sábado, 12 de setembro de 2015

TOP MEUS MANGAKÁS FAVORITOS


Há um grande número de surpreendentes autores de mangás, e ainda assim raramente esses criadores conseguiram fazer mais de um trabalho que valha a pena ler e conhecer. É muitas vezes difícil de acompanhar um grande trabalho com outra obra significativa, especialmente depois da exclusiva dedicação e dos grandes investimentos em um título anterior. Muitos deles se destacam sobre os demais por serem capazes de criarem novas tendências que por sua vez acabam influenciando os autores de gerações seguintes.
O mangaká trava uma verdadeira batalha para criar algo novo, que mantenha a originalidade e o mesmo nível de qualidade. Por esta razão segue uma lista homenageando alguns dos melhores mangakás, que têm sido capazes de enfrentar o desafio de criar várias obras de mérito. Para ser mais justo eu só estarei contando autores cujas obras eu li, e faço isso a fim de limitar as minhas escolhas para uma quantidade mais razoável e justa dos mangakás. Curiosamente essas limitações se tornam extremamente difíceis para mim. É preciso selecionar os mangakás com um número mais significativo de obras de sucesso que eu conheça e que mereçam aparecer na lista.
Se fosse colocar todos os mangakás cuja alguma obra eu goste, seria impossível fazê-lo com uma única postagem. E mesmo que alguns destes não apareçam, isto não significa que eles não sejam também autores excelentes. Também lembre-se que esta é a minha lista pessoal e reflete apenas os meus gostos e opiniões. Sinta-se livre para comentar, esta é a minha opinião e é quase certamente diferente de uma lista que você faria.
 

 
10º Lugar
Kentaro Miura

A única obra que realmente acompanhei de Kentaro Miura é o seu megassucesso Berserk, o que foi o suficiente para me tornar um grande fã do seu trabalho.
Nascido em Chiba, em 1966, começou a publicar mangá com a tenra idade de 10 anos, com o seu primeiro mangá Miuranger - feito por seus colegas de classe - que acabou abrangendo 40 volumes.
O seu mangá Futanabi rendeu-lhe a maior premiação pela Weekly Shonen Magazine. Sua continuação, Noa, não deu certo e sua carreira experimentou uma queda, mas ele se recuperou com o que se tornaria a sua obra-prima, Berserk, em 1989. Inspirado por filmes como Conan o Bárbaro, romances como Excalibur Guin Saga e outros mangakás como Go Nagai, o mangá Berserk ainda está em execução após mais de duas décadas e vendeu mais de 30 milhões de cópias em todo o mundo, além de receber o Prêmio Cultural Osamu Tezuka em 2002.
Berserk recebeu a sua primeira e mais famosa animação de 25 episódios em 1997. O animê, em si considerado uma sutil e sombria história clássica de fantasia, cobre o primeiro arco da história do mangá, e deixou os fãs em suspense durante anos. Recentemente os arcos em curso do mangá foram trazidos à vida na forma de novos filmes animados para os fãs que desejavam mais uma nova animação.
Ousar ser diferente, tratando seus personagens com temas sombrios e adultos, é um dos detalhes que fizeram de Berserk uma lenda.
 


9º Lugar
Buronson
 
Buronson, também conhecido como Sho Fumimura, é um mangaká japonês mais lembrado por sua famosa obra Hokuto no Ken. Isso mesmo, Buronson é o criador de Kenshiro e Raoh, não preciso dizer mais muita coisa, isso já é o suficiente para você considerá-lo foda!
Buronson nasceu como Yoshiyuki Okamura, em 16 de Junho de 1947, em Saku, Nagano. Ele se formou na Escola de Treinamento da Força Aérea Japonesa em 1967 e serviu como um mecânico de radar da Força Aérea. Em 1969 foi dispensado da Marinha Japonesa e logo foi contratado por Hiroshi Motomiya como um assistente de mangá. Mecânico, soldado e mangaká, só profissões másculas!
Começou sua carreira escrevendo o roteiro do Pink Punch: Miyabi em 1972, incentivado por Goro Sakai. Em 1975 Buronson escreveu seu primeiro grande sucesso, The Doberman Detective, desenhado por Shinji Hiramatsu. O famoso Hokuto no Ken desenhado por Tetsuo Hara fez sua estreia em 1983. Em 1989, sua história Ourou foi lançada como um mangá serializado na Animal Magazine, desenhada por Kentaro Miura, e em 1990 veio uma sequencia intitulada Ourou Den.
Okamura também colaborou com Ryoichi Ikegami em muitos trabalhos como Strain, Odyssey e do famoso Sanctuary. Entre suas outras obras importantes também podemos citar Phantom Burai, com arte de Kaoru Shintani.
O nome Buronson é uma homenagem a Charles Bronson, e de fato até o bigodinho do ator americano é imitado por Okamura.



8º Lugar
Kazuo Koike

Kazuo Koike é conhecido por sua escrita de contos sobre samurais e vingança, e sua obra mais famosa é o surpreendente Lobo Solitário. Apesar do claro fato de que muitas de suas histórias terem sido ofuscadas por Lobo Solitário, ele tem sido um excelente escritor em grande número de outras obras. O mangá Lobo Solitário é tão perfeito que nem deveria entrar na categoria história em quadrinhos, pois o seu conteúdo é pura literatura!
Suas melhores obras envolvem grandes personagens, e ele os coloca dentro de um cenário muitas vezes realista e duro (mais comumente o Japão medieval). Seus personagens são colocados contra enormes probabilidades, e o leitor parece observá-los enquanto eles lutam para atingir uma sensação de sucesso. Duas outros grandes obras ao lado de Lobo Solitário vêm à mente quando penso sobre o seu trabalho como escritor. A primeira delas é o mangá Color of Rage, um conto excepcional, uma história sobre dois homens, um japonês e um africano, que escapam de um navio negreiro americano e chegam ao Japão em meio a Era Edo. A história centra-se sobre as reações do povo japonês para com os estrangeiros, e a cultura Yakuza da qual tantos homens tornam-se parte. O outro trabalho, no entanto, é o moderno conto sobre gangues chamado Crying Freeman. Do pouco que eu li deste mangá, este envolve um homem que foi hipnotizado e é forçado a fazer atos tão horríveis que o fazem chorar depois de executá-los (como se essa suposta falta de livre-arbítrio pudesse redimi-lo). Eu sinto que este trabalho só vai longe em seu conceito porque é ousado e ainda cruza a linha do mau gosto tanto em violência quanto em conteúdo sexual. Neste trabalho faltava a originalidade ou os toques humanos realistas que fez Lobo Solitário e Color of Rage títulos tão poderosos. E este é o único motivo por Kazuo Koike não ocupar uma posição mais elevada nesta lista.


 
7º Lugar
Yoshihiro Togashi

Togashi é um dos meus criadores de shonen favoritos e é responsável por duas das séries mais interessantes de todos os tempos. Ele criou as obras Yu Yu Hakusho e Hunter X Hunter, sendo que ambas estão em um padrão muito acima do típico de obras shonen.
Hakusho é um dos primeiros trabalhos a estrelar nada menos que um perfeito punk arruaceiro como um herói, que luta ao lado de outro membro de gangue e um par de demônios. Em vez de fazer o típico bom modelo de herói encontrado na maioria dos shonen, Togashi escolhe o personagem mais moralmente ambíguo possível, um excluído social, e em seguida o eleva ao posto de herói da história. Seu herói é também um cínico e questiona coisas que a maioria dos heróis tomam como concedido, e não está tão ansioso para assumir seu posto como herói em primeiro lugar.
Sua segunda série, Hunter X Hunter, gira em torno de um mundo de fantasia onde existem os "Hunters". O sonho da maioria das pessoas é tornarem-se um destes Hunters, que podem assumir muitos tipos de cargos como caçadores de monstros ou de criminosos, arqueólogos, e eles são muito valorizados, sendo extremamente difícil se tornar um. Gon e seu amigos desejam tornarem-se Hunters para sobreviverem em um mundo perigoso, repleto de animais monstruosos, governantes corruptos e outros vilões. A cada personagem é dada a sua história particular que é convincente, e fortes motivações para as suas ações. Cada novo arco também traz novos conceitos e novos desafios para os heróis enfrentarem. Há muitos elementos fantásticos para a construção do mundo de Hunter X Hunter, ele nos fornece uma grande quantidade de diferentes facções, áreas, dispositivos, criaturas e até mesmo um sistema de habilidades de luta com uma ciência por trás dele.
Ambos estas obras são bem escritas e têm histórias cheias de ação e inteligentemente cativantes. Essas características permitem que Togashi fique bem além de muitos outros escritores shonen.
Obs: Se Hunter X Hunter não sofresse tanto com os hiatos, sua colocação poderia ser ainda maior.



6º Lugar
Go Nagai

Go Nagai é um gênio! Um autor revolucionário, considerado um tipo de Alan Moore japonês. Ele foi muito além e conseguiu como ninguém unir ficção científica, fantasia, horror e erotismo na mesma obra.
Nagai foi severamente criticado por seu mangá Harenchi Gakuen (1968/1972), gerando diversos protestos entre governo e sociedade pelo erotismo presente em algo destinado a um público de menores de 18 anos. Controverso e polêmico, dos autores certamente foi o que mais bebeu na fonte da Década de Ouro do Japão dos anos 50, com as criaturas gigantescas introduzidas pelo cineasta Ishiro Honda, o pai de Godzilla.
As obras de Nagai estão além de toda perversão e violência, e você encontra várias camadas contendo críticas sociais. Independente de se gostar ou não, ou da forma que se absorva suas obras, sua importância para a indústria como um todo é indescritível.
 

 
5º Lugar
Leiji Matsumoto

Leiji Matsumoto nasceu em Kurume, distrito de Fukuoka, em 1938, e ele passou a dominar o mundo do animê na década de 70, para o deleite de toda uma geração de fãs.
Ele começou sua carreira em 1953 desenhando mangá shojo romântico para meninas e, embora ele não gostasse desse gênero, você pode ver a influência que estes seus trabalhos teriam para os próximos anos.
Na década de 60, Matsumoto realizou o seu primeiro mangá no estilo shonen e seu primeiro sucesso foi a série Otoko Oidon de 1971 que era sobre as aventuras de um jovem que estava se preparando para a faculdade. Contudo, a sua maior realização foi em colaboração com Yoshinobu Nishizaki na série de animê Space Battleship Yamato, uma animação épica, até hoje reverenciada como a melhor série animada feita para a TV em todos os tempos. Nishizaki concebeu a série em 1973, mas foi Matsumoto que revelou todo o seu talento com seus projetos de incríveis naves espaciais e direção de arte brilhante. E ainda a seguir nos apresentou o Capitão Harlock e Galaxy Express 999 que têm todos lugar no mesmo universo.
Pelos anos 80, novas séries de animês como Macross levariam os animês de ficção científica para o próximo nível. No entanto os fãs de animê de hoje devem perceber que Matsumoto foi essa ponte entre o que Tezuka estava fazendo na década de 60 e os desenhos mais sofisticados que apareceriam na década de 80. Toda vez que você ver uma personagem feminina com cabelos incrivelmente detalhados ou algum pouco de mechas sofisticados, as chances de que você esteja vendo algo com forte influência de Leiji Matsumoto são realmente grandes.


 
4º Lugar
Takehiko Inoue

Antes de se tornar mangaká, Inoue foi assistente de Tsukasa Hojo no mangá de grande sucesso City Hunter. Seu início como mangaká foi em 1988 com Kaede Purple, publicado pela Shonen Jump e com o qual ganhou o Tezukashiyo, prêmio criado para homenagear Osamu Tezuka, o pai dos quadrinhos japoneses.
O que faz um mangaká bom? A maneira da escrita? O sucesso de suas obras? Sua arte? Sua história? A quantidade de orgia que ele faz por dia? Bom, eu acredito que o melhor managaká é aquele que melhor desempenha seu papel, seja ele artista ou roteirista. Se for artista, sua arte tem que ser excelente, e se for roteirista sua história tem que ser perfeita. Independente do sucesso, o importante é ter uma história incrível, fazendo uma obra espetacular.
Se ter uma obra dessas já basta para qualquer mangaká no mundo, imagine ter DUAS OBRAS SENSACIONAIS que são referências em qualquer categoria em que estiver?
Takehiko Inoue conseguiu esse feito. Depois de trabalhar como assistente no mangá City Hunter, Takehiko resolveu serializar o mangá que se tornaria o mais adorado do Japão: Slam Dunk.
Slam Dunk é um mangá de esportes. Mais especificamente de basquete. Conta a história dos alunos de basquete do colégio Shohoku, e suas lutas profissionais e pessoais para alcançarem os seus sonhos.
Eu poderia designar esse mangá com uma única palavra: Excepcional!
É um dos melhores mangás de todos os tempos. A emoção que Takehiko conseguiu criar no mangá é como assistir um filme. Mesmo lendo um monte de imagens paradas eu me sentia tão animado e intenso que tive um choque de adrenalina!
Slam Dunk foi um mangá tão incrível, que é considerado pelos japoneses como o melhor mangá de todos os tempos. A popularidade no Japão foi imensa. Slam Dunk é o quarto mangá mais vendido da história, com 120 milhões de cópias vendidas, mas lidera em porcentagem de volumes vendidos/número de volumes. Em média, Slam Dunk vendeu 3,85 milhões  por volume, um recorde mundial.
Bom, apenas isso já seria um motivo para Takehiko Inoue entrar nesse top. Mas o cara não se contenta em fazer apenas isso. Takehiko então cria o segundo melhor mangá de samurai de todos os tempos: Vagabond.
Vagabond é um mangá baseado em fatos reais, que conta a história do maior samurai de todos os tempos: Miyamoto Musashi. Porém Takehiko conta de uma maneira tão perfeita e realista, que é considerado um dos trabalhos mais perfeitos da cultura japonesa. Jamais alguma obra sobre Musashi foi tão fiel aos fatos como Vagabond. É por isso que é considerado por muitos como o segundo maior mangá samurai de todos os tempos (o primeiro sendo Lobo Solitário, uma verdadeira obra-prima dos mangás).
O fato é que ter duas obras incrivelmente idolatradas e usadas como referências em qualquer categoria é um fato histórico. Takehiko deixou mais que provado que é um mangaká absurdamente competente.
 

 
3º Lugar
Akira Toriyama

A maioria das pessoas conhecem Toriyama graças ao sucesso de Dragon Ball, mas poucos realmente percebem que o maior talento deste mangaká é com a comédia alucinada e escrachada, que podemos conferir em sua obra-prima Dr.Slump, considerado o melhor mangá de humor de todos os tempos.
Dr.Slump foi seu primeiro grande trabalho no Japão a ser serializado em vários volumes. Seu enredo baseia-se em Senbei Norimaki, um inventor atrapalhado que fora apelidado de Dr.Slump. Ele decide construir a menina robô perfeita (parodiando o conceito do Astro-Boy). O que ele acaba criando é Arale Norimaki, uma menina-robô de óculos e super forte. Este trabalho é muito divertido e é uma vergonha que muitos fãs de Dragon Ball não o conheçam ou não tenham interesse por ele.
Dragon ball ainda é visto como o mais importante trabalho de Toriyama, um épico de artes marciais ocorrendo ao longo da vida do guerreiro Son Goku. A série começa como uma comédia e, eventualmente, se transforma em um épico, envolvendo batalhas cósmicas entre super-seres alienígenas.
O que eu amo sobre Toriyama é que ele possui tantos trabalhos com uma notória sensação distinta entre eles, e ainda claramente compartilham elementos estilísticos comuns. Ambos têm um grande senso de humor pastelão e toneladas de diversão para ler. Além do humor, ambos os trabalhos se concentram mais em excitar o leitor com o ritmo constante de ação e comédia, em vez de proporcionar uma trama detalhada. Isso funciona como a vantagem de Toriyama nessas histórias, mantendo a leitura constantemente empolgante.



2º Lugar
Katsuhiro Otomo

A maioria das pessoas estão cientes do trabalho de Otomo pelo filme Akira, mas por incrível que pareça muito poucas pessoas realmente leram o mangá no qual o filme é baseado.
O mangá Akira é mais longo, mais complexo, e tão estranho quanto o filme que ele gerou. A história tem um conflito muito mais profundo, envolvendo uma série de facções e movimentos interessantes, todos inflamados por um garoto com o desenvolvimento de enormes poderes psíquicos. A história é um forte comentário sobre uma série de questões sociais (um tema comum entre muitos grandes escritores), incluindo a violência de gangues, movimentos religiosos, as drogas, a corrupção política e campanha militar agressiva. A arte utiliza um estilo detalhado e impressionante que o torna um dos mangás mais visualmente espetaculares disponíveis.
Ainda mais obscura, mas quase tão boa quanto a série anterior é Domu. Este trabalho é sobre o conflito causado por um velho senil com poderes psíquicos que está cometendo assassinatos em um complexo de apartamentos. Ele acaba usando seus poderes para lutar com uma criança que se muda para o mesmo apartamento e também tem incríveis poderes psíquicos que se opõe a ele. A história se resolve em torno dos temas de irresponsabilidade entre as figuras adultas e os problemas causados por ambientes urbanos densos. Conta-se que Otomo buscou inspiração com a experiência que teve ao mudar-se para Tóquio, na época em que eram registrados números absurdos de suicídios em diferentes complexos de apartamentos.
Estas duas obras mostram a capacidade espetacular de Otomo para desenhar, assim como o seu gosto de usar poderes psíquicos como parte das histórias, e a importância que ele coloca em cima do comentário social.


 
1º Lugar
Naoki Urasawa

Naoki Urasawa é um dos melhores, se não o melhor escritor de suspense da indústria do mangá. Os trabalhos de Urasawa incluem obras-primas como Monster, 20th Century Boys e Pluto.
Urasawa é muito profissional quando se trata de criar ação emocionante, reviravoltas inteligentes na história, personagens profundos, e sua escrita rapidamente cativa o leitor. Ao mesmo tempo, suas obras são muito humanistas, mesmo quando focadas em robôs ou serial killers. Seus personagens são preenchidos com uma personalidade que normalmente não são simplesmente bons ou o maus de maneira estereotipada. Seus personagens têm profundidade e credibilidade reais, permitindo que a sua motivação e lutas sejam fáceis de entender.
Urasawa também levanta muitas questões importantes, tanto a nível universal e pessoal, incluindo a profissão médica, a polícia, a justiça, a amizade, a política, a capacidade de obter o perdão e a dificuldade ao lidar com o que é certo e errado. Claramente é muito influenciado pelo trabalho de outro grande mangaká (que vem a seguir nesta lista), e de fato ele realmente realizou uma adaptação de uma obra deste mesmo autor em uma de suas próprias obras.
São muitas as maneiras que Urasawa transborda de grande estilo e temas, com a adição de mais realismo além uma abordagem mais sombria.


 
O DEUS DO MANGÁ
Osamu Tezuka

Caso seja possível que você ainda não conheça este mangaká, então você precisa ir e ler um trabalho de Tezuka, antes de continuar.
Há uma boa razão pela qual Osamu Tezuka é conhecido no Japão como o "Deus do mangá". Tezuka, é o responsável pelo desenvolvimento das modernas industrias de mangá e animê, e por isso também é aclamado como o "pai do mangá moderno". As suas obras são quase exclusivamente obras-primas, cada uma delas apresentam um tipo criativo, corajoso e excitante de premissas. Até mesmo suas obras mais tolas tem uma mensagem importante que vale denotação.
Tezuka foi, mesmo para nossos padrões atuais, extremamente revolucionário em seu uso de temas, mostrou muita disposição para explorar a todos os tipos de tópicos em profundidade que os outros normalmente ignoram como a sexualidade, a culpa, a religião, a ganância, o racismo, o preconceito, o sistema médico, a Segunda Guerra Mundial, transtornos mentais, sexismo e deformidade física. Ele também fez bom uso de seus conhecimentos médicos e suas experiências pessoais, combinando-os com sua fonte inesgotável de imaginação em muitas de suas histórias.
Ele aplicou seu conhecimento do corpo em excelentes dramas médicos, tais como Ode to Kikihito e Black Jack. É evidente nestas obras que Tezuka tem forte compreensão sobre o que ele está escrevendo, e usa essa compreensão para fins criativos e emocionantes. As obras de Tezuka também são extremamente bem escritas, às vezes a sua escrita pode parecer complexa ou mesmo simples, mas, independentemente da complexidade, sua mensagem sempre mantém um tom natural.
Tezuka ainda tem um senso especial de humor auto-referencial, com um conjunto de piadas para seus fãs como o seu estranho cameo de em um número de personagens de suas próprias obras. Ele mesmo criou um sistema de seleção de elenco para seus personagens com um salário para cada um destes que usou em várias obras. Osamu Tezuka é um criador tão importante e qualificado que eu posso dizer com segurança que você precisa ler o seu trabalho. As habilidades de Tezuka vão muito além de qualquer elogio que posso dar em um tópico tão curto como este. Eu aconselho não só a leitura de qualquer trabalho que você possa encontrar, mas também a leitura de sua biografia, como Deus dos Quadrinhos: Osamu Tezuka, e Criação no Pós-Segunda Guerra Mundial ou A Arte de Osamu Tezuka: Deus da Mangá.
 

 
Menção Honrosa
Kia Asamiya

Kia Asamiya é uma adição bastante estranha para esta lista e para ser honesto eu normalmente nem o teria colocado aqui, e também poderia ter pensado em uma outra posição mais digna nesta lista.
Ele fez uma série de obras interessantes que valem muito a pena ler. Os melhores dos seus trabalhos geralmente têm um estilo super-herói gótico, e suas mais importantes obras são Steam Detectives, e Batman: Child of Dreams. Seus melhores trabalhos também tendem a ser divertidos de ler, e imitam claramente o estilo e narrativa dos quadrinhos norte-americanos de ação.
Infelizmente o outro trabalho que eu li de sua autoria é Silent Möbius, que tem muito de 1980, mas também a sensação de que não envelheceu bem, é muito confuso para ler devido ao seu estilo de arte, e é muito menos agradável que seus outros dois trabalhos já citados.
Nenhuma de suas obras são originais ou suas maiores realizações são muito semelhantes entre si. Ele merece aparecer nesta lista porque algumas de suas obras foram realmente marcantes para mim, e pude conhece-las graças ao US Mangá, e em seus trabalhos ele mostra uma profunda compreensão de escrever histórias de estilo gótico, sem falar que é um apaixonado pela mitologia dos super-heróis.


Mesmo que alguns dos nomes presentes nesta lista andem um pouco sumidos, ainda é possível que possam retornar e criar algo realmente grandioso. Com certeza ainda não nos esqueceremos deles, mesmo daqueles que já faleceram.
E, é claro, não podemos deixar de sonhar com que os grandes nomes da atualidade, os nossos mangakás que hoje são os favoritos, não fiquem tão presos a um único título e assim possam criar algo novo e divertido, e assim nos surpreendermos cada vez mais. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

PARTICULARIDADES "OFENSIVAS" DOS ANIMÊS

O mundo dos animês trata essencialmente de ficção ou fantasia. Apesar de também apresentar laços ou aspectos reais do nosso mundo, eles ainda se encontram no reino de algo que não é real. Então, novamente, como qualquer outra forma de mídia, uma série ou gênero de animê também tem seus momentos "ofensivos". Claro não estou dizendo que todos ou a totalidade do gênero animê é ofensiva, mas coisas que são normais para alguns talvez sejam ofensivas para os outros, tendo em mente que as pessoas tem suas próprias opiniões e sentimentos.
Recentemente, graças a Play TV, acompanho Yugioh, um animê de grande sucesso que conheci ainda na adolescência. Foi gratificante rever o VERDADEIRO Yugioh. A série não tem nada de grandioso, mas cumpre o seu papel, ela diverte! Maximillion Pegasus é um dos vilões mais engraçados e divertidos de todos os tempos, o vilão que todo animê merece!
Não estou muito certo, mas acredito que Yugioh foi o primeiro animê que acompanhei regularmente cuja versão ocidental foi massacrada pela tesoura da censura norte-americana. Cenas grotescas em que armas de fogo seguradas pelos personagens são substituídas por inofensivos dedos, e diálogos e até mesmo o roteiro foram alterados de modo que o sentido original da série quase totalmente se perdeu. E mesmo com tudo isso, o animê eventualmente era acusado de pregar o satanismo por fanáticos religiosos desocupados como o boçalíssimo Gilberto Barros.  
A cultura do Japão é ainda algo pouco conhecido por todos nós ocidentais, digo isso mesmo sendo fascinado pelo país que produziu algumas de minhas animações favoritas e mesmo depois de ler e estudar tanto sobre esta cultura. Assim, aquele conteúdo de um desenho que pode ser inofensivo para um oriental pode ofender alguns ocidentais, principalmente aqueles que não tem a mente muito aberta e são pouco receptíveis às outras culturas.
Ainda que nunca tenha sido a intensão, séries de animê já causaram controvérsia devido ao seu conteúdo. Para ilustrar melhor esta discussão, selecionei algumas das maiores controvérsias presentes na animação japonesa.
A palavra ofensivas aparece entre aspas no título da postagem porque nenhum destes itens que vocês verão a seguir foram por mim considerados ofensivos. Se todos estes temas são bem executados podem render excelentes histórias. O único problema é quando os temas são usados com o único intuito de chocar para atrair a audiência.

 

 
Abuso de animais
 
Em algumas séries de animês existem vários tipos de criaturas, de bichinhos adoráveis a monstros aterrorizantes. É natural que os animais em certas séries de animê tenham papéis distintos onde eles podem falar e exalar emoções. Em alguns casos, os animais regulares e não-sencientes normalmente obtém seu papel padrão de ser um animal. Há certas séries de animês que têm determinados cenários onde eles retratam o abuso de animais. Em alguns casos, o abuso é muito grave, mas quando feito, é para o bem da trama. O abuso animal pode ser algo ofensivo para alguns. Pokemon por exemplo é uma série que é fortemente desaprovada pelos ativistas animais (putz).
 
 
                                     
Hokuto No Ken!
 
 
 
 
 
Ultra-violência e Gore
 
Para o espectador médio de animê, alguma violência e gore talvez não seja algo muito ofensivo. Existem séries de animê especializadas em sangue e violência, portanto, alguns frescos espectadores tendem a ficar longe delas. Certos animês apresentam um episódio onde ocasionalmente eles podem abusar demais de cenas de violência gráfica, cenas violentas ou sangrentas. Aqueles que não estão familiarizados com o animê e que ainda estão julgando esses gêneros pela primeira vez podem ficar ofendidos. Os pais mais conservadores vão surtar quando verem seus filhos assistindo alguma série violenta e sangrenta de animê. Isso só é comum porque mais uma vez eles não estão bem informados sobre a animação japonesa. Então, nos dias de hoje, as séries mais violentas e sangrentas são constantemente atenuadas ou censuradas antes de serem liberadas no ocidente.
 
                                    
                                    
Devilman
Violência, Gore e cenas proibidas para menores.
Animês violentos são os mais legais!
 


 
 
 
Incesto
 
Para os que não estão familiarizados com o assunto, o incesto de que estamos falando é um afeto erótico ou íntimo entre dois membros de uma família. Eles podem ser dois irmãos, primos, pai e filho, enfim entre quaisquer dois personagens consanguineamente relacionados. Algo como isto por si só pode ser um pouco perturbador para se ouvir, mas, em alguns casos, existem animês que podem retratá-lo como algo normal ou não como um problema real, a menos que uma das partes não o aprove. Em alguns animês, o incesto presente é realmente mantido como segredo ou não. Ele pode ser um pouco perturbador e ofensivo, mas a maioria dos espectadores dos animês deste gênero não se importam.
 
 
Pietro Maximoff Ultimate deve ter curtido isso.
 
 
 
 
 
Representações estereotipadas de personagens femininas
 
Hoje o feminismo, o sexismo ou qualquer tipo de representação de mulheres geralmente é inspecionado com cuidado. Isso vale o mesmo para o animê também. Não estou dizendo que as mulheres de animês em geral estão sendo maltratadas, mas há alguns casos restritos descritos geralmente como estereotipados. Mulheres estereotipadas podem significar que elas geralmente são retratadas como personagens desamparados. Muitas vezes podem ser descritas como personagens inúteis ou tendem a ter esse sintoma de donzela em perigo. Entretanto há muitas séries de animês com personagens femininas fortes, inspiradoras e que não são realmente estereotipadas de qualquer forma.
 
 
Hermes Costello e Jolyne Kujo, heroínas que
fogem de qualquer estereótipo.
Animês e mangás também estão repletos de
mulheres como estas.


 
 
 
 
Hipersexualização de personagens femininas
 
Estereótipos ofendem, mas há ainda o caso da representação sexual de certos personagens de animê do sexo feminino. No animê, algumas mulheres são lembradas por seus atrativos femininos. Estamos falando de algumas personagens vestindo roupas muito sensuais ou mesmo seminuas, além é claro de serem incrivelmente provocantes e atraentes para nós espectadores do sexo masculino. Podem haver algumas espectadoras do sexo feminino que se ofendam com esta hipersexualização, e também podem alegar que nem todas as mulheres têm tais atrativos ou não deveriam ser sempre retratadas de tal maneira. É outro caso em que a maioria da fanbase não parece se importar.
Só para ficar claro, algumas personagens principais de animês são retratadas de tal maneira, mas isso não diminui em nada o seu desenvolvimento.
 
 
Fujiko Mine não é apenas sensual, ela é uma personagem ÉPICA.
O fato da personagem ter uma sensualidade bem aparente e explorada
não a torna apenas um fanservice.
Fujiko não é apenas a mulher mais desejada dos animês, mas possivelmente a
mais poderosa de todos os animês.
 
 
 
 
 
 
O abuso contra mulheres e crianças
 
Assim como qualquer outra forma de mídia, a fim de progredir ou contar uma boa história, haveria algumas cenas envolvendo o abuso de mulheres e crianças. Já falei a respeito do assunto do estupro na ficção, que muitas vezes pode ser utilizado de uma forma muito estúpida, apenas para chocar, assim como o incesto ou o assassinato, mas há situações em que ele pode ser muito bem utilizado sem ser o tema principal da história.
A narrativa da história quando bem executada pode servir para alertar o espectador para o real problema do estupro, plantando um grande ódio para com o agressor e piedade para com o abusado. Se um assassinato já é algo bastante grave, não há notícias de algo ainda mais grave do que o estupro que já tenha acontecido em um animê, pelo menos não nos últimos tempos.
 
 
                                  
Berserk: Cenas fortes.
 
 
 
 
 
Estereótipo racial
 
A maioria das séries de anime não tem uma descrição clara sobre raça ou etnia que um personagem tem. Eles são geralmente definidos pela cor de seu cabelo, embora personagens de animês tenham diferentes cores que podem variar do azul, branco e muitas mais. Uma descrição fácil, por outro lado, é a cor da pele, ou a menos que a série afirme especificamente a etnia a qual eles podem ter.
Há alguns séries de animês que apresentam representações estereotipadas raciais. Assim como alguns personagens negros ou afro-americanos tendem a ter estereótipos como o amor ao hip hop, rap e outros. Então, novamente, por vezes esses estereótipos são geralmente amigáveis e simpáticos por natureza.
 
 
Há quem diga que no mundo dos animês, se um personagem é norte-americano, ou ele é um vilão
ou ele é um herói trapalhão. Concorda?
 
 
 
 
 
Religião
 
A religião é um dos temas mais sensíveis no mundo de hoje. No animê, geralmente, não é um grande negócio, mas algumas séries tendem a usar a religião como um motivo. Ele não tem que ser o motivo principal, mas certas facções, eventos ou até mesmo personagens tendem a ser filiados a uma determinada religião.
A religião de uma determinada série não tem necessariamente o mesmo nome de religiões reais conhecidas, mas certas semelhanças e as aparências podem nos ajudar a identificar qual a religião real em que a série está se baseando. Normalmente aqueles que estão comprometidos com a religião provavelmente vão sentir-se ofendidos por isso.
 
 
Este é o personagem histórico Amakusa Shiro Tokisada:
Líder da rebelião de Shimabara.
Este é Sogo Amakusa:
Inspirado em Shiro Tokisada, mas é quase
um antepassado nipônico do Inri Cristo.
 
 
 
 
 
 
Plot Armor
 
Este delito, o Plot Armor é mais aplicável para aqueles que são seguidores incondicionais de animê. Então, aqueles espectadores mais imparciais e que possuem um senso crítico mais apurado sobre as particularidades da história e lógica do produto que estão vendo também podem ser ofendidos por isso.
Plot Armor é geralmente um evento onde uma situação parece ser terrível, mas é resolvida graças a conveniência. Geralmente é ofensivo, uma vez que de algum modo compromete parte do enredo de uma forma tola. É tipo aquela situação em que o personagem principal está à beira da morte e de repente é salvo da maneira mais estúpida ou ridícula possível. E este personagem normalmente acaba ganhando uma grande legião de hatters.
Seiya de Pegasus dos Cavaleiros do Zodíaco é o campeão das situações envolvendo Plot Armor, alguns até dizem que o Kurumada protege o personagem como se fosse seu próprio filho, e claro que isso gera sentimentos negativos por parte de fãs da animação sobre o personagem, que diga-se de passagem é muitíssimo melhor no mangá (assunto do próximo item).
Alguns personagens até ganharam apelidos (o do Seiya era "Encosto"), simplesmente porque eles nunca morrem devido ao auxílio de uma armadura salvadora.
 
 
                                   
A primeira das centenas de vezes foi épica!
 
 
 
 
 
 
Animê que altera o seu material fonte
 
Séries de animê, quando são concebidas fora do seu material de origem, como um mangá, um videogame ou um romance, podem deixar alguns fãs ofendidos. Mas isto só se aplica para aqueles que não leem ou têm conhecimento do material de origem. Se determinados conteúdos ou eventos importantes são alterados ou editados então estes fãs provavelmente irão rejeitar a animação.
Os fãs ficam muito bravos com relação a isso, mas talvez em alguns casos, sua raiva seria justificável, especialmente se certas cenas ou partes da história original fossem pesadamente editadas. Há certas série de anime que não seguem o enredo do material de origem, mas desenvolvem o seu próprio roteiro e os personagens.
Um resultado muito positivo deste caso é a primeira animação baseada no mangá original de Fullmetal Alchemist em 2003. Este animê altera drasticamente enredo e personagens, mas o resultado final é muito bom e interessante. A personagem Lust, por exemplo, é um Homúnculo tanto no mangá quanto neste animê, mas na animação ela foi concebida tendo uma vida passada como uma mulher de Ishibal, o que trouxe uma maior carga dramática a personagem. Embora, em na minha opinião particular, ainda prefira o mangá e o animê mais recente Fullmetal Alchemist Brotherhood, que segue seu material de origem fielmente.
Um exemplo negativo desta situação é o próprio animê dos Cavaleiros do Zodíaco que foge bastante do mangá, principalmente em seu início, alterando roteiro e modificando drasticamente os personagens. O Hyoga de Cisne era muito mais complexo e interessante do que sua versão animê, o Ikki de Fênix era bem mais cruel e traumatizado pelo seu passado, e o Shun de Andrômeda não era um pobre coitado como aquele que vemos no animê. E sem mencionar alguns Cavaleiros de Ouro, como Shura de Capricórnio que na versão mangá é um traidor e aliado de Saga de Gêmeos, assim como Máscara da Morte e Afrodite, por ser um adepto da mesma ideologia "justiça definida pelos mais fortes", mas ainda assim capaz de encontrar a sua redenção ao redimir-se de seus crimes como um herói antes da morte.
 
 
Como falei no início sobre censuras e adaptações, Yugioh é muito interessante para se analisar as diferenças entre animê e mangá e, é claro, a versão original do desenho animado e a adaptação feita pela tão odiada 4KIDS.
Mas, se acha que Yugioh foi a primeira vítima da tesoura, no começo dos anos 90 tivemos Kyatto Ninden Teyandee, e no início dos anos 80 tivemos Saber Rider, ambas adaptadas pela Saban, caso não esteja enganado.
 
Kyatto Ninden Teyandee (ou Samurai Pizza Cats).
Apesar da aparência inocente e adorável, e de seguir o
estilo "kodomo", a versão original é repleta de piadinhas
envolvendo sexo e violência.
Divertidíssimo!
 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

X-MEN NOTURNO E AS REFLEXÕES HEROICAS E SOCIAIS


Kurt Wagner, o mutante Noturno, é um dos mais populares da franquia dos X-Men, o grupo de super-heróis da Marvel Comics criado em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby. Os super-heróis mutantes, com a evolução de suas histórias, desenvolveram uma grande aproximação com a justiça e as causas sociais, que criaram conflitos muito interessantes para tais contos. Os X-Men foram o reflexo do seu tempo, nos anos 60 o mundo vivia o medo da Guerra Fria, a Guerra do Vietnã, na América surgiam os primeiros movimentos organizados em favor dos direitos civis e as questões raciais, e a nação norte-americana era considerada doente por muitos, visto os seus grandes problemas sociais.
Noturno é um homem de aparência demoníaca, mas que possui uma notável nobreza intrínseca. No entanto, nunca manteve com sucesso uma própria série, e com o tempo tornou-se mais um personagem secundário para os X-Men. Ficou conhecido como a "consciência" dos X-Men, mas isso só significava que, em algum momento decisivo, ele poderia aparecer para dar uma opinião moralizante que os outros personagens poderiam aceitar ou reagir contra, como parte de suas próprias histórias. Noturno é principalmente um suporte, e isso é uma vergonha, porque ele é realmente muito interessante.
 
Giant Size X-Men # 1
Kurt Wagner cresceu no circo, mas desde sempre era visto pela maioria das pessoas como uma aberração. De pele azul, corpo coberto por pelos, possuindo apenas dois dedos em cada pé e três em cada mão, e uma longa cauda preênsil, Kurt dificilmente ganharia quaisquer prêmios para a beleza. Mas (convenhamos) ele é de certa forma adorável. Noturno é sempre o primeiro X-Men para quem os fanáticos anti-mutantes apontam o dedo para dizer "como você pode chamar isso de ser humano?" Então como ele lida com o fato de que a sua própria existência enche as pessoas com, no máximo, repulsa e, na pior das hipóteses, ódio assassino?
 
UXM # 167
Em seu coração, ele é um palhaço, um ator, e, como um artista circense, gosta de se exibir. Kurt assume a persona de um fanfarrão e um brincalhão jovial, porque sabe que as pessoas julgam pelas aparências. Ele não pode mudar a sua aparência física, mas certamente pode mudar a forma de como as suas ações o farão parecer. Se ele pode representar tudo o que há de bom e heroico, o oposto de sua aparência, ele pode conquistar as pessoas. E mais importante, pode se convencer de que é uma pessoa nobre e decente.
 
UXM # 142
Noturno é um grande ator afinal. Ele dá a cada ação que toma uma qualidade exagerada, não apenas para impressionar as pessoas, mas porque acredita que fazendo este papel pode realmente ser nobre e digno. É um grande amigo, sempre vai tentar alegrar um companheiro que está triste, mesmo que também esteja triste por dentro.
 
A Era Escalibur
Nenhum personagem fictício sentiu a picada do fanatismo religioso mais do que Kurt Wagner, ele um cristão católico devoto que, no entanto, enfrentou perseguição mesmo por membros da própria cristandade, bem como pela sociedade em geral. A aversão superficial ao herói devoto Noturno por causa de sua aparência demoníaca aparentemente não é diferente daquela demonização que os grupos fundamentalistas infligem às comunidades que constantemente perseguem.
 
AXM #92
Saga Guerras Secretas. Surge o Beyonder.
O grande contraste entre a sua aparência e a sua fé é uma das características mais interessantes do personagem, um claro exemplo de que não devemos julgar pelas aparências.
Os grupos supremacistas sempre foram um dos maiores problemas sociais da nação norte-americana. Grupos que pregam o ódio, muitas vezes seitas religiosas que se sustentam a partir de sua interpretação particular de versículos bíblicos, inclusive utilizando-se destes argumentos para justificarem a escravidão. Grupos estes autoproclamados cristãos principalmente do sul dos Estados Unidos são as "mães" das muitas das atuais seitas que inundam a América Latina. A pregadora Ellen White, considerada por muitos uma profetiza, influenciou muitas comunidades norte-americanas que congregavam pessoas brancas, e ela desaconselhava a união entre brancos e negros, pregava a segregação racial e teorizava origens para os povos não-caucasianos que não cabe a mim enumerar aqui, por isso aconselho a pesquisar. 
 
AXM v1 #14
O ativista mutante Charles Xavier vs o antropólogo anti-mutante Bolivar Trask. 
Os X-Men nos falam sobre o que é ser diferente e a reação da sociedade frente a essa diferença. Mas as histórias também deixam claro que nem todos os mutantes são oprimidos que buscam aceitação, há também aqueles que são malignos, e os mutantes que devem ser aceitos são aqueles que lutam pelo bem comum, isto é, os heróis. Assim, X-Men é essencialmente um conto sobre ética, convivência pacífica e, principalmente, sobre liberdade. Uma lição valorosa para a realidade onde brigamos entre nós para determinarmos quem é o mais oprimido afinal.
No início de tudo, o vilão Magneto em nada lembrava o agressivo ativista negro Malcom X, estando mais próximo dos violentos e revolucionários Panteras Negras. E o professor Xavier não parecia interessado em defender os direitos mutantes, concentrando-se no combate a estes mutantes malignos, o que faria dele um contrarrevolucionário. Apenas com a evolução das histórias ele se converteria em um tipo de ativista mutante.

X-Men Animated Series
Jubilee: O que nós fizemos contra vocês?
Graydon Creed Jr: Vocês nasceram!
Muitos dos crimes de ódio anti-mutantes são instigados pela ideia de que os mutantes são uma corrupção da natureza ou do "Grande Desígnio de Deus", e, em alguns casos, ambos. Grupos de ódio conhecidos como os Amigos da Humanidade, liderados por Graydon Creed Jr, o meio-irmão humano de Noturno, e os Purificadores, liderados pelo pastor fundamentalista William Stryker, são conhecidos pela perseguição implacável aos mutantes sob essas premissas. Ambos têm uma estranha semelhança com a Ku Klux Klan (a KKK), um grupo de ódio conhecido por promover a segregação racial e crimes violentos contra minorias étnicas - pregam o nacionalismo branco, o anticatolicismo, o antissemitismo, o terrorismo cristão, etc. Poucas pessoas reconhecem a KKK como uma seita protestante do cristianismo. Não estou sugerindo que a KKK deva ser tomada como uma organização cristã legítima (a própria ideia é ridícula), mas é um fato histórico que as suas crenças são baseadas em sua livre interpretação da Escritura. No entanto, da mesma forma como podemos definir claramente o terrorismo fictício dos Amigos da Humanidade e dos Purificadores, grupos de ódio na vida real devem ser vistos como nada mais do que criminosos, independentemente de qualquer afiliação religiosa a qual aleguem pertencer.
 
God Loves, Man Kills
Noturno é religioso, e é muito sincero com relação as suas crenças, é onde reside grande parte da sua profundidade como personagem. O uso da religião pode influenciar um personagem tanto positiva quanto negativamente, dependendo da interpretação dada pelos escritores e da opinião dos leitores. Noturno, alguns interpretariam, é religioso pela mesma razão que ele é um super-herói de capa e espada, porque acredita ser necessário. Ele parece demoníaco, qual a melhor maneira de minar isso do que ser abertamente devoto? Mas para qualquer um (simpáticos ou não ao lado religioso do personagem) isso não quer dizer que ele não acredita, mas que secretamente duvide ser digno, algo que parece ficar claro neste seu recente retorno aos quadrinhos.

AXM # 3
Essa dúvida é importante. Nós leitores sabemos que Noturno é uma pessoa boa e nobre, mas ele parece temer tudo o que realmente é. Inconscientemente, teme ser realmente um monstro e não um nobre heroico. Quando as circunstâncias o forçam a questionar suas ações ou quando reconhece que está escolhendo desempenhar um papel, torna-se paralisado com a dúvida e o medo.

NC # 1
Noturno retornou aos quadrinhos. O personagem foi massacrado pela terrível fase de Chuck Austen nos X-Men, quando somos apresentados ao pai biológico de Kurt Wagner, o mutante também de aparência demoníaca Azazel. Não vou entrar em detalhes sobre esta fase porque seria deprimente demais. Tempos depois, Noturno morreu de forma nobre ao salvar Hope Summers, a messias mutante, do vilão Bastion e, após anos de espera, retornou ao teleportar-se do paraíso para a Terra em uma das ressurreições mais forçadas (porém necessária) já vistas nos quadrinhos, e uniu-se novamente aos X-Men para impedir os planos de seu pai de conquistar o paraíso com um exército de mortos-vivos (!). Mas, em compensação, seu retorno rendeu uma história empolgante, e o reencontro com seus colegas X-Men faz qualquer um fã saudoso das antigas se emocionar.
 
AXM # 6
AXM # 6
O personagem ganhou uma nova e incrível série solo escrita por Chris Claremont, o autor que mais escreveu sobre o personagem, então eu acho que é seguro destacar que, caso você seja um fã e ainda não tenha visto, você deve ver! E também é uma ótima opção para quem ainda não conhece o personagem.
 
O arco inicial foi fortemente baseado em nostalgia, com Kurt lembrando de sua antiga vida, os amores da juventude, e as suas clássicas aventuras.
Kurt está de volta à terra dos vivos e envolto pelas calorosas boas-vindas de sua família adotiva, os X-Men. No entanto, estamos vendo um Kurt profundamente impactado por eventos e inseguro do homem que agora é. Ele também se reencontra com a sua verdadeira mãe, a terrorista mutante Mística. Certamente Mística não seria classificada por alguém como uma "boa" mãe, mas ela é a primeira a perceber que algo mudou em Kurt, e que ele não é exatamente o homem que era.

AXM # 6
AXM # 6
Eu percebo que Azazel está no topo da lista de personagens de apoio menos favoritos, mas eu confesso que gostei muito dele no filme X-Men First Class (bem longe do mero "satanás mutante" dos quadrinhos), e a nova interpretação que deram ao personagem nesta fase dos quadrinhos parece interessante (Legal o fato dele agora ter os seus próprios BAMFS, e fiquemos na torcida para que ele se distancie mais e mais da sua antiga representação e se aproxime da sua versão cinematográfica). Por tudo isso, acaba sendo divertido ver Noturno, Mística e Azazel interagindo.

NC # 5
Kurt está cheio de dúvidas, e não tem ideia se pertence mesmo ao nosso mundo ou se pertence ao mundo que deixou para trás para sempre. Como lidar com isso? Ora, ele se esforça para tentar recuperar o homem que ele era, é claro, ou pelo menos o homem que ele via a si mesmo ser.
Se ele se senta e conversa com seu amigo padre ele pode dizer muito legitimamente que viu o paraíso. A sua volta seria uma expressão da sua fé? Toda a ideia de fé é sobre acreditar em algo sem nenhuma prova tangível. Agora que ele tem a prova tangível e o que isso faz para a sua fé? Isso lhe dá um senso de equilíbrio e um sentido de propósito.

NC # 1
Ele parece querer ver a si mesmo e o seu mundo, nos termos de suas lembranças idealizadas.
Escolhe não pensar sobre o que aconteceu com os X-Men, com o Cisma, com a morte de Charles Xavier, ou com o que seu antigo líder Ciclope significa para ele agora. Em vez disso, ele opta por procurar Amanda, sua irmã de criação e antiga namorada.
 
NC # 2
Kurt não é nada se não tenaz e, desta vez, aparentemente decidiu fazer as coisas funcionarem com Amanda. Mas com a aparição do novo vilão Trimega, descobre no entanto que, assim como com os X-Men, as coisas não são como se lembrava. Este reencontro também trás de volta Margali e serve basicamente para nos lembrar da outra família de Noturno, o clã Szardos.
 
NC # 3
Claremont também nos lembra sobre quem os X-Men realmente são, e aquilo que eles querem realizar no lado não-revolucionário do cisma. E Kurt também dá o primeiro passo em sua nova vida, como um mentor para jovens mutantes, e ainda há a introdução de outros vilões como os Piratas Carmesim.
 

NC # 5


NC # 5

A mutação genética de Noturno torna-o inerentemente profano. No entanto, a mutação genética em si não é algo que possa ser avaliado em um calibre moral. Ter pele azul, orelhas pontudas, e uma cauda não faz Noturno "satânico", e a mutação nada tem a ver com visões religiosas. A perseguição e a aversão ao que Noturno é vem de uma percepção, e não de um fato.
No segundo filme dos X-Men, lançado em 2003, Kurt Wagner é retratado como um homem de oração, buscando na fé a coragem para sobreviver as suas provações, mas também o descreve como sendo sobrecarregado com sentimentos de culpa. Ele carrega marcas em seu corpo (símbolos angelicais) como uma espécie de penitência por seus pecados. Em contrapartida, nos quadrinhos, a fé de Kurt geralmente é retratada como uma fonte de serenidade e como sua motivação para amar e perdoar aqueles que o perseguem.

X-Men 2
 Tempestade (Halle Berry) e Noturno (Alan Cumming)
Noturno e Tempestade tem um química incrível neste filme (assim como nos quadrinhos), e seus diálogos são os melhores. Kurt afirma em um momento que sabe que existem muitas pessoas que o odeiam, mas ele não tem raiva delas, ele na verdade sente pena, porque essas pessoas só conseguem enxerga-lo com os seus próprios olhos. Quando Tempestade retruca dizendo que a raiva pode ajudar a sobreviver naquele mundo violento, Noturno responde que assim também é a fé. Este diálogo mostra que a serenidade do personagem foi preservada em sua adaptação para o cinema.
 
New Mutants # 45
Kitty Pryde
O incrível discurso de Kitty Pryde em Novos Mutantes # 45, quando do suicídio do jovem mutante Larry Bodine, resume o que há de melhor nos X-Men. Assim, Chris Claremont, em seu auge, retrata certos dilemas sociais com muita simplicidade e com um discurso que acerta em cheio estas questões.

Martin Luther King e presidente John F. Kennedy, juntos aos
representantes dos movimentos pelos Direitos Civis dos Negros.
Chris Claremont, através de Kitty, oferece um dos mais belos discursos sobre aceitação e respeito já feitos nas histórias em quadrinhos. Muitos podem até criticá-lo por não manter mais o nível das histórias que escrevia nos anos 80, mas o seu legado é valioso para a história da humanidade, e isso é indiscutível.
 

O que há de tão imponente sobre Noturno é que, mesmo diante da traição, nunca permite o seu coração endurecer, nem devolve o ódio vomitado contra ele. Em sua primeira aparição na série animada dos X-Men nos anos 90, Wolverine o chama de "louco", referindo-se a perseguição que ele enfrenta devido à sua aparência, mas Noturno responde que no mosteiro católico é valorizado pelo caráter de seu coração, e não por sua aparência. A fé de Noturno é testada quando traído pelo irmão Rinehart, que conta ao povo da cidade que desejava matá-lo que ele residia no mosteiro. No caos que se seguiu, Noturno não ataca nem condena Rinehart, mas simplesmente aponta que tal destruição, o mosteiro em chamas no fim daquele conflito, "foi o fruto de seu trabalho, não meu". Da mesma forma, confrontou a confissão de sua mãe Mística, que o rejeitou e disse diante dele que não desejou seu nascimento. Noturno não a perdoa à princípio, mas afirma por suas convicções que buscará forças para ser capaz de perdoa-la e assim deseja que ela possa também se perdoar. Nesse momento Mística percebe que sempre amou o seu filho.

                                            
 
Noturno escolheu desempenhar um papel, mas o mesmo acontece com todos nós. Todos nós escolhemos quem somos. Nossas ações são o que nos definem, não a nossa natureza. Ninguém realmente nasce "nobre" ou "bom". Mas uma vida de opressão, sendo considerado um demônio real, convenceu-o de que as pessoas têm naturezas intrínsecas. Ele é o X-Men em quem os outros mais confiam, mas é também aquele que mais precisa que os outros confiem nele. Para mim, essa luta interna entre a sua aparência exterior e as suas convicções é o que há de mais valoroso nele, e o tornam de longe o melhor personagem dos X-Men e um dos melhores da Marvel Comics.


Seja bem vindo de volta, Kurt!

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