de Thy Kingdom Come (JSA # 22), o Superman é devolvido à sua dimensão nativa depois de derrotar a ameaça messiânica de Magog. Depois de re-apresentar algumas das cenas finais de Kingdom Come (desta vez a partir de diferentes ângulos de câmara), o conto se aproxima de um final triunfante, transcendente, gloriosamente ilustrado por Alex Ross!


Página 1: Superman acaba de enterrar os corpos dos super-heróis mortos pela bomba atômica. O presente que ele recebe da Mulher Maravilha é, essencialmente, a restauração da sua identidade de Clark Kent, que ele havia abandonado durante o seu exílio auto-imposto da sociedade humana (onde o encontramos em Kingdom Come # 1). Para os fãs da história comparar esta página com a sua cena correspondente de Kingdom Come # 4, com as mudanças de ângulos de câmera, é muito legal.


Página 2: 10 anos após isto, Clark e Diana estão, obviamente, vivendo como marido e mulher. E, junto de seus filhos, recebem a visita de um debilitado Bruce Wayne (em um exoesqueleto de corpo inteiro por sua longa carreira como Batman).
20 anos depois, assistimos ao funeral do Batman, com a presença de todo o elenco de Kingdom Come, incluindo uma Selina Kyle, a Mulher Gato que chora em primeiro plano.


Página 3: 100 anos depois, uma visão enigmática do futuro da Terra quanto a humanidade (acompanhada pelos que parecem ser os membros da família de Clark e Diana) seguindo viagem rumo às estrelas, enquanto o orgulhoso casal os observa. Os trajes que Clark está vestindo correspondem aos usados por seu pai Jor-El nos quadrinhos da Era de Prata.
200 anos depois, um desastre de escala planetária é observado pelos entristecidos Clark, Diana e (provavelmente) um pequeno grupo de membros da sua família.
500 anos depois, o Superman inicia a reconstrução da sociedade humana, usando seus poderes e suas habilidade como um agricultor do Kansas para devolver a vida ao solo morto. Fãs de olhos aguçados vão notar como o seu voo representa e ecoa a sua famosa pose na capa de Superman # 1 (1939).


Página 4: 1000 anos mais tarde, agora como um velho humilde, o Superman faz o seu caminho através de uma utopia futurista, enquanto a Legião de Super-Heróis sobrevoa a cena.
Resumidamente vislumbrado em um único painel de Kingdom Come, o surgimento dos super-adolescentes (incluindo um Superboy e uma Supergirl) traz o encerramento completo da saga, para a óbvia alegria de um idoso Superman, ainda ostentando os óculos de Clark Kent.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

AS MELHORES MENÇÕES MITOLÓGIAS DE XENA

 
Xena: A princesa guerreira retornará com uma nova série. Motivos para comemorar? Infelizmente a resposta é não! Durante a postagem vou citar as reais razões para não curtir o retorno deste grande clássico. Nos anos 90, Xena: A princesa guerreira e Hércules: A lendária jornada foram alguns dos melhores seriados já feitos para a televisão. Além de atrizes lindíssimas, ação, violência e humor na medida certa, havia um forte apelo para as mitologias, principalmente a grega, o maior dos atrativos presentes nestes seriados, e ainda brindava o público com muita, muita filosofia.
Não é de se surpreender o anuncio de uma nova produção de uma série sobre a princesa guerreira. Além das suas qualidades já citadas, vivemos afinal os tempos de escassez de criatividade. O retorno de Xena poderia ser bem recebido, apesar de tudo, mas infelizmente neste século XXI, nesta era do politicamente correto, com os meios de entretenimento totalmente controlados pelos chamados Social Justice Warriors, já imagino o tipo de discurso pedante que a nova produção apresentará.
Nesta geração onde tudo é ofensivo, chegamos facilmente a conclusão de que a única coisa que nos será permitido assistir será "Xena: A princesa guerreira" devidamente "modernizada". Afinal, as mesmas (ou os mesmos) que afirmam ser a "masculinidade frágil" dão chilique por causa de um cartaz de um filme onde um super-vilão estrangula uma mocinha ou com uma matéria boboca de uma revista sobre uma mulher "bela, recatada e do lar". Se chegar um momento em que apenas Xena será permitida, vamos então recordar de todas as qualidades da série clássica, insubstituível por qualquer versão moderna politicamente correta. Enfim, graças ao TCM ainda podemos ver o seriado de nossa verdadeira princesa guerreira, como eu gosto de chamar, o "Tokusatsu neozelandês", com seus atores canastras e seus magníficos defeitos especiais. A precariedade destas produções cults são alguns de seus maiores charmes. Não aguento os atuais Tokusatsus japoneses com toda aquela computação gráfica exagerada, embora ao menos os seus atores continuem canastrões.
 
A postagem vai se concentrar no fator mitológico presente no seriado clássico. Em Xena: A princesa guerreira, que inicialmente reproduzia histórias dos antigos mitos gregos, durante suas últimas temporadas começou a empregar um tipo de sincretismo como aquele que é empregado por muitos wiccanos, pagãos, e neo-pagãos. O mesmo aconteceu em alguns momentos com o seriado do Hércules, quando o filho de Zeus conheceu e confrontou as deidades da mitologia nórdica como Thor
e Loki. Em ambos os seriados, mesmo quando a mitologia grega não é reproduzida com 100% de fidelidade, ainda é apresentada de uma forma ao menos interessante. Exemplos notáveis:
 
 
Hades - O deus do mundo dos mortos é constantemente injustiçado com as formas nas quais é apresentado pela ficção. Ele quase sempre é totalmente preservo, traiçoeiro e mesquinho, como pode ser visto em Fúria de Titãs, em Cavaleiros do Zodíaco e ainda naquele filme da Disney. Tudo por conta da bizarra associação entre ele e o Satanás do cristianismo.
 
À esquerda, Hades em Fúria de Titãs: mistura de metaleiro com Piccolo Daimao.
À direita, Hades em Cavaleiros do Zodíaco: versão galã trevoso. 
O deus do submundo, que não é mesma coisa que inferno (este chamado pelos antigos gregos de Tártarus, uma das subdivisões do mundo governado por Hades), é o mais, digamos, "apaixonado" dos três principais deuses cultuados anteriormente pelos gregos. Tanto em "Hércules" quanto em "Xena" foi exaltada a história na qual Hades sequestra Perséfone, a deusa da primavera, evento que culminou no surgimento das 4 Estações do ano. 
Claro que Hades não era apenas um incompreendido, ele também tinha seu lado tenebroso e traiçoeiro. Sempre estava barganhando com as almas dos mortos, e em "Xena", ele barganhou com a princesa guerreira pelo menos umas duas vezes. Também sonha em aumentar o seu número de súditos (os guerreiros mortos em combate) para aumentar o seu poder e influencia. No seriado, foi assim com Sísifo, o homem que enganou a morte.
 
Hades: O vilão mais hilariante dos filmes da Disney.
Apesas do erro grotesco de continuidade, a série, em um segundo momento, retrata Sísifo como um bruxo superpoderoso (como Félix Fausto, inimigo da Mulher Maravilha) que retorna da morte e rouba a divindade de Ares. O que trouxe até mais sentido à lenda original, na qual Sísifo engana a morte, o deus Thanatos, e o prende com uma simples corrente.
 
 
Poseidon - Na série, ele é o mais imponente dos deuses. É perfeitamente representado, poderoso, de fala grossa, e muito egoísta.
De fato, na mitologia, Poseidon parece ser mais violento do que Zeus e Hades. Cometia crimes pelos motivos mais fúteis e mesquinhos. Ele estuprou a Medusa dentro do templo de Athena, mas a deusa da sabedoria injustamente castigou a vítima, transformando-a na criatura horripilante com cabelos de serpentes, para que nenhum homem jamais a desejasse novamente. É melhor o Seiya nunca vacilar com a Saori porque sabe-se lá...
 
Poseidon em Cavaleiros do Zodíaco
Atendendo a sua súplica, Poseidon presenteou o rei de Creta, Minos, com um belo touro que surgiu do mar. Mas o deus deu um presente e o quis de volta, e logicamente o rei Minos negou-se a devolve-lo. Então para se vingar, Poseidon hipnotizou a esposa do rei para que ela sentisse desejo sexual pelo animal sagrado. E da relação sexual da mulher com o touro, nasceu a criatura conhecida como Minotauro. O deus dos mares tinha um senso de justiça peculiar.
 
Em "Xena", Poseidon amaldiçoa Cecrops (um dos melhores personagens da série, já presente na primeira temporada), o marinheiro perdido de Atenas. Ele foi preso por Poseidon no mar, por 300 anos, simplesmente porque ele foi o cidadão ateniense escolhido para ser o juiz de uma competição entre Poseidon e Athena, e escolheu a deusa da sabedoria como vencedora da prova. Athena, em seguida, amaldiçoou Cecrops com a imortalidade, significando que ele não podia morrer ou fugir de sua prisão eterna. Qualquer um que viria acabar preso no navio de Cecrops seria morto, caso tentasse sair. Poseidon disse ao pobre amaldiçoado que só amor poderia redimi-lo e salvá-lo da maldição, na certeza de que ele nunca poderia amar novamente.
Muitos anos depois, Xena e Gabrielle viriam a se tornarem parte da tripulação amaldiçoada, e foi quando Cecrops foi capaz de sentir amor novamente e foi assim redimido. Cecrops estava finalmente livre da maldição, juntamente com sua tripulação.
 
 
Baco - O deus Baco foi a divindade que teve a representação mais polêmica, e ainda assim uma das mais interessantes. Aqui o deus do vinho é um deus do mal, um tirano que controla um exército de Bacantes, representadas como bela jovens com aparência e comportamento semelhante aos dos vampiros. Sua história está também relacionada ao romance entre Orfeu e Eurídice, personagens originalmente relacionados ao conto onde o jovem músico Orfeu desce até o reino de Hades para resgatar a alma da sua amada. Em Xena, Orfeu tem o poder de domar a fúria das Bacantes com o som da sua lira. Após Eurídice ser assassinada por Baco, Orfeu jurou destruir o deus do vinho, vivendo na floresta das Bacantes, e domando estas criaturas das trevas com o poder de sua lira. Em retaliação a esta ação, Baco amaldiçoou Orfeu, decapitando-o e destruindo o seu corpo, mas ainda mantendo a cabeça dele viva, para que ele pudesse ver e ouvir todo o mal que Baco planejava desencadear.
 
Baco, em Fantasia
No conto mitológico original, Baco (ou Dionísio) era filho de Zeus com a mortal Semele, e, apesar de ter nascido de uma mortal, tornou-se o "deus que nasceu duas vezes". Hera, a ciumenta esposa de Zeus, engana Semele para que esta invocasse a presença de Zeus em toda a sua glória e poder, e assim que o deus dos deuses surgiu diante de sua amante, a sua presença é tão grandiosa e iluminada que a mortal tem seu corpo completamente destruído. Mas Zeus salva o feto de Baco e este completa a sua gestação na coxa de seu pai. E há uma outra ocasião em que Hera finalmente consegue destruí-lo, quando ele já era adulto, mas Zeus faz uma poção com os seus restos mortais e a entrega a deusa Perséfone, que ao bebê-la, engravida de Baco, que assim renasce. Baco também teve filhos com Afrodite e Ariadne.
A figura do deus Baco na ficção ficou marcada pela imagem de um gordinho simpático que adora vinho e festas. Os filmes da Disney, como Fantasia e Hércules, estão aí para confirmar. Na maioria obras de arte clássicas ele tem a aparência humana de um jovem normal, mas é também constantemente descrito como um homem com chifres. O seriado de Xena lhe deu além dos chifres, uma pele vermelha, presas e barba, o que evocou as representações artísticas comuns de Satanás (Detalhe: Baco, esse capetão, é meio-irmão de Hércules e Ares). O que foi uma ideia fantástica, porque conhecendo melhor a mitologia de Baco, percebemos que ele não era um deus propriamente bondoso, ele cometia atos de crueldade e injustiça, e todos nós já sabemos o que rolava na festa em honra ao deus do vinho, a Bacanal, que na nossa língua já até virou sinônimo de suruba. No seriado, Baco ainda oferecia o seu próprio sangue como vinho e todas aquelas mulheres que se servissem da sua bebida se tornavam suas Bacantes, como em uma versão diabólica da Santa Ceia ou uma missa negra.
 
 
Ares - O que dizer de Ares? Muito marcante, e provavelmente o deus mais fielmente retratado.
Ares, o deus da guerra, foi o mais humano de todos os deuses gregos, rejeitado pelo próprio pai Zeus e por seus irmãos olimpianos. Ele demonstrava emoções até certo ponto justificadas, como o ódio e a inveja por todos aqueles que tinham o amor do seu pai, mas ainda havia momentos em que mesmo ele era capaz de sentir amor.
No seriados, ele odiava seu meio-irmão Hércules por este ser o filho preferido de Zeus, e por isso tentava de todas as formas destruí-lo.
Ares desejava ter Xena como líder de todos os seus exércitos, devido toda a capacidade que ele sentia nela, mas a guerreira sempre o rejeitou. E o que Ares fazia quanto a isto?
 
Ares e Xena
Ares é um deus imortal, e portanto deveria ser poderoso o bastante para apagar Xena da existência com a força de um pensamento, mas ele nunca se atreveu a fazê-lo, sendo quase sempre derrotado. E ele sempre agiu assim simplesmente porque a ama! Um deus é vencido por uma mortal porque não é capaz de controlar os seus sentimentos. E é aqui que reside a maior parte de sua humanidade.
Xena é como uma super-heroína de HQ em sua concepção original: bela como Afrodite e forte como Hércules. 
 
Eli e Calisto (como anjo).
Muitos pagãos dedicam-se a adorar um panteão em particular, alguns acreditam que todos os deuses e deusas representam diferentes aspectos de deus. Esta é a forma mais harmoniosa de sincretismo, porque não estando todos os deuses em conflito uns com os outros, permite uma mistura mais fácil de crenças. Há também os pluralistas religiosos que acreditam que todas as religiões têm algum elemento da verdade, mas não toda a verdade. Desta forma, eles acreditam que todos os deuses podem refletir algo do verdadeiro deus ou deuses. Isso tudo tem muito a ver com cultura pop. Duvida?
Em Xena, os escritores tentam usar a primeira forma de sincretismo que descrevi. Quando o seriado começa, em grande parte ele se concentra no panteão grego, com alguma referência ocasional para o judaísmo antigo e algum panteão de um outro país. Mas a medida que a série se aproxima do seu final, o cristianismo começa a fazer parte da narrativa. O personagem Eli parece uma mistura louca de Abraão, Moisés, Elias, São João Batista, e Jesus. Eli é apresentado originalmente como um simples ilusionista na Índia, mas a medida que melhor vamos conhecendo o personagem, ele é comparado a um tipo de "deus da Luz", embora seja mais provável ser um profeta ou o fundador de algum tipo de culto. Ele eventualmente torna-se uma imitação de Jesus, bem, ele é um Jesus em tudo, menos no nome.
 
Indrajit, animê Ramayana
Nesta passagem do seriado pela Índia, Zena confronta a entidade Indrajit, conhecido como o rei dos demônios. Esta foi uma passagem muito marcante. Acompanhei esta fase do seriado pouco tempo após assistir ao animê clássico de 1992, chamado Ramayana, que retratava com fidelidade total a mitologia hindu, no clube Animefã organizado pelo então estudante de processamento de dados Roger Labuto de Barros, no cinema da Universidade Federal do Espírito Santo. Foi um prazer assistir esta obra de arte.
Assim acompanhei a fase "Xena na Índia" já conhecendo muito bem estes personagens.
 
Xena como Kali
Esta parte da série também tem um de seus momentos mais polêmicos. As habilidades de luta de Indrajit era tão superiores que ele não apenas derrota Xena, mas também a esquarteja e a mata. Assim a guerreira grega se deixa ser possuída pelo espírito de Kali para então derrotar o vilão, terminando por decapitá-lo!
Esta sequencia fantástica de ação fez o movimento feminista de terceira onda da época (que ainda não fazia tanto barulho quanto o atual) revoltar-se alegando que nenhum herói masculino havia sido morto de forma tão brutal quanto Xena.
 
Sei, sei.

Um VILÃO pode destruir todo o universo, mas encostar na heroína jamais.
 
Xena já morreu e ressuscitou mais vezes do que o Goku. Em uma vida de combate ao mal, apanhar é inevitável, e não é censurando este lado do trabalho de uma super-heroína que você vai combater a violência contra a mulher.
Na ficção não apenas mulheres sofrem violência. Também sofrem violência, e castigos igualmente brutais, homens, crianças, alienígena...

 
"Olhe sempre pro lado bom da vida!"
Há ainda o lendário episódio em que Xena e Gabrielle são crucificadas pelos romanos por serem seguidoras de Eli. Na minha opinião o seriado deveria ter aqui terminado. O fato da história ter continuado após isto acabou com todo o impacto do acontecimento. 
Mais tarde, Xena ainda fica grávida de uma menina chamada Eva, uma criança que vai trazer o fim ao reinado dos deuses gregos.
 

Xena e Callisto.
Quando a inimiga de Xena, Callisto, morre e vai para o inferno, transforma-se em um demônio que queria atacar o céu. E após o combate definitivo entre as duas, Callisto é purificada, o que eventualmente a leva a tornar-se um anjo. E foi Callisto que de certa forma vem a fazer o papel de quase um anjo Gabriel, revelando a Xena que ela vai ter uma filha que anunciaria o fim dos outros deuses. A filha de Xena, Eva, segue o caminho de Eli e isso, combinado com o seu nome, é o principal exemplo de como os escritores do seriado estavam tentando reproduzir a forma de sincretismo mais usada ​​pelos povos antigos, e eles foram bem sucedidos.
 
Estes dois fizeram parte da sua infância/juventude!


sexta-feira, 6 de maio de 2016

ANIMÊ: DO VELHO AO NOVO, O QUE PERDEMOS?

 
O mercado dos animês no Japão anda um tanto saturado. Um grande exemplo disso foi a série Dragon Ball Kai, provavelmente a maior piada do século (embora tenha curtido bastante). É verdade que há uma grande e notável crise de criatividade afetando não apenas o animê, como também as outras diversas formas de entretenimento presentes na mídia, como o cinema, os desenhos animados em geral, e até mesmo a música.
As melhores opções que a animação japonesa vem oferecendo são as adaptações de clássicos, como Jojo's Bizarre Adventure e finalmente um novo animê da Sailor Moon reproduzindo fielmente o mangá original, um presente para as fãs (e para os fãs machos também). Com Saint Seiya foram produzidas séries de qualidade duvidosa, como "Omega", e Soul of Gold, que apesar de tantas falhas foi também muito bom. Não seria a hora de finalmente ser produzida uma continuação para Lost Canvas? Ou a tão sonhada adaptação do Episódio G? Se Sailor Moon pode voltar com uma série fiel ao mangá, por que não fazer o mesmo com Saint Seiya? Dragon Ball também voltou, pagando mico com o "Super", feito o que acontece com os personagens clássicos do Cartoon que retornam em animações igualmente duvidosas.
Isso quer dizer que não é produzido mais nada novo e com qualidade no Japão? Errado! Há muita novidade em séries de grande qualidade (como o fenomenal e incomparável Tokyo Ghoul), mas os animês atuais simplesmente não têm o mesmo apelo que os antigões.
Apesar de ser um nerd nostálgico assumido, reconheço que os anos 80 produziram igualmente muitas séries de baixa qualidade, mas nada se compara ao que se vê em produções péssimas e sem caráter produzidas no Japão principalmente depois de 2003. Os animês clássicos refletiam um momento fantástico da mentalidade do jovem no Japão, e os muitos (não todos) animês atuais refletem a crise e a perda de identidade. Vejam um personagem clássico como Joe Yabuki, um jovem lutador que encontra no boxe uma verdadeira alegoria da sua própria vida, e das vidas de todos nós, ele muitas vezes cai, mas nunca desanima e sempre volta a se erguer. Já os animês "modernos" parecem estar mais preocupados com as aparências da produção do que em transmitir uma mensagem edificante. Essa é também a triste verdade por trás da chamada "arte" moderna.
Eu sou chato mesmo. Por isso aqui vai uma lista com as principais qualidades das séries clássicas japonesas em comparação com as modernas, e ainda o que pode ser feito para melhorar o momento atual.
 
 
 
Melhores Character Designs
 
O visual de muitos dos animês mais modernos não tão atraentes. Na verdade, é possível encontrar alguns que são mesmo simplesmente feios. Quer um exemplo? Code Geass. Não quero tirar todo o mérito desta obra, mas o desenho dos seus personagens, estas figuras esqueléticas horríveis, não é dos melhores. Para as garotas que estão lendo esta postagem, eu realmente gostaria de perguntar se elas acham esses bishonen atraentes? Se assim for, então precisamos conversar sobre isso. Mesmo em obras mais antigas, pelo menos até o final dos anos 90 e início dos anos 2000, a anatomia era muito mais respeitada pelos desenhistas. Não estou dizendo que todos os personagens de animês precisam ser enormes e musculosos feito o Gutts ou o Goku. O Spike Spiegel de Cowboy Bebop era magro, mas ele ainda poderia chutar bundas sem o risco de quebrar uma perna. E o bom e velho Spike ainda era a fantasia de muitas fangirls que curtiam o estilo deste fantástico animê dos anos 90, um dos melhores já feito. E não podemos deixar de mencionar os animês e mangás produzidos entre os anos 80 e início dos anos 90. Em Dragon Ball, Hokuto no Ken e Baki The Grappler, por exemplo, os seus personagens têm músculos, o desenho tanto dos músculos masculinos, quanto das curvas de suas voluptuosas personagens femininas, é muito melhor trabalhado, respeitando a anatomia. E a maioria desses personagens são atraentes também (ou, no caso de Yajirobe, pelo menos divertido de se ver).
 

 
Enredos que fazem sentido
 
Houve uma época em que o animê seguia um enredo lógico. As obras mais modernas, como Inazuma Eleven e sua sequência Inazuma Eleven Go, apresentam um início um tanto lógico. Inazuma era originalmente sobre um grupo de crianças enfrentando outras crianças em jogos de futebol locais. No entanto, a história acaba perdendo-se na insanidade, com lutas contra anjos e demônios através de torneios de futebol e, mais tarde com a série Go, são adicionados ao enredo viagens no tempo e outros elementos de sci-fi. Como chegamos ao ponto em que vemos demônios envolvidos com futebol? Por que eles se preocupam tanto com este jogo? Há uma partida contra extraterrestres, que depois revelam não ser realmente alienígenas, mas crianças que sofreram lavagem cerebral! Eu pensava estar apenas assistindo um programa sobre um clube de futebol do ensino médio! Mesmo com todas as suas falhas e loucuras, diga-se de passagem, sou mais o clássico Super Campeões (Captain Tsubasa), e ainda o pouco conhecido Hungry Heart (o melhor de todos), como animês envolvendo esportes, no caso especificamente o futebol.
Lógico que já na década de 90 os animês desenvolviam enredos cada vez mais loucos. A série, ou melhor, as séries Tenchi Muyo são um perfeito exemplo disso, mas elas nunca, por mais que se prolongassem, mudavam tão drasticamente a proposta inicial de seu enredo. Sailor Moon era sobre um grupo de meninas que vão à escola durante o dia e ainda encontram tempo para lutar contra o mal e proteger o nosso planeta. Gundam Wing era sobre um grupo de jovens soldados que defendiam a Terra. Dragon Ball Z era sobre um grupo de super-heróis salvando a Terra enquanto lidavam com os seus próprios dramas pessoais (sim, DBZ era mais profundo do que as pessoas gostam de pensar). Sempre haveria elementos dramáticos adicionados, mas no geral, o enredo permanecia praticamente o mesmo.



Tipos diferentes e únicos de personagens
 
Todo o espectador regular de animês espera encontrar certos tipos de personagens. Eu sei, por exemplo, que vou provavelmente ver o herói (ou a heroína) atrapalhado e pouco inteligente que come uma tonelada (seja o Goku, seja a Serena). Muitos personagens nas atuais produções seguem um padrão, quase como uma cartilha. Você pode esperar para identificar de cara quem do elenco de personagens será a menina mal-humorada/tímida, o nerd, o cabeça quente, etc. Apesar desta cartilha não ser tão incomum nas histórias clássicas, parecia haver uma variedade muito maior de personagens. Por exemplo, em Outlaw Star, Aisha Clan-Clan é uma fanfarrona e Jim Hawking é um garoto muito maduro para a sua idade. Em DBZ, Yamcha (não estou contando uma piada) é um atleta que foi inicialmente foi apresentado como um ladrão com medo de mulheres, até que mais tarde se torna um playboy, e o Mestre Kame é um pervertido mestre das artes marciais. Em Yu Yu Hakusho, Kurama, devido sua aparente fragilidade (e uma quase androgenia) e seu porte físico desprivilegiado, é confundido com um dos personagens mais fracos do elenco quando, na verdade, é um dos personagens mais poderosos de toda a obra, e o mesmo vale para a velha mestra Genkai. Os mangás dos anos 70 e 80 eram memoráveis justamente por causa de seus personagens únicos, como tivemos em Ring Ni Kakero, Ashita no Joe, Hokuto no Ken, Devilman e Cat's Eye. Uma variedade de personagens faz um animê ainda mais memorável.


 
Emoções realistas
 
É irritante o melodrama que permeia alguns dos mais recentes animês. Não me interpretem mal, melodrama é impressionante, mas às vezes chega a ser um pouco demais. Um exemplo de uma animação que foi longe demais, tornando-se quase irritante, foi Casshern Sins. O projeto final desta animação era demasiadamente melodramático. E sim, como era de se esperar, prefiro o Casshern original de 1973, e mesmo o live action de 2004, que eu gostava de definir como um Jaspion (o mito!) com efeitos especiais do Homem Aranha de Sam Raimi. O animê ficou velho? Sim. Seu roteiro parece ultrapassado? Com certeza! Mas pense melhor sobre isso. Em 1973, Casshern era super-inovador! Diferente de sua releitura moderna. Tanto o original, quanto o seu mais recente revival, falam sobre a luta de um androide super-poderoso para libertar o mundo da tirania de furiosos super-robôs que invadiram a Terra. Casshern Sins conta a história com uma abordagem mais sombria que o original, com um tom semelhante ao filme live action de 2004. Existem muitos novos animês que mostram como ainda é possível contar uma história simples, sem necessidade de melodrama barato. É pedir muito de um animê que ele tenha um grande culminar emocional, como foi com o final de Cowboy Bebop? Aquele sim foi um final fantástico! Ele mostrou como todos os personagens reagem à sua própria maneira à decisão de Spike quando ele partiu para a sua luta final com Vicious. Os personagens choram, sentem raiva, passando uma grande sensação de realidade. As diferentes emoções deram uma tremenda profundidade final.
 

 
Um humor realmente engraçado
 
Animês atuais extremamente melodramáticos deveriam aprender a ter algum espaço para o divertimento. Falta um humor sincero e realmente engraçado nos animês de hoje, e não falo de apenas injetar algum odioso e estranho episódio filler como se vê com tanta frequência. Sei o que está pensando: "Mas alguns animês são voltados apenas para o drama! Não há espaço para o humor!". Bem, isso é verdade, mas há algum espaço quando é um desenho sobre a luta contra os problemas do mundo através do esporte e da amizade. A minha regra é que se o desenho não é como um Grave of Fireflies, então podemos injetar algumas risadas nele. Mesmo os animês mais pesados ​​dos anos 90 sabiam como divertir. Mobile Suit Gundam: The 08th MS Team é um animê com alguns temas mais sérios, o principal deles sendo a guerra, mas de vez em quando havia um momento para lembrar o espectador que, embora nós estejamos assistindo a um capítulo de uma space opera, seus personagens ainda têm interações divertidas uns com os outros e nos fazem experimentar algum humor na animação. Seria muito mais fácil conduzir um enredo mantendo o animê o mais sem graça possível, mas sem a breve pausa nesta seriedade, o público acaba se cansando.


 
Personagens memoráveis
 
Este não é um problema tão abrangente quanto passa parecer nos animês modernos. Existem personagens de obras mais atuais que são muito bem trabalhados com suas histórias, personalidades, enfim, personagens reais. O problema são personagens que repetem estilos já cansativos e manjados. Como você define personagens de séries como K-On!? Sei que a série deve ter uma grande legião de fãs. O motivo não posso compreender. É uma animação terrível. Tudo o que fazem é comer! E tocar mal os seus instrumentos!
E ainda há o problema dessa bizarra cultura moe que empesteia os animês modernos. Nunca mais veremos personagens fantásticos e únicos como Ikki de Fênix ou Toki, ou vilões memoráveis e carismáticos como Saga de Gêmeos ou Raoh.
Neste caso, por mais clichê que possa parecer, é melhor nos voltarmos para o passado. O animê atual precisa ser repensado com os rumos que ele toma, porque já está ficando muito descaracterizado. Mesmo Yugi Muto de Yu-gi-oh!, um animê sobre duelos de baralhos, é muito mais interessante do que grande parte dos protagonistas de certos desenhos animados do século XXI.
 

 
Shoujos melhores
 
Shoujo não é a minha praia, por isso não tenho muito mérito para escrever sobre ele. No entanto, com o limitado interesse que tenho pelo estilo, posso dizer que os desenhos para garotas até os anos 90 eram muito mais atraentes do que estes atuais.
O básico que percebo com relação ao animê para garotas é uma história com coisas meigas, chás, doces e música pop açucarada. Isso faz realmente fãs? Quando paro para pensar o que já vimos sobre shoujo no passado, ele pode ser também incrível! Nestas clássicas histórias, vemos meninas que também curtem coisas açucaradas, mas que salvavam vidas! Isso mesmo, jovem garotas que lutam contra o mal e salvam vidas! A grande sacada do clássico é que o seu público poderia ser primariamente as garotas, mas poderia também agradar na mesma intensidade aos outros públicos interessados por animação. Sailor Moon era muito top, as personagens eram muito divertidas, interessantes e fortes. Eu era fã do seu enredo cativante e das pernas da Sailor Mars! Também não podemos deixar de lembrar do ótimo Guerreiras Mágicas de Rayearth, embora este seja o único trabalho do CLAMP que me agradou, porque tinha algumas lutas e vários elementos de RPG.
Escaflowne era o meio termo, uma história Shoujo com elementos de Shounen, como batalhas de capa e espada e mechas. No tempo em que frequentava o Animefã na cidade onde atualmente moro, ele era chamado de "animê de viado" (em parte por seu romantismo excessivo e por seu traço bisonho), e ninguém dava o braço a torcer para defender as suas grandes qualidades, mas a sua história era inspiradíssima, sua trilha sonora (bem próxima da música sacra) era perfeita, e havia personagens fantásticos como Folken e Dornkirk. Mas agora que os anos passaram e ele se tornou um clássico, as pessoas parecem ter mais liberdade para apreciar as bem sacadas alegorias presentes em sua história.
Tudo isso fez do shoujo grande algum dia.


 
O enredo sobre o estilo
 
Era abundante a presença dos animês em nossas tevês nos anos 90. E o estilo da animação foi o que me atraiu em primeiro lugar. Mas parece que hoje em dia os valores da produção ganharam precedência sobre o enredo. O maior incômodo sobre alguns dos animês de hoje é que há geralmente um maior foco sobre a produção do que sobre o desenvolvimento de uma grande história. Quero dizer, sabemos que todos nós comemos com os olhos primeiro, mas todos também sabemos que, por vezes, o prato mais feio pode ser o mais delicioso. Mesmo que o desenho tenha valores de produção muito elevados, a produção não vai viver sem um enredo igualmente espetacular.
Trigun, Cowboy Bebop e Berserk tinham uma animação que nem chega aos pés das produzidas atualmente, mas apresentavam histórias interessantes e divertidas, e seus enredos eram fenomenais, os melhores já feitos em toda a história da animação.


 
Coração
 
Esse é o clichê dos clichês, um outro problema que eu já havia insinuado é que parece que em muitos animês de hoje está faltando algo muito simples: o coração. Animê atual tem o seu estilo; não bastaria apenas uma história legal para ele se tornar memorável? Está cada vez mais difícil encontrar animês com uma boa história e estilo e isso é uma vergonha. Tudo que eu quero é estar confortável enquanto assisto um programa de televisão, e não ficar irritado ou aborrecido. Apenas me entreter! Parecia que quase todos os animês antigos tinham o "coração" no centro da sua narrativa, como foi o caso de Rurouni Kenshin. Mesmo que fosse uma história abordando principalmente combates entre samurais (os melhores sem o envolvimento de poderes especiais) havia ainda uma história sobre um grupo de pessoas que acabam tornando-se uma família unida. Atrevo-me a dizer que a ideia de animê ficou muito comercializada. Mesmo que as produções modernas tenham o seu charme e grandes qualidades, faltam os questionamentos e a filosofia, a mãe de todas as ciências, apresentada nas antigas produções.

Frases ditas por Kenshin Himura:

"Assim como os dias passados não tem volta, as lágrimas não podem voltar aos olhos de quem as derramou."
"Os mortos não desejam a vingança, apenas a felicidade dos que vivem."
"Nenhum humano da sociedade deveria ser considerado menos valioso do que outro."
"Matar, mesmo que por justa causa, não é bom. Ao final restam apenas lágrimas e uma espada solitária."
"Cada um de nós tem a sua própria vida para viver. É uma jornada, não uma separação..."


 
Os animês clássicos eram mais verdadeiros
 
Este resume tudo o que foi apresentado nos tópicos anteriores.  O animê não era um desenho qualquer. Tinha uma atmosfera mais madura, com histórias sérias e um lado filosófico bem elaborado. Adultos curtiam e elogiavam as histórias e todas aquelas animações, tão boas quanto muitos filmes que também assistíamos. Desenhos animados cheios de risos, combates reais e drama, a receita completa para um programa de sucesso. O segredo está na simplicidade.


Nostalgia não define o sentimento por estas pequenas grandes obras!

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